Abdon Felinto Milanez Jr. (Areia, 10 de agosto de 1858 – Rio de Janeiro, 1 de abril de 1927) foi um engenheiro civil, músico erudito, compositor e administrador brasileiro. Foi diretor da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, além de ter sido membro efetivo da Comissão de Propaganda e Expansão Econômica do Brasil na Europa. Como músico, foi o criador da melodia do Hino da Paraíba, dentre outras composições.
Filho do político Abdon Milanez e da dona Gracinda de Brito Cotegipe Milanez, sua família tem ascendência portuguesa e italiana. Abdon foi agraciado com várias honras ao longo de sua carreira, entre elas Oficial da Ordem da Coroa, pelo rei Alberto I da Bélgica, e Cavalheiro da Ordem do Mérito, na Itália.
Formação e sucesso no Rio de Janeiro
Nascido na então vila de Brejo d'Areia, Paraíba, Milanez iniciou sua formação musical ainda jovem. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1880, onde ingressou no Conservatório de Música do Rio de Janeiro para aprimorar seus estudos, principalmente na flauta.
Embora sua formação mais formal tenha se concentrado na flauta — onde se destacou como titular da cadeira no então Instituto Nacional de Música —, a sua expressiva produção como compositor (incluindo óperas e música de salão) foi em grande parte resultado de seu esforço como autodidata e da vivência prática na cena musical carioca.
Seu sucesso veio rapidamente no Rio de Janeiro, que era o centro cultural do país. Ele se tornou o primeiro flautista da Orquestra do Teatro Lírico Fluminense e da Orquestra do Teatro São Pedro, atuando sob a regência de nomes importantes como Carlos Gomes.
A obra de Milanez abrange diversos gêneros, com especial destaque para suas composições operísticas e de câmara. Seu estilo reflete a influência da ópera italiana, que era o gênero mais popular no Brasil da época. Entre suas composições mais notáveis, destacam-se:
Óperas e Música de Cena: Compôs as óperas Os Dois Rivais e O Despertar da Bela e diversas peças de música de cena para espetáculos teatrais.
Música Sacra: Deixou um vasto acervo de obras religiosas, incluindo missas e motetos, refletindo sua atuação em orquestras de igrejas.
Música de Salão: Produziu peças instrumentais curtas para piano e flauta, como valsas e polcas, que eram populares nos saraus da época.
Milanez foi um compositor prolífico, com cerca de 130 composições catalogadas, e seu legado é preservado por musicólogos que buscam resgatar a riqueza da produção erudita do Nordeste.
Milanez cursou engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro e se formou em 1880, tendo logo ido trabalhar na Companhia Estrada de Ferro Conde D’Eu e na Estrada de Ferro Pedro II, ambas em 1881. Exerceu cargos também na construção do Corcovado, em 1882, e na Comissão Fiscal dos Carris Urbanos, em 1883, assim como na Inspetoria das Terras e Colonização, em 1888. Como responsável técnico, trabalhou no Serviço de Povoamento do Solo em 1907.
Politicamente, foi membro da Comissão de Propaganda e Expansão Econômica do Brasil na Europa, e percorreu vários países, tendo vivido em Genebra, Suíça. Como administrador, foi diretor da então Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro (gestão de 1916–1923), assim como diretor do lazareto da Ilha Grande, no estado do Rio de Janeiro, cargo este que exerceu por poucos meses.
Paralelamente às outras carreiras, Milanez foi compositor, pianista, teatrólogo, tendo iniciado sua carreira artística como compositor teatral. Escrevia operetas e revistas representadas com sucesso em teatros como Sant'Ana, Lucinda, Apolo, Fênix, entre outros. Sua primeira obra, a opereta Donzela Teodora, com libreto de Arthur Azevedo, estreou em março de 1886 no Teatro Sant'Ana. Musicou ainda as peças A loteria do amor, de Coelho Neto, O bico do papagaio, de Eduardo Garrido, e A chave do inferno, de Castro Lopes, todas com muito sucesso. Embora não possuísse formação tradicional como compositor e tenha se iniciado no piano tardiamente, em sua fase de estudante, compôs polcas e valsas, publicadas pela Casa Bevilacqua.
Escreveu a ópera Primizie, em um ato, com libreto de Heitor Malagutti, que estreou em 1904, no Rio de Janeiro, tendo sido novamente encenada em 1921, no Teatro Municipal carioca. Musicou o Hino do Estado da Paraíba, com letra de Francisco Aurélio de Figueiredo Melo. Em 30 de junho de 1905 aconteceu a primeira audição solene do Hino, em concerto oferecido em benefício à Santa Casa de Misericórdia da Paraíba, no Teatro Santa Roza. No entanto, foi oficializado apenas em 1979.
Compôs ainda o Hino da abolição, a Marcha da imprensa, para orquestra e coros, e ainda músicas sacras, como missas, te-déuns e ladainhas, que eram geralmente executadas na igreja da Cruz dos Militares.
Em 1916, substituiu o compositor Alberto Nepomuceno na direção da Conservatório de Música do Rio de Janeiro, cargo que exerceu até aposentar-se em 1922. Em sua gestão, foi terminada a construção do prédio da Rua do Passeio, tendo sido inaugurado em 1922 o Salão Leopoldo Miguez, uma das mais importantes salas de concertos do país, conhecida pela excelência de sua acústica. Inspirado na Sala Gaveau de Paris, seu interior é decorado com afrescos de Antônio Parreiras e Carlos Oswald. Em 1923, assumiu a direção o Prof. Alfredo Fertin de Vasconcelos, que criou a orquestra do Instituto, cujo principal regente em seus primeiros anos foi o Maestro Francisco Braga.
Além de partituras para operetas e revistas, compôs marchas, valsas, quadrilhas, lundus, entre outros gêneros populares. Em 1927, ano de sua morte, o barítono Roberto Vilmar gravou para a Odeon seu tango canção Ai!.