Águeda de Catânia, Águeda de Palermo ou Águeda da Sicília, também conhecida como Ágata (em italiano: Agata; em siciliano: Agata; em latim: Agatha; em grego clássico: Αγαθη; romaniz.: Agathe; Catânia ou Palermo, c. 235? – Catânia, 5 de fevereiro de 251) foi uma virgem e mártir do século III, de acordo com a tradição cristã. Segundo seus "atos" era oriunda duma família rica de Catânia ou Palermo e teria vivido quando sua cidade era controlada pelo consular Quinciano. Foi martirizada por ele durante a perseguição do imperador Décio (r. 251–253). Sua festa litúrgica é celebrada em 5 de fevereiro.
A lenda escrita de Águeda compreende "relatos diretos do interrogatório, tortura, resistência e triunfo que constituem alguns dos mais antigos da literatura hagiográfica", e estão refletidos nas recensões posteriores, o mais antigo deles sendo uma paixão ilustrada do final do século X, provavelmente originária de Autun, na Borgonha, que constitui um volume compósito, atualmente preservado na Biblioteca Nacional da França. Suas ilustrações marginais, como relatado pela historiadora Magdalena Carrasco, pertencem às tradições iconográficas carolíngia ou antiga tardia.
O principal relato escrito sobre seu martírio é a Legenda Áurea de 1288 de Tiago de Voragine, porém há também Uma Lenda de Mulheres Santas de Osbern Bokenham que foi escrita na década de 1440 e oferece alguns detalhes complementares.
Embora o martírio de Águeda seja autêntico, e sua veneração como santa tenha se espalhado para além de sua terra natal ainda na Antiguidade, não há informação fiável concernente aos detalhes de sua morte. Tanto Catânia quanto Palermo, ambas na Sicília, reclamam a honra de serem sua cidade natal, porém foi em Catânia que seu martírio ocorreu. É incerto a data de seu nascimento, com os historiadores dividindo opiniões; Sarah Gallick, por exemplo, sugeriu o ano 235.
Seus "atos", existentes em grego e latim, não são considerados como fontes fiáveis. Segundo a Legenda Áurea de 1288 de Tiago de Voragine, pertencia a uma família rica e ilustre siciliana e aos 15 dedicou sua virgindade a Deus, conseguindo triunfar a muitas investidas contra sua pureza. Quinciano, um romano de nascimento humilde que foi nomeado oficial em Catânia, aproveitando-se do decreto emitido pelo imperador Décio (r. 249–251) em 250 ou 251, convocou-a e planejou pôr em prática seus planos malignos para enriquecer. Ao ver-se nas mãos de seus algozes, Águeda teria orado "Jesus Cristo, Senhor de todos, tu vês o meu coração, tu sabes os meus desejos. Apenas tu possuis tudo o que sou. Sou sua ovelha: faz-me digna de superar o Diabo."
De início, Quinciano ordenou-lhe que fizesse sacrifícios aos ídolos, comando que não acatou numa demonstração de fé resoluta. Em seguida, foi entregue à Afrodísia, uma mulher perversa que administrava, com suas seis filhas, uma casa dita de má-fama. Nesse lugar, Águeda sofreu investidas contra sua honra mais terríveis que tortura ou morte, mas permaneceu firme, alegando: "Minha coragem e minha mente estão tão firmemente fundadas sob a pedra firme de Jesus Cristo, que por dor alguma podem ser mudadas; suas palavras [não] são mais que vento, suas promessas [não] são mais que chuva, e suas ameaças [não] são mais que ameaças como rios que passam, e mesmo que todas estas coisas choquem a base da minha coragem, ainda por isso ela não se move."
Depois de um mês, Afrodísia contactou Quinciano e lhe disse que, apesar de enormes esforços, fracassou em convencê-la a abjurar sua fé cristã. Ao ouvir isso, Quinciano convocou Águeda para ser julgada e tentou convencê-la a sacrificar aos ídolos mediante ameaças, mas ela retrucou que eles não eram deuses e sim demônios dourados feitos de mármore e madeira. Após um longo diálogo no qual Quinciano ameaçou-a inúmeras vezes, ela foi espancada e jogada na prisão. No dia seguinte tentou convencê-la novamente, mas ela se recusou, o que fez o oficial ordenar que fosse esticada numa cremalheira, um aparelho de tortura cheio de barras e ganchos de ferro nas laterais onde a vítima era queimada com tochas.
