Nizamadim Ali-Xir Heraui (Nizām-al-Din ʿAli-Shir Herawī), Alicher Navoi ou Ali-Xir Navai (em usbeque: Alisher Navoiy; em chagatai e persa: نظامالدین علیشیر نوایی; romaniz.: Nizamuddin Ali Shir Nawai; 9 de fevereiro de 1441 — 3 de janeiro de 1501), conhecido como autor literário principalmente como Nava'i, foi um poeta, escritor, político, linguista, pintor e místico sufista do ramo maturidita do hanafismo que é considerado um maior expoente da literatura em língua chagatai, embora também tenha escrito algumas obras em persa, sob o pseudónimo de Fāni e (muito poucas) em árabe. Era de etnia turca e acreditava que o chagatai e outras línguas turcas eram superiores ao persa para fins literários, um ponto de vista incomum no seu tempo, que defendeu na sua obra “Muhakemetü'l-Lugateyn” (literalmente: "Comparação das Duas Línguas" ou "Julgamento entre as Duas Línguas"), baseando a sua opinião na maior riqueza e maleabilidade do léxico turco em relação ao persa.
Nos países e comunidades turcófonas, Nava'i é frequentemente considerado por muitos como o fundador da literatura em turco, embora em rigor esta já existisse vários séculos antes do seu nascimento. De facto, a ele se deve a inclusão do turco na lista restrita das maiores línguas literárias do mundo e a padronização da língua chagatai, que durante muitos séculos teve o mesmo papel entre os turcófonos que o latim teve nas culturas com línguas românicas. Como poeta, continua a ser especialmente popular e reverenciado nos países da Ásia Central, Afeganistão e no Turquestão chinês (Sinquião). Desde o período soviético que é aclamado como o poeta nacional do Usbequistão.
Alicher Navoi nasceu em Herate, quando esta cidade, que atualmente se encontra no noroeste do Afeganistão, era a capital do Império Timúrida. Sob o governo dos timúridas, Herate tornou-se um dos principais centros de cultura e erudição do mundo islâmico. Alicher pertencia à classe dos emires (em persa: mīr) chagatais da elite timúrida. O seu pai, Ghiyāth ud-Din Kichkina ("o Pequeno") foi um oficial superior no corte de Xaruque Mirza (r. 1405–1447), que sucedeu ao seu pai Tamerlão no trono imperial timúrida. A sua mãe foi governanta dum príncipe no palácio imperial. Ghiyāth ud-Din Kichkina foi governador de Sabzawar durante algum tempo. Após a morte do pai, quando Alicher ainda era jovem, Babur ibne Baiçungur, neto de Xaruque e governador de Coração, tomou-o a seu cargo.
O jovem Navoi foi colega de escola de Huceine Baicara, que depois seria o monarca timúrida entre 1469 e 1506. A família de Alicher foi forçada a abandonar Herate em 1447, devido à instabilidade política que se seguiu à morte de Xaruque nesse ano. A família regressou a Coração após a ordem ter sido restabelecida em 1450. Seis anos mais tarde, quando tinha 15 anos, Alicher e Huceine Baicara foram para Mexede (atualmente no Irão oriental) com Babur ibne Baysunghur. No ano seguinte Babur morreu e Alicher e Baicara separaram-se. O segundo empenhou-se em ganhar poder político, enquanto Alicher continuou os seus estudos em Mexede, Herate e Samarcanda. Após a morte do imperador Abuçaíde Mirza em 1469, Huceine Baicara tomou o poder em Herate e chamou Alicher para o seu serviço. Alicher abandonou então Samarcanda para voltar a Herate, ficando ao serviço do seu colega de estudos e imperador timúrida até à sua morte em 1501. Foi sepultado em Herate. Huceine Baicara foi ao seu funeral e ficou três dias de luto em casa, chorando o seu amigo de toda a vida. Para que os cidadãos de Herate prestassem homenagem coletivamente ao seu poeta falecido, foi organizado um banquete.
Alicher levou uma vida de estilo ascético, nunca tendo casado, tido concubinas ou filhos.
Pouco se sabe sobre as obras de Alicher antes de, em 1469, ter entrado ao serviço do imperador timúrida Huceine Baicara, seu companheiro de estudos na juventude. O especialista em história islâmica e da Ásia Central Barry Hoberman distingue quatro facetas de Alicher, que ele refere como "quatro Mir Ali Shir Nava'is": a do político e administrador público, a do promotor e administrador de obras públicas e privadas, a do mecenas do ensino, artes e letras e finalmente a de escritor.
