Ana Cláudia Moura Pereira ComIH (Santarém, Portugal, 17 de setembro de 1979), celebrizada como Ana Moura é uma cantora portuguesa. Um dos nomes mais populares da música feita em Portugal desde a década de 2000, o site All Music considera que Ana Moura é a fadista mais bem-sucedida a iniciar carreira no século XXI. A artista já vendeu mais de um milhão de discos no mundo, sendo uma das recordistas de vendas de discos em Portugal.
Ana Cláudia Moura Pereira cresceu em Coruche, mas, como esta vila não dispunha de maternidade, foi nascer na capital do distrito, ou seja, em Santarém, no coração de Portugal, junto ao Rio Tejo e a nordeste de Lisboa.
Houve um momento particular, na noite de 18 de julho de 2010, em que a arte de Ana Moura alcançou um patamar singular, relevante no panorama global, porque é essa a sua real dimensão. Chamada por Prince para um encore na sua apresentação no festival Super Bock Super Rock, a cantora, com a sua presença e com toda a sabedoria já contida na garganta, silenciou até às lágrimas uma plateia de dezenas de milhares de pessoas. A sua voz entregou-se a “A Sós Com A Noite” e a “Vou Dar de Beber à Dor”. Nesse momento, Ana Moura provou ter algo de tão singular quanto universal: uma capacidade de interpretação que ultrapassa códigos de género, que se sobrepõe a línguas, que parece prenunciar uma nova cultura. Quando subiu ao palco com Prince, Ana já tinha uma bagagem, uma carreira, e uma vida inteira de imersão nessa força – a da música - que sempre a puxou. A sua relação com a música começou antes de ter entrado num estúdio: quando sentiu os sons que se desprendiam do gira-discos de sua casa, que tocava os discos de Fausto e Ruy Mingas, de José Afonso ou Bonga.
Ana Moura nasceu em Portugal, mas possui raízes familiares na antiga África Ocidental portuguesa (Angola) especificamente em Lubango, pelo lado materno de sua família. A sua família retornou a Portugal durante o processo da descolonização portuguesa de África. O seu pai, António Pereira, é natural de Portugal, com passagem por Angola, onde se casou com a angolana Fernanda Moura, a mãe de Ana Moura. Talvez haja até algum eco distante, carregado pela sua herança genética, visto que sua avó materna Guilhermina era angolana filha de uma nativa de Angola, que se casou com um português do Alentejo, o avô materno de Ana Moura, do qual vem o sobrenome Moura, que lhe conferiu notoriedade. A mãe de sua avó materna Guilhermina, a bisavó materna de Ana Moura, pertencia à etnia mucubal e teve vários filhos com um português, o bisavô materno de Ana Moura. A sua avó Guilhermina cresceu em Lubango, junto da família do seu pai, e mudou-se para Portugal durante o período da guerra cívil angolana e os conflitos de independência de Angola.
Houve um grande percurso: Ana Moura, começou por aprender com a voz dos pais, que cantavam sempre que podiam e, ainda menina, ao mesmo tempo que aprendia a ler, já cantava fados com o mesmo empenho e inocência com que dançava sembas ou kizombas. A adolescência levou-a para mais perto de Lisboa, para Carcavelos, onde se matriculou no liceu e na Academia dos Amadores de Música, experimentando usar a sua voz noutros contextos, talvez não condizentes com o seu âmago, mas certamente mais em sintonia com o que outros rapazes e raparigas da sua idade escutavam, tocavam, cantavam ou dançavam. Ainda assim, um “Povo que Lavas no Rio”, que começou por ser de Amália Rodrigues, mas haveria de ser também reclamado por António Variações, também merecia a sua atenção, encaixado entre as versões dos êxitos que se esperaria ouvir reinterpretados por jovens de 15 ou 16 anos.
À aprendizagem familiar, profunda e variada e à experiência escolar e académica diferente, mas também importante, Ana Moura não demoraria a somar outro caminho que se revelaria importante para a sua formação artística. Num bar em Carcavelos, numa noite de cantorias, arrisca um fado sem saber que está presente o guitarrista António Parreira , que imediatamente lhe reconhece a força indómita e a originalidade da postura. Começa aí o seu percurso pelas casas de fados, que culmina com Maria da Fé a render-se e a convidá-la para se apresentar regularmente na sua casa, o mítico Senhor Vinho.
