Adolphe Boucard CMZS CvNSC comYC (Eysines, 20 de março de 1839 – Londres, 15 de março de 1905) foi um zoólogo, mais notavelmente ornitólogo, entomólogo, pesquisador e negociante de história natural francês conhecido por contribuições sobre as descrições de troquilídeos, principalmente melisugíneos e lampornitíneos. Nascido no Segundo Império Francês, recebeu os cuidados de sua mãe até adquirir sua independência e, em seus últimos dias, viveu no distrito residencial de Hampstead, na residência de seu filho. Passou maior parte de sua vida dedicando-se à caça silvestre de beija-flores, tanto para fins científicos como comerciais.
Primeiros anos, ascendência e origem
1832–1839: Antecedentes, nascimento e progenitores
Adolphe Boucard nasceu em 20 de março de 1839, na cidade de Eysines, no departamento de Gironda, região administrativa de Nova Aquitânia, ao extremo-oeste da França. Desde o nascimento, ou, mesmo antes disso, sua vida foi caracterizada por controvérsias sobre sua origem familiar. De acordo com dois registros existentes desta época, não há nenhum registro de seu pai em sua certidão de nascimento. A partir dos mesmos registros, sabe-se que sua mãe biológica era Heloïse Josephine Boucard, que foi, durante muitos anos, concubina do ornitólogo e pintor Adolphe Delattre. Este mesmo, entretanto, possuía uma esposa, Jeanne Françoise Postel, tornando Adolphe Boucard seu filho bastardo. Delattre deixaria um testamento para Heloïse e, consequentemente, seu filho, este que foi contestado por Postel.
Viagens marítimas na América, ornitologia e entomologia
Primeiras expedições na América do Norte e Central
Primeira viagem marítima: São Francisco e os beija-flores
Em 19 de janeiro de 1851, na época com 12 anos de idade, dentro de um navio denominando Union, ele viajaria de Le Havre, uma cidade no departamento de Seine-Maritime, no Canal da Mancha, com destino à cidade de São Francisco, ao litoral da Califórnia e ao Cabo Horn. Primeiramente, eles desembarcaram em Weymouth, onde Adolphe Boucard entraria em contato com solo inglês pela primeira vez na vida. Em 24 de janeiro, cinco dias depois, a expedição seguiria em 1º de fevereiro de 1851, passando pelos arquipélagos português de Madeira e espanhol das Ilhas Canárias. Finalmente, em 15 de março daquele mesmo ano, o navio atravessaria a linha do Equador. Em 26 de março, visitaram o arquipélago brasileiro de Trindade e Martim Vaz, no estado do Espírito Santo. Em 1º de abril, estes atingiram o estado do Rio de Janeiro. Então, a viagem seguiria à Patagônia, Cabo Blanco e Ilha dos Pinguins em 22 de abril de 1851, passando posteriormente ao Golfo de São Jorge, no período noturno. Alguns dias depois, em 26 de abril, avistariam a Terra do Fogo e a Baía de São Sebastião. A partir de então, a expedição continuaria ao Estreito de Le Maire, subsequentemente atingindo o Cabo Horn em 4 de maio daquele mesmo ano. Através dos arquipélagos de Diego Ramírez, Hermit e Ildefonso, estes alcançaram a região de Valparaíso, em 1º de junho de 1851, e respectivamente, nas Ilhas Juan Fernández.
Às quatro horas da manhã do dia 8 de junho, após 142 dias de navegação, os passageiros avistaram um farol, próximo ao Valparaíso. Embora inicialmente a viagem continuasse tranquilamente, pouco tempo depois, uma forte ventania impediria que o navio seguisse, com os botes, então, seguindo ao solo. Ao chegarem, iniciou-se uma inspeção da vigilância sanitária e, após serem aprovados, seguiram em terra. Então, o jovem e sua mãe visitaram os subúrbios e a cidade e, ao voltarem, o mesmo veria um garoto com dois beija-flores vivos. Posteriormente, ainda em Valparaíso, ao visitar os Jardins de Tivoli, no vilarejo de Polanco, Adolphe Boucard observaria beija-flores (Sephanoides sephaniodes) pela primeira vez:
Eu me lembro disso com uma das épocas mais marcantes da minha vida. Eles eram muitos, voavam em todas as direções, de uma flor à outra, em busca de alimento. Quando se alimentam, introduzem seus bicos, e por vezes a melhor parte de suas cabeças, nos cálices das flores e, durante todo o tempo, se permanecem em suas asas (exatamente como as mariposas do gênero Sphinx fazem na Europa, em nossas flores), e em um curtíssimo período de tempo, sugam o mel e todos os insetos diminutos, do qual se alimentam, emergindo dali com pólen, e mesmo mel, em suas testas. Nem mesmo uma flor escapa da detecção. Eles continuam esse exercício ativo durante as primeiras horas da manhã, e até tarde no poente. Quando os dias são nublados, eles podem ser vistos visitando flores pelo dia todo; mas usualmente quando o calor começa a ser sentido, eles retiram em seus galhos secos favoritos e lá descansam.
