Amade ibne Maomé ibne Hambal Abu Abedalá Axaibani (em árabe: أَحْمَد بْن حَنْبَل الذهلي; romaniz.: Aḥmad ibn Ḥanbal al-Dhuhlī; Bagdá, 23 de novembro de 780 — Bagdá, 2 de agosto de 855) foi um jurista árabe e fundador da escola hambalita, amplamente reconhecido como o estudioso que memorizou a maioria dos hádices na história islâmica. Uma das figuras intelectuais islâmicas mais veneradas, ibne Hambal é notável por sua memorização incomparável de mais de um milhão de narrações proféticas, um número sem precedentes que nunca foi reivindicado por nenhum outro tradicionalista. Ibne Hambal também compilou a maior coleção de hádices, al-Musnad, que continua a exercer uma influência considerável no campo dos estudos dos hádices até os dias atuais, moldando a estrutura metodológica posteriormente empregada tanto em Sahih Albucari quanto em Sahih Muslim. O imame Aldaabi o descreveu como “o verdadeiro imame, a prova da religião, o mestre dos hádices e o líder da Suna”. O imame Ali ibne al-Madini disse: “Na verdade, Alá apoiou esta religião por meio de dois homens, aos quais não há terceiro: Abacar durante as guerras Rida e Amade ibne Hambal durante a Mihna”.
Tendo estudado jurisprudência e hádice com muitos professores durante sua juventude, ibne Hambal tornou-se famoso na sua vida adulta pelo papel crucial que desempenhou na Mihna instituída pelo califa abássida Almamune no final do seu reinado, no qual o governante deu apoio oficial do Estado à doutrina mutazilita de que o Alcorão foi criado, uma visão que contradizia a posição ortodoxa de que o Alcorão é a palavra eterna e não criada de Deus. Vivendo na pobreza durante toda a sua vida, trabalhando como padeiro e sofrendo perseguição física sob os califas por sua adesão inabalável à doutrina tradicional, a fortaleza de ibne Hambal neste evento específico somente reforçou sua “reputação retumbante” nos anais da história sunita.
Aclamado como um dos reformadores (mujaddids), ibne Hambal passou a ser venerado como uma figura exemplar em todas as escolas tradicionais do pensamento sunita, tanto pelos estudiosos exotéricos quanto pelos sufistas ascéticos, com estes últimos frequentemente designando-o como santo em suas hagiografias. Ibne Aljauzi relata que ele “foi o principal colecionador da tradição profética e seu maior defensor”.
No século passado, a reputação de ibne Hambal tornou-se objeto de debate em certos círculos do mundo, uma vez que o movimento reformista hambalita conhecido como wahabismo o citou como uma influência principal, com o reformador hambalita do século XIII, ibne Taimia, apesar de ambos os estudiosos terem surgido muito antes. No entanto, alguns estudiosos argumentam que as próprias crenças de ibne Hambal não tiveram “nenhum papel real no estabelecimento das doutrinas centrais do wahabismo”, por haver evidências, segundo os mesmos autores, de que “as autoridades hambalitas mais antigas tinham preocupações doutrinárias muito diferentes das dos wahabitas” devido à literatura hambalita medieval ser rica em referências a santos, visitas a túmulos, milagres e relíquias. A este respeito, os estudiosos citaram o próprio apoio de ibne Hambal ao uso de relíquias como um dos vários pontos importantes no qual as posições do teólogo divergiam das dos adeptos do wahabismo. Outros estudiosos sustentam que ele foi “o progenitor distante do wahabismo”, que também inspirou imensamente o movimento reformista conservador semelhante do salafismo.
Amade ibne Hambal nasceu em novembro de 780 d.C. Isso foi mencionado por seu filho Abedalá. A família de ibne Hambal era originária de Baçorá e pertencia à tribo árabe Banu Dhuhl. Seu pai era oficial do exército abássida em Coração e mais tarde se estabeleceu com sua família em Bagdá.
Os historiadores divergem sobre seu local de nascimento. Alguns dizem que ele nasceu em Marve, localizada na atual Mary, Turcomenistão, onde seu pai e seu avô também haviam trabalhado anteriormente. Já outros afirmam que ele nasceu em Bagdá, depois que sua mãe ficou grávida dele na cidade de Marve, onde seu pai estava. A última opinião é a mais aceita.