Pode dizer-se que a partir daí os dados estavam lançados: Miguel Esteves Cardoso , prestigiado jornalista que nunca escondeu uma desmedida paixão por Amália Rodrigues, reconheceu em Ana o mesmo fulgor e dedicou-lhe inflamadas palavras que tiveram efeitos imediatos, trazendo-lhe a atenção de editoras. A Universal propôs-lhe ingresso no seu catálogo e a primeira manifestação dessa aliança foi “Guarda-me a Vida na Mão”, com Jorge Fernando, outro fã de Amália Rodrigues, a assumir a produção e a assinatura de boa parte dos temas.
Com uma visão já muito mais vasta do que a que o fado por si só poderia conter, Ana Moura acercou-se do flamenco e das tradições ciganas, trazendo para a sua beira Pedro Jóia e os Ciganos d’Ouro e vincou claramente que não lhe interessava o dogma nem as ideias guardadas em redomas.À estreia, sucederam os álbuns Aconteceu e Para Além da Saudade, que lhe permitiram somar sucesso em cima de sucesso e expandir o mapa das suas apresentações, ganhando mundo para a sua voz. Ana Moura chegou ao conhecimento do grande público, o álbum alcançou a tripla platina, por vendas superiores a 45 mil unidades, levando a cantora a permanecer 120 semanas no top 30 da tabela portuguesa de álbuns. Com Para Além da Saudade, recebeu uma nomeação para os Globos de Ouro de 2008, na categoria musical de Melhor Intérprete Individual, que acabou por perder para Jorge Palma.
Das melhores casas de fados de Lisboa transitou para o Carnegie Hall, em Nova Iorque, e daí para o Rolling Stones Project, aventura liderada pelo saxofonista da mítica banda britânica, Tim Ries, que cruzava o cancioneiro eternizado na voz de Mick Jagger com intérpretes selecionados de várias partes do mundo. Como Ana Moura, que a esse projecto ofereceu as suas versões de “Brown Sugar” e “No Expectations”. Numa passagem do grupo de “Satisfaction” pelo Estádio Alvalade XXI, Ana Moura sobe ao palco e interpreta, com Mick Jagger e companhia, “No Expectations” superando, obviamente, as expectativas de toda a gente. Logo aí ficou o sinal de que Ana estava numa divisão à parte. Tão à parte, que nesse álbum, além de um tema composto especialmente para si por Tim Ries, “Velho Anjo”, figurava ainda uma rara colaboração de uma daquelas vozes que escutava em casa em criança, Fausto, que lhe ofereceu “E Viemos Nascidos do Mar”. Outras contribuições chegaram de Amélia Muge, que escreveu “O Fado da Procura”, do espanhol Patxi Andion, que com ela cantou “Vaga, no azul amplo solta”. Nesse trabalho consta também “Os Búzios” de Jorge Fernando, um dos primeiros grandes sucessos da artista que não tardaria a ter aos seus pés o Coliseu dos Recreios e a arrecadar o prestigiado Prémio Amália Rodrigues.
Várias semanas no topo das tabelas de vendas traduziram uma empatia muito especial com o público, que nela encontrou um claro símbolo. Depois, veio o álbum Leva-me aos Fados, em que contava, uma vez mais, com peças escritas por Jorge Fernando ou Amélia Muge, mas também José Mário Branco, um disco que repetiu e até ampliou o sucesso. O mundo continuava a ir ter com Ana Moura: Prince voou propositadamente para Paris para a ouvir, e conhecer, e desse encontro resultou o tal momento especial de 2010.
Ana Moura transformou-se como artista, assumindo as diferentes peles e culturas que nela sempre correram. Pouco depois desse encontro com Prince, houve outro, no Rio de Janeiro, com Gilberto Gil, com quem deu voz ao “Fado Tropical”, de Chico Buarque. Talvez Desfado, o seu enorme sucesso de 2012, contenha no título outro bom rótulo, afirmando-a como alguém que, sendo capaz de desmontar uma linguagem, é igualmente capaz de inventar algo de absolutamente novo. Este teve uma grande longevidade na tabela portuguesa de álbuns e deu a Ana Moura a sua canção mais bem-sucedida até então: a homónima "Desfado".