Érika Kelly Pereira "Kiki" Coimbra (Belo Horizonte, 23 de março de 1980), é uma ex-jogadora de voleibol brasileira. Foi medalhista de bronze na Olimpíada de Sydney 2000 com a Seleção Brasileira e é a atual secretária municipal de esportes e Lazer da cidade de São Paulo desde abril de 2026.
Érika começou sua trajetória no vôlei atuando nas categorias de base do Mackenzie Esporte Clube, de Belo Horizonte, em 1990, aos 10 anos, sob o comando do mestre Delicélio Rodrigues Júnior, que rasgou elogios à atacante ainda na base do clube:
A primeira grande atleta que tivemos no nosso trabalho de formação foi a Erika Coimbra. Foi eleita a melhor atacante do mundo em um campeonato infantil e teve grande destaque, principalmente no primeiro time do Bernardinho.
Foi no tradicional clube mineiro que deu os primeiros passos no esporte entre 1990/91 e 1996/97. O talento precoce chamou a atenção e logo ganhou espaço também no time adulto, o Batavo Mackenzie, onde se profissionalizou com 14 anos, se firmando como uma das promessas da nova geração. Apesar de ser um talento, quase desistiu do vôlei por condições financeiras:
Fiquei com medo quando cheguei ao Mackenzie porque todos os pais levavam as meninas de carro, os tênis delas... tudo a gente repara na adolescência quando não tem tanto conhecimento…
As mães assistiam aos treinos, mas meus pais tinham mais dificuldades, porque tinham que pegar 4 ônibus. Então, não entrava no orçamento me assistir. Comecei a ver aquilo como algo muito diferente do meu mundo.
Aí comecei a falar para minha mãe que não queria continuar e ela indagava o porquê. Na época, não sabia me expressar e inventava uma desculpa de que caía num buraco ou algo assim, desisti do voleibol naquele momento.
Antes que pudesse desistir, outra treinadora dos tempos de Mackenzie salvou Érika de abandonar o esporte. Regina foi uma pessoa muito especial em sua carreira. Quando Érika ficou alguns meses sem treinar, Regina transformou sua mente.
Ligava para casa da minha vó porque não tinha telefone em casa. De tanto insistir, minha mãe começou a me levar. Fui com a Regina, conversei com ela em uma salinha no Mackenzie e ela transformou minha cabeça… isso foi em 1994.
Ela falou: ‘Olha, você vai para a Olimpíada, você tem todo o potencial, eu vou te lapidar, porque sei que você vai chegar, você é a melhor…’. Encheu minha cabeça com essas informações e eu acreditei.
Então, segui no Mackenzie e ajudei o time a ganhar o Metropolitano depois de anos sem conquistar um título. Dali participei do Sul-Americano na base pela seleção, me destacando mais e mais”.
Ascensão nacional e DDS (Desordem no Desenvolvimento Sexual)
A evolução foi rápida, e Érika passou ao Rexona Paraná Vôlei Clube, onde jogou de 1997/98 a 2000/01, sendo comandada por Bernardinho. Destacou-se de forma decisiva, sendo peça importante no time e ganhando ainda mais projeção. Inclusive, chegando a Seleção Brasileira juvenil.
Foi no Mundial júnior, aos 17 anos, em 1997, quando havia sido considerada a melhor do mundo no torneio, que descobriu a doença DDS (Desordem no Desenvolvimento Sexual).
O exame era bucal. Todas faziam, independentemente de toda a documentação que comprovasse que éramos do sexo feminino. Acabei na sala médica do Minas Tênis Clube, mesmo não sendo meu time na época.
O médico conversou comigo e meus pais de maneira brusca. Hoje em dia, as coisas melhoraram, mas muitos valores ainda são difíceis de mudar. Graças a Deus, eu tinha acabado de assinar com Bernardinho. Recebi propostas de várias equipes, mas ele me protegeu em Curitiba.
Fui para a pessoa certa naquele momento. Era apenas uma garota de 17 anos. Os jornais começaram a publicar matérias equivocadas, dizendo que eu era hermafrodita, travesti, alegavam que eu usava drogas, tomava substâncias proibidas, inventavam de tudo o que queriam…
Bernardinho foi um anjo da guarda na vida de Érika. Ele não permitia que a televisão se aproximasse da atleta. Em Curitiba, ela conseguiu a autorização para jogar até comprovar que realmente era uma mulher e que o ocorrido se tratava de uma síndrome rara.