André Paul Guillaume Gide (Paris, 22 de novembro de 1869 – Paris, 19 de fevereiro de 1951) foi um escritor francês.
Recebeu o Nobel de Literatura de 1947. Oriundo de uma família da alta burguesia, foi o fundador da Editora Gallimard e da revista Nouvelle Revue Française. Gide não somente era homossexual assumido, como também falava abertamente em favor dos direitos dos homossexuais, tendo escrito e publicado, entre 1910 e 1924, um livro destinado a combater os preconceitos homofóbicos da sociedade de seu tempo, Corydon.
Liberdade e libertação recusando restrições morais e puritanas, a sua obra articula-se ao redor da busca permanente da honestidade intelectual: como ser igual a si mesmo, ao ponto de assumir a sua pederastia e a sua homossexualidade. Entre as suas obras mais importantes estão Os Frutos da Terra, a já mencionada Corydon, A Sinfonia Pastoral, O Imoralista e Os Moedeiros Falsos.
André Gide nasceu no dia 22 de Novembro de 1869 em Paris, filho de Paul Gide, um professor de direito na Universidade de Paris, e de Juliette Rondeaux. O pai, natural de Uzés, descendia de uma austera família protestante. A mãe era filha de burgueses ricos de Rouen, originalmente católicos, mas convertidos ao protestantismo. A infância de Gide foi marcada por uma alternância de residência entre a Normandia (em Rouen) e La Roque, junto da família materna, e Uzés, na casa da sua avó paterna, onde se apaixona fortemente pela paisagem campestre. Gide atribuirá grande importância a estas influências contraditórias, exagerando o seu carácter de antitético.
Em Paris, os Gide residiram sucessivamente na rue de Médicis e, posteriormente, na rue de Tournon (a partir de 1875), junto ao Jardim do Luxemburgo. Não muito longe, instalou-se Anna Shackleton, uma devota escocesa, que seria governanta e professora de Juliette, que acabaria por lhe dedicar uma amizade indefectível. Anna, pela sua delicadeza, jovialidade e inteligência, tem um papel importante na infância do jovem Gide. Evocada em Porte Étroite e em Si le grain ne meurt, a sua morte em 1884 marcará André profunda e dolorosamente.
O jovem André inicia a sua aprendizagem do piano, que será a companhia de toda a sua vida. Pianista nato, Gide lamentará nunca ter tido professores que o tivessem transformado num verdadeiro músico. Em 1877, é admitido na École Alsacienne, um internato, iniciando uma escolaridade irregular e descontínua. Com efeito, é rapidamente suspenso por três meses por se ter deixado levar pelos seus "maus hábitos" durante o período escolar. Pouco depois do seu regresso à escola — "curado" pelas ameaças de castração de um médico e pela tristeza dos seus pais — a "doença" reincide: a masturbação, a que ele chama "vício" e que pratica sem deixar de se sentir pecador e tristemente defeituoso, rapidamente retomará o seu lugar entre os seus hábitos levando-o a escrever, aos 23 anos, que viveu até essa idade "completamente virgem e depravado".
A morte do seu pai, em 28 de Outubro de 1880, afasta-o um pouco mais da escolaridade normal. Já marcado pela morte de uma jovem prima, Émile Widmer, que lhe provoca profunda crise de angústia, André perde, com a morte do seu pai, um relacionamento feliz e terno que o deixa só face à sua mãe "E senti-me de repente todo envolvido por esse amor, que infelizmente se encerrou em mim". Juliette Gide, muitas vezes descrita como uma mãe rigorosa e castradora, não deixa de amar profundamente o seu filho, amor que este retribui. Acompanhá-lo-á constantemente no seu caminho de desenvolvimento intelectual — pronta a prestar-se ao contraditório — e revelará uma agilidade espiritual bem superior á que seria de esperar de uma jovem Rondeaux.
Durante o ano de 1881, Juliette Gide leva-o para a Normandia onde o entrega aos cuidados de um professor pouco inspirado. André conhece um segundo período de grande depressão (Schaudern): "Não sou igual aos outros! Não sou igual aos outros!". Vai depois para Montpellier, para junto do seu tio Charles Gide. Perseguido pelos seus colegas, Gide escapa do liceu graças a uma doença nervosa mais ou menos simulada. Depois de uma sequência de curas, é reintegrado na École alsacienne em 1882, onde é assolado por violentas enxaquecas, seguindo-se uma alternância entre Paris e Rouen e entre um conjunto de professores particulares de eficácia variável.
Durante uma das suas estadas em Rouen, no Outono de 1882, descobre a mágoa secreta da sua prima Madeleine em relação às relações adúlteras da sua mãe. Afundado em emoção, Gide descobre "um novo oriente para a (sua) vida". Nasce então uma relação longa e tortuosa. Gide deixa-se fascinar por esta rapariga, pela sua consciência do mal, pelo seu feito rígido e conformista; um conjunto de diferenças que o fascina. Constrói da sua prima, pouco a pouco, uma imagem de perfeição pela qual se apaixona, de forma puramente intelectual, mas