Álvar Núñez Cabeza de Vaca (Xerez da Fronteira, 1488/1492 – Sevilha, 1556/1559), também conhecido na historiografia lusófona por Álvaro Nunes Cabeça de Vaca, foi um colonizador espanhol que esteve na América duas vezes. A primeira em 1527 na expedição de Pánfilo de Narváez para o território da Flórida, sobre a qual escreveu o livro Naufrágios, publicado em 1542 em Samora. A segunda estância foi como governador do Rio da Prata, de 1540 a 1544, de onde volta preso. Sobre este período escreveu seu secretário, Pero Hernández, os Comentários, publicados junto do primeiro relato em 1555 em Valladolid. É conhecido por ter sido o primeiro europeu a descrever as Cataratas do Iguaçu e explorar o curso do Rio Paraguai.
A data de nascimento de Cabeza de Vaca é incerta, variando entre 1490 e 1492, em Xerez da Fronteira, cidade espanhola localizada na Andaluzia. Fazia parte de uma família nobre, o que era suficiente para dar a Cabeza de Vaca acesso à educação e à corte. Filho de Francisco de Vera, e de Teresa Cabeza de Vaca y de Zurita (segundo a tradição espanhola, o nome materno é colocado após o nome paterno). Era neto de Pedro de Vera.
O nome Cabeza de Vaca provém do século XIII. Seu antepassado, Martín Alhaja, era um pastor espanhol que ajudou o rei castelhano Afonso VIII durante a Batalha das Navas de Tolosa, em 1212. Alhaja, que conhecia bem a área, ao pastorear suas ovelhas colocou um crânio de vaca no caminho que levava ao acampamento dos mouros. Assim, o rei cristão surpreendeu o exército mouro e o derrotou. Esta foi a primeira vitória significativa para a reconquista cristã da Espanha. Por sua ajuda, o rei Afonso VIII deu a Alhaja o título de Cabeza de Vaca («Cabeça de Vaca») e o brasão de armas, cujo desenho contém o crânio de uma vaca.
Álvar Núñez Cabeza de Vaca, em meados dos seus 15 anos, tornou-se um caballero («cavalheiro») de Xerez da Fronteira, a serviço do duque de Medina Sidônia. Em seu mais de um quarto de século como cavalheiro, teve como inspiração para carreira militar o seu avô, Pedro de Vera y Mendoza, o conquistador da ilha de Grã Canária, que veio a falecer em abril de 1506.
Condecorado pela bravura demonstrada em 11 de abril de 1512, tornou-se alferes da cidade de Gaeta, a qual é localizada próxima a cidade de Nápoles. Dentre seus maiores feitos como militar, há de ser destacada a luta contra os rebeldes do movimento comunero («comuneiro»), ajudando posteriormente a reconquistar o Alcázar de Sevilha. Encerrou sua carreira militar em 1522, na batalha de Puenta de la Reina, em Navarra.
Após tal batalha, retirou-se do serviço militar e foi tentar a sorte no Novo Mundo, local no qual não participou de combates como soldado, até que na província do Rio da Prata, em sua segunda viagem à América, entrou em conflito contra os guaicurus por haverem recusado sua proposta de paz.
Cabeza de Vaca partiu para o Novo Mundo, como tesoureiro da esquadra comandada por Pánfilo de Narváez, em 1527, ano em que abandonou a vida construída na Espanha como soldado e alcoviteiro, e, no dia 15 de abril de 1528, desembarcou na baía de Tampa, Flórida. Sua empreitada mostrou-se extremamente arriscada após poucos meses de ocupação daquele território, quando viu-se como um dos 22 sobreviventes de uma expedição de 600 homens.
Pensando estar próximo de minas de ouro, o comandante da expedição, Pánfilo de Narváez, ignorou a vontade de Cabeza de Vaca e partiu em busca do valioso metal, resultando em grandes baixas de homens e não encontrando o tão precioso ouro. Perdidos, tiveram que assassinar seus cavalos para se alimentarem, dentre outros sacrifícios realizados em prol da sobrevivência. Compreenderam então as durezas do Novo Mundo, terra que prometia imensa fertilidade, mas que, ao mesmo tempo, parecia cada vez mais inóspita a seus invasores. Finalmente o grupo de Cabeza de Vaca conseguiu materiais necessários para a construção de cinco pequenas embarcações, com capacidade máxima para 50 pessoas cada um (o grupo era de aproximadamente 10 pessoas), para explorarem o México. Acabaram por chegar ao golfo do rio Mississípi, onde foram recebidos por um tornado, que dispersou o grupo e resultou no desaparecimento de diversas embarcações, dentre elas, a capitaneada por Narváez, chefe da expedição.
Os sobreviventes ainda tentaram inutilmente reparar as embarcações, mas quase todos eles acabaram sendo facilmente capturados, escravizados e mortos por diversas tribos indígenas. Afinal, restaram apenas Andrés Dorantes de Carranza, Alonso del Castillo Maldonado, o marroquino Estebanico, e o próprio Álvar Núñez Cabeza de Vaca, que conseguiram fugir para a Cidade do México, de onde Cabeza de Vaca pôde retornar à Espanha em 1537.
Nesta expedição, Cabeza de Vaca explorou o território hoje ocupado pelo estado do Texas, e os mexicanos Tamaulipas, Novo Leão e Coahuila. Não podemos afirmar que a primeira expedição de Álvar Núñez Cabeza de Vaca tenha sido totalmente perdida entre infortúnios e desencontros, já que ele acabou por conquistar a simpatia de diversas tribos indígenas, passando a atuar como mercador.
Depois de finalmente alcançar as terras colonizadas de Nova Espanha, onde encontrou companheiros espanhóis perto da atual Culiacã, Cabeza de Vaca conseguiu chegar à Cidade do México. De lá, embarcou de volta para a Europa em 1537. Muitos pesquisadores tentaram traçar o percurso exato de Cabeza de Vaca. Como ele só começou a escrever sua crônica de viagem quando já havia retornado à Espanha; seu relato foi feito de memória, e ele já não se lembrava exatamente do trajeto. Cientes de que seu relato apresenta numerosos erros de cronologia e geografia, os historiadores têm trabalhado para juntar as peças do quebra-cabeças, e reconstruir os caminhos do explorador.
Após sofrer com um naufrágio (que será retratado posteriormente), Cabeza de Vaca avistou um grupo conhecido de viajantes, sendo eles os capitães Andrés Dorantes e Alonso del Castillo. Logo, Cabeza de Vaca pôde concluir que estaria livre da sua condição de sobrevivente e poderia finalmente chegar a Pánuco (no atual estado mexicano de Veracruz); porém, não conseguindo alcançar o grupo, permaneceu junto à uma tribo de índios, e ali tornou-se escravo.
Como tal, foi selecionado para realizar tarefas pesadas e desgastantes, como colher raízes profundas do fundo d’água, ou participar da safra de cana. Após passar mais de um ano como escravo, optou por fugir para uma tribo vizinha: os charrucos. Tornou-se comerciante na mesma região, estabelecendo-se ali por anos, enquanto tentava convencer o seu companheiro Lope de Oviedo a deixar a ilha e fugir, ideia a qual não era bem vinda por Oviedo, que não sabia nadar, e tinha receio de vir a falecer em tal empreita. Somente em 1533 que ambos deixaram a ilha, e finalmente encontraram seus companheiros, os mesmos capitães que Cabeza de Vaca e Oviedo não conseguiram alcançar: Andrés Dorantes e Alonso del Castillo, que não diferentes de Cabeza de Vaca e Oviedo, tornaram-se escravos de tribos indígenas distintas. Cabeza de Vaca optou por permanecer com seus companheiros, opção a qual foi veementemente refutada por Oviedo, que foi-se embora e nunca mais foi visto. Após seis meses vivendo como escravos, todos os três companheiros de viagem (pois Oviedo havia deixado o grupo) decidiram por fugir em uma situação oportuna, já que os índios que os escravizavam entraram em conflito entre eles. Finalmente, em 1534, com fama de curandeiro, Álvar Núñez Cabeza de Vaca foi para a tribo dos avavares.