No dia 15 de junho, eles partiriam de Valparaíso, avistando os arquipélagos vulcânicos de San Félix e San Ambrosio no dia 22 do mesmo mês. Então, em 11 de julho do mesmo ano, seguiram ao hemisfério norte, cruzando o Equador, dessa vez no sentido contrário. Ultimamente, em 15 de agosto, os tripulantes ancoraram em Yerba Buena, sendo transportados no outro dia para São Francisco, dessa vez em pequenos barcos. Nessa época, a cidade se encontrava no auge da corrida do ouro na Califórnia.
Época na Califórnia e colecionismo de aves
Durante sua época no estado da Califórnia, que havia sido recém-incorporada aos Estados Unidos, no auge da corrida do garimpo de ouro, Adolphe Boucard conheceria muitos entomólogos e outras personalidades francesas, dentre os quais se incluem os aventureiros Gastón Raoul de Raousset-Boulbon e Charles de Pindray, este último falecido no ano seguinte. Um tempo mais tarde, conheceria Étienne Derbec, um jornalista que se tornaria um grande amigo de Boucard — anos antes, o mesmo colaboraria com Adolphe Delattre, em um retrato de Derbec. Nesse período, colecionou muitos itens de história natural entre os meses de março e agosto. Depois, durante uma das expedições, conheceria Pierre Joseph Michel Lorquin e, encontraria, além de insetos e artrópodes, alguns beija-flores, particularmente beija-flores-de-cabeça-magenta e beija-flores-ruivos, que o mesmo percebeu como sendo comuns na região. Com isso, este ornitólogo amador faria algo contra indicado, onde retiraria os filhotes de beija-flor de seus ninhos e criaria-os em seu quarto até que a estadia estadunidense se encerrasse. Esse plano se mostrou um fracasso, posteriormente, onde, em uma tentativa de levá-los para a Europa, os espécimes acabaram no oceano.
Durante sua volta para o continente europeu, se tornaria um amigo próximo de Léon Laglaize, neto de Pierre Lorquin, que o ensinaria sobre os hábitos migratórios dos beija-flores-ruivos californianos em direção ao México. Além de espécimes de beija-flores, Boucard colecionaria peles de anseriformes, como patos e gansos, pássaros canoros e aves de rapina. Essas viagens realizadas pelo ornitólogo tinham como principal intuito a coleta e a pesquisa de espécimes de muitos animais, não somente aves — área na qual Boucard se especializou.
Saída da Califórnia e expedições à América Central
Em 18 de agosto de 1852, Boucard embarcaria no navio Heva, e desembarcando dois meses depois, em 10 de outubro do mesmo ano, na baía de Acapulco. Oito dias depois, em 18 de outubro, Boucard embarcaria no navio novamente, chegando a San Juan del Sur, desembarcado no município nicaraguense em 9 de novembro. Durante a estação das chuvas em San Juan del Sur, colecionou diversos espécimes de borboletas, além de outros insetos. Depois, em 15 de novembro, junto de um grupo de navegantes, levaria uma rota perigosa a La Virgen, no Lago Nicarágua. Dentro de uma escuna, após quase 14 horas, chegando a Granada, em 16 de dezembro. Em Granada foi hóspede do cônsul francês Pierre Rouhaud e sua esposa, este último que ajudou-lhe a conseguir uma residência no país, onde viveu até maio de 1853. Nessa viagem, coletou vários espécimes, inclusive de mamíferos, dentre os quais estão, os macacos-uivadores, os momotos-de-sobrancelha-azul, um tangará-rabilongo, um beija-flor-de-cauda-azul, um beija-flor-de-peito-verde, um beija-flor-metálico e a safira-de-garganta-azul. Em 18 de maio de 1853, embarcaria novamente, dessa vez em um pequeno barco, em direção à duas ilhas próximas à Granada, primeiramente a San Carlos e, depois, a San Juan del Norte pelo Río San Juan. Doze dias depois, saiu do barco a vapor, que já havia partido em direção à Nova Iorque, obrigando-o a se estabelecer, por mais 12 dias, em San Juan del Norte, onde realizou algumas excursões e transportes, obtendo um sucesso moderado. Boucard desejava um espécime de pipira-de-dorso-vermelho. Então, em 3 de junho de 1853, ele embarcou no navio à vapor Prometheus, saindo da cidade de Havana à Nova Iorque, chegando ao destino em 15 de junho em uma viagem pacífica. Lá, Boucard ficaria por mais dois anos, até 12 de julho de 1854.