Filipe III da Borgonha, dito Filipe, o Bom (Dijon, 31 de julho de 1396 — Bruges, 15 de junho de 1467) foi um príncipe francês da terceira ramificação borgonhesa da Dinastia Capetiana, Duque da Borgonha, de Brabante e das Dezessete Províncias de 1419 a 1467, dentre outros títulos.
Era filho único do Duque da Borgonha, João I, dito João sem Medo. Estendeu os seus domínios à Antuérpia e em 1430 casou-se em terceiras núpcias em Bruges com Isabel de Portugal filha de D. João I, instituindo a Ordem do Tosão de Ouro para celebrar este casamento. Isabel destacou-se naquela que seria a mais rica e refinada corte europeia de então e o filho de ambos, Carlos, o Temerário, viria a suceder Filipe.
Filipe tornou-se duque após o assassinato de seu pai em 1419, um evento que o marcou profundamente e influenciou a sua política inicial. Em retaliação contra os Armagnacs, que culpava pela morte do pai, e contra o Delfim Carlos, Filipe aliou-se à Inglaterra durante a Guerra dos Cem Anos. Foi uma figura chave no Tratado de Troyes (1420), que reconhecia Henrique V da Inglaterra como herdeiro do trono francês.
Contudo, as suas prioridades centraram-se na consolidação e expansão dos seus próprios territórios. Através de herança, compra ou conquista, adicionou aos seus domínios o Condado de Namur (1429), os ducados de Brabante e Limburgo (1430), e os condados de Hainaut, Holanda e Zelândia (1432). Em 1435, no Tratado de Arras, reconciliou-se com Carlos VII de França, reconhecendo-o como rei em troca de uma virtual independência para a Borgonha e da confirmação das suas aquisições territoriais. Mais tarde, adquiriu ainda o Ducado do Luxemburgo (1443).
O seu longo reinado foi um período de grande prosperidade económica e esplendor cultural para os territórios borgonheses, especialmente Flandres e Brabante. A sua corte era itinerante, mas passava longos períodos em Bruxelas, Bruges ou Lille. Filipe foi um notável patrono das artes, apoiando pintores como Jan van Eyck e Rogier van der Weyden, músicos como Gilles Binchois e Guillaume Dufay, e a produção de manuscritos iluminados de luxo. O fausto da corte borgonhesa e as suas complexas cerimónias e festas tornaram-se um modelo para outras cortes europeias.
Apesar do epíteto "o Bom", atribuído talvez mais pela prosperidade do seu ducado do que por uma natureza particularmente benévola, o seu governo também enfrentou desafios, incluindo revoltas urbanas, como em Bruges (1436-1438) e Gante (1449-1453), que reprimiu com severidade. Nos seus últimos anos, a saúde de Filipe deteriorou-se e o seu filho Carlos assumiu progressivamente as rédeas do governo. Filipe morreu em Bruges em 1467, deixando um vasto, rico e complexo conjunto de territórios, conhecido como o Estado Borgonhês, que o seu filho e sucessor, Carlos, o Temerário, tentaria, sem sucesso, transformar num reino independente entre a França e o Sacro Império Romano-Germânico.
Nascido em Dijon em 31 de julho de 1396, filho único do duque de Borgonha, João sem Medo e de Margarida da Baviera, filha do Duque da Baviera.
Casou-se, em 1409, aos treze anos de idade, com Michelle de Valois, que tinha quatorze anos, filha do rei Carlos VI de França. Ela lhe dará uma filha, Agnes de Borgonha.
Filipe III de Borgonha tornou-se duque de Borgonha em 10 de setembro de 1419, quando da morte de seu pai, João sem Medo, apunhalado por ordem de seu inimigo, o delfim Carlos (futuro rei Carlos VII de França).
Filipe III decidiu, após o encontro de 25 de dezembro de 1420, manter a aliança com a Inglaterra contra o delfim da França a fim de vingar a morte de seu pai com a ajuda do rei Henrique V de Inglaterra. O duque de Borgonha, Filipe, o Bom, o rei Carlos VI de França e o rei Henrique V de Inglaterra formaram, então, uma tríplice aliança contra o delfim (o futuro Carlos VII), colocando a legitimidade em questão ao acusar Carlos VII de ser fruto de um caso amoroso entre sua mãe, Isabel da Baviera, com Luís de Orleães, irmão do rei da França Carlos VI). Carlos VI, portanto sendo supostamente o tio, e não o pai do delfim Carlos VII, posiciona-se contra a ideia de ser sucedido por este no trono; Carlos VII também supostamente fora o responsável pela morte de João sem Medo, entre outros crimes. Assim, juntamente com sua esposa Isabel de Baviera, Carlos VI apoia seu genro Filipe, o Bom, casado com sua filha Michelle de Valois. Os dois reis e o conde assinam o tratado de Troyes, contra Carlos VII, a 21 de maio de 1421, na catedral de Troyes.
A 2 de junho, na mesma catedral, no entanto, Henrique V de Inglaterra desposa Catarina de Valois, filha legítima de Carlos VI de França e de Isabel da Baviera. Fica concordado que após a morte de Carlos VI de França, Henrique V da Inglaterra tornar-se-á rei da França por seu casamento com uma herdeira legítima da trono da França, irmã da esposa de Filipe, o Bom.
Filipe de Borgonha captura Montereau com a ajuda de Henrique V da Inglaterra, exuma o cadáver de seu pai (João sem Medo, assassinado em um encontro sobre a ponte de Montereau), e o faz enterrar na capela de Champmol de Dijon, ao lado de seu avô, o duque de Borgonha Filipe, o Forte. Filipe, o Bom, reclama depois reparação pela morte de seu pai. O chanceler Nicolas Rolin julga a favor de Filipe, o Bom, mas Henrique V da Inglaterra nega-se a acatar a decisão judicial sobre o assassinato, desrespeitando, assim, a promessa feita em Rouen.
Em 31 de agosto de 1422,Henrique V da Inglaterra, pouco antes de morrer, pede a seu irmão, o duque de Bedford, que confie a regência de seu sucessor, Henrique VI da Inglaterra, ao duque de Borgonha Filipe, o Bom. Este se nega.
A esposa de Filipe, o Bom, Michelle de Valois, morre a 8 de julho de 1422 em Gante, com 26 anos. Em 1424, Filipe, o Bom se casa com Bonne de Artois (filha do Conde Filipe de Artois), que morre um ano depois.
A 1 de setembro de 1422, Henrique VI da Inglaterra torna-se rei da Inglaterra com dez meses de idade. É seu tio (o irmão de seu pai, o duque de Bedford), que se torna o regente do trono inglês até à maioridade do sobrinho.
A 21 de outubro de 1422, o rei da França, Carlos VI, falece. É assim que Henrique VI da Inglaterra se torna rei da Inglaterra e da França com um ano de idade. O duque de Bedford torna-se, igualmente, regente do trono francês. O delfim Carlos de França é afastado do trono. Esta situação marca o início da segunda fase da Guerra dos Cem Anos entre a França e a Inglaterra.