Como político e oficial superior da corte imperial timúrida, Alicher foi sobretudo um conselheiro e confidente de Huceine, com quem manteve uma amizade muito próxima, apesar de por vezes complicada. Embora alguns historiadores europeus notem que ele nunca foi vizir nem teve cargos do tipo ministerial, foi alguém que deteve muito poder de facto, que esteve muito envolvido na alta política, chegou a ter alguns cargos oficiais e em algumas ocasiões a sua autoridade era comparável à dum vizir. Pelo menos uma vez, em 1479, foi governador de Herate enquanto Huceine esteve ausente. Apesar de ser certo que as atividades políticas e administrativas lhe roubavam tempo à sua óbvia paixão pelas artes e ensino, aparentemente Navoi sempre teve um sentimento genuíno de dever tanto em relação ao seus soberano como ao bem do estado.
Navoi promoveu ou dirigiu também numerosas obras de construção. Há registos de que, só em Coração, restaurou ou financiou cerca de 370 mesquitas, madraças, bibliotecas, caravançarais, hospitais e outras instituições de ensino, religiosas e de caridade em Coração. Em Herate foi o responsável por 40 caravançarais, 17 mesquitas, 10 mansões, 9 hamãs, 9 pontes e 20 reservatórios de água.
Entre as construções empreendidas por Alicher contam-se o mausoléu do poeta místico do século XIII Faridudin Attar em Nixapur e Madraça Khalasiya em Herate. Foi um dos principais con contribuidores para a arquitetura de Herate, que nas palavras do historiador René Grousset se tornou "a Florença daquilo que justamente se chamou o Renascimento Timúrida". Para o financiamento destas obras, é provável que tenha usado a sua influência na corte e os sues próprios e consideráveis recursos.
Foi também um impulsionador e mecenas do ensino, das artes e das letras, músico, compositor, calígrafo, pintor, escultor e um escritor admirado e celebrado ao ponto do historiador do mundo islâmico Bernard Lewis lhe chamar "o Chaucer dos turcos". Além de ter sido um escritor prolífico e muito versátil, Alicher esteve envolvido em todas as formas de expressão criativa. Entre os seus amigos artistas ou intelectuais, alguns deles, senão todos, por si patrocinados, contam-se os historiadores persas Mircuande e o seu neto Cuandamir, os pintores de miniaturas Bezade e Xá Muzafar, os músicos Cul Maomé, Xeiqui Na'i e Huceine Udi, e o ilustre poeta persa Jami. A este último, Navoi dedicou uma composição laudatória, o Kham-sat al-Mutahayyirin ("Quinteto dos Impressionados").
Impulsionador da literatura turca
Apesar da sua relevância noutros campos, Navoi é célebre e reverenciado sobretudo pelo seu papel primordial no impulso que deu à literatura em língua turca. Alicher está longe de ter sido o inventor da literatura turca, que quando ele nasceu já existia há pelo menos sete séculos, mas que antes dele era vista pelos literatos seus contemporâneos como rude e plebeia. Navoi teve um papel fundamental na padronização da língua chagatai, uma língua literária, resultante dos idiomas vernaculares turcos falados na Ásia Central e em Coração. De forma semelhante ao que ocorreu com o inglês no século XIV graças a Geoffrey Chaucer, o chagatai tornou-se uma língua literária nacional ao nível do árabe e do persa com Navoi, que foi o primeiro escritor com grande notabilidade a escrever grande parte das suas obras em turco.
Não obstante a classe dominante no Império Timúrida, a que Navoi pertencia, fosse turca ou turco-mongol, o mesmo acontecendo com uma parte considerável da população comum, na primeira metade do século XV a cultura dominante em Herate, como na generalidade dos territórios timúridas, era a persa. O brilho, esplendor e prestígio da cultura persa, da qual existiam numerosas realizações materiais na Ásia Central desde há muitos séculos, teve um forte impacto nos turcos da Ásia Central, que a adotaram completamente. Os autores de origem turca preferiam escrever em persa, a língua que era exaltada no Oriente muçulmano como a língua da cultura e do ensino, e os pintores turcos imitaram os modelos persas clássicos.