Ibne Hambal perdeu o pai quando era criança. Seu pai morreu jovem, com somente trinta anos. Sua mãe o criou sob os cuidados dos que restaram da família paterna. Seu pai lhe deixou uma propriedade em Bagdá, onde ele morava, e outra que lhe rendia uma pequena renda de aluguel suficiente para sua subsistência. Os relatos são contraditórios sobre se era grande ou pequena. ibne Catir mencionou o valor, dizendo: “Sua renda proveniente da propriedade era de dezessete dirrãs por mês, que ele gastava com sua família, e ele estava contente com isso, buscando a misericórdia de Alá, pacientemente e buscando recompensa”. Também é narrado que um homem perguntou ao imame Amade sobre a propriedade que ele estava usando e na qual construiu uma casa. Ele respondeu: “Isso é algo que herdei de meu pai. Se um homem vier até mim e confirmar que isso é dele, eu me livrarei disso e darei a ele”.
Amade ibne Hambal só casou após atingir os quarenta anos. Diz-se que isso se deveu ao fato de ele estar ocupado com a busca pelo conhecimento e por viajar muito e ficar longe de seu país por longos períodos. Quando atingiu os quarenta anos e se aproximou mais do que antes de se estabelecer, ele pensou em se casar.
Sua primeira esposa foi “Abbasa bintul Fadl”, uma moça árabe dos subúrbios de Bagdá, que viveu com Amade ibne Hambal por trinta anos (ou vinte anos, segundo alguns relatos) e lhe deu um filho, “Sale”, razão pela qual era conhecida pelo título de Umm Sale. Ibne Hambal comentou sobre ela: “Nos 30 (ou 20) anos em que estivemos juntos, nunca tivemos uma discussão.” Após a morte dela, Amade casou-se com sua segunda esposa, “Ummu 'Abdula Rayhana bintu 'Uma”, conhecida simplesmente como “Rayhana”, que lhe deu um filho, “Abdula”. Ela era conhecida por ter somente um olho, e ibne Hambal casou-se com ela porque ficou impressionado com seu compromisso religioso. Relatos sugerem que eles ficaram juntos por sete anos. Ele também tinha uma concubina chamada “Husn”, que lhe deu uma filha, “Zainab”, e depois gêmeos, “al-Hasan” e “al-Hussein”, que morreram após o nascimento. Em seguida, ela deu à luz “al-Hasan” e “Muhammad”, e depois “Saeed”. Entre seus filhos, Sale e Abdula se destacaram em jurisprudência, enquanto Saeed mais tarde se tornou juiz de Kufa.
Ibne Hambal estudou extensivamente em Bagdá e, mais tarde, viajou para continuar sua educação. Aos quatorze anos, começou a trabalhar como escriba no Divã. Aprendeu o Alcorão com Yahya ibne Adam, e jurisprudência com o célebre juiz da jurisprudência hanafista, Abu Yusuf, um aluno de Abu Hanifa. Após concluir seus estudos com ele, ibne Hambal começou a viajar pela Arábia para coletar narrações de Maomé. Ibne al-Jawzi afirmou que ibne Hambal tinha 414 tradicionistas, dos quais ele narrava. Com esse conhecimento, ele se tornou uma autoridade líder na área, deixando para trás uma imensa enciclopédia de narrações, ‘'al-Musnad’'. Após vários anos de viagem, retornou a Bagdá para estudar a lei islâmica com Axafii, com quem formou um vínculo próximo.
Ibne Hambal tornou-se juiz na velhice. Por meio de seus alunos, foi fundada a escola de jurisprudência hambalita, que hoje é a mais dominante na Arábia Saudita e no Catar. Ao contrário das outras três escolas — hanafista, maliquita e xafeísta —, a escola hambalita permaneceu na maioria atarista em sua teologia.
Além de suas atividades acadêmicas, ibne Hambal foi soldado nas fronteiras de guerra e realizou peregrinação cinco vezes em sua vida, duas delas a pé.
Ibne Hambal é conhecido por ser chamado perante a Mihna do califa abássida Almamune, que queria afirmar sua autoridade religiosa pressionando os estudiosos a adotarem a doutrina mutazilita de que o Alcorão foi criado, em vez de não ter sido criado. Segundo a tradição sunita, ibne Hambal foi um dos principais estudiosos a resistir à interferência do califa e à doutrina que ele impôs. A postura de ibne Hambal levou a escola hambalita a se estabelecer firmemente não somente como uma escola de jurisprudência, mas também de teologia.