Ele ordenou que os seios dela fossem esmagados e cortados. Em reprimenda, Águeda teria dito: "Demasiado criminoso e tirano cruel, não tens vergonha de cortar aquilo em uma mulher que tu sugaste em tua mãe, e da qual tu foste alimentado? Mas eu tenho meus seios inteiros em minha alma, da qual eu nutro todos os meus juízos, [e] da qual ordenei servir nosso senhor Jesus Cristo, desde o começo de minha juventude." Quinciano então enviou-a para a prisão, onde permaneceu sem comida e auxílio médico. Ali, a virgem recebeu uma visão de São Pedro que a reconfortou com uma luz divina e a curou de seus ferimentos.
Quatro dias depois, Quinciano obrigou-a a se enrolar nua em brasas misturadas com cacos de tigelas quebradas, porém esta tortura foi interrompida em decorrência dum grande tremor que destruiu vários edifícios e matou Silvano e Fastião, respectivamente o conselheiro e amigo Quinciano. Temeroso que a população poderia voltar-se contra ele após o incidente, o oficial ordenou que Águeda fosse novamente colocada em sua cela. Ao retornar à cela, ela teria orado: "Senhor, meu Criador, tu sempre me protegeste desde o berço; tu me tiraste do amor do mundo e me deste paciência para sofrer. Recebe agora minha alma." Depois disso, teria deixado de viver.
Após a morte de Águeda, seu corpo foi recolhido e sepultado pelos cristãos. Enquanto eles preparavam-o com pomadas para o embalsamamento, alegadamente teria surgido um jovem vestido em seda acompanhado por uma multidão ricamente vestida que nunca foi vista na cidade. O jovem acompanhou a procissão que carregava Águeda e prostrou-se próximo aonde o corpo seria depositado. Quando a falecida foi depositada no túmulo, ele colocou, na cabeça do corpo, uma pequena tábua de mármore na qual estava escrito em latim Mentem sanctam, spontaneam, honorem deo dedit et patriæ liberationem fecit ("Você tem mente santa que Deus lhe deu a honra e salvou a pátria"). O corpo de Águeda foi sepultado na Catedral de Catânia. No século XI, se descobriria que seu corpo estava "incorrupto".
Segundo a Legenda Áurea, algum tempo depois Quinciano faleceria de uma morte terrível, embora não seja mencionada a causa do óbito. Um ano após estes eventos, no começo de fevereiro, um grande incêndio irrompeu das montanhas em direção a Catânia queimando tudo em seu caminho. Desesperados, os catanenses foram ao sepulcro de Santa Águeda e recolheram o véu que estava em sua tumba e seguraram-o em direção das chamas, que alegadamente se extinguiram em 5 de fevereiro, dia de sua celebração. Com o fim do perigo, o véu foi devolvido ao túmulo e passou a ser venerado como uma das relíquias da santa.
Águeda é celebrada como santa pela Igreja Católica e Ortodoxa e sua festa litúrgica ocorre dia 5 de fevereiro. Há evidências que seu culto surgiu desde a Antiguidade. Ela está listada numa cópia do Martirológio de Jerônimo do século VI em associação com Jerônimo e no Calendário de Cartago (Sinaxário) de ca. 530. Também aparece num hino de autor anônimo preservado na obra do papa Dâmaso I (r. 366–384), em um dos carmes de Venâncio Fortunato do século VI, bem como é descrita numa procissão de santas na Basílica de Santo Apolinário Novo em Ravena, na Itália. Existe panegíricos dedicados a ela da autoria de Isidoro de Sevilha (século VI), São Adelmo (século VII) e do patriarca do século IX Metódio I (r. 843–847).
Duas igrejas do fim da Antiguidade Tardia em Roma lhe foram dedicadas, uma edificada pelo papa Símaco (r. 498–514) na Via Ápia ca. 500 e que atualmente encontra-se em ruínas, e outra, chamada Santa Águeda dos Godos, que foi adornada e entregue aos godos arianos ca. 460/470 pelo oficial romano Ricímero. Papa Gelásio I (r. 492–496) numa carta endereçada a certo bispo Vitor faz menção a uma "Basílica de Santa Águeda" e durante o pontificado do papa Gregório I (r. 590–604) vários santuários foram edificados para abrigar algumas das relíquias de Águeda, que ali permaneceram até serem transladadas para o Mosteiro de São Estêvão em Capri. Ainda há outro igreja, Santa Águeda em Trastevere que, segundo o Livro dos Pontífices, teria sido fundada na casa do papa Gregório II (r. 715–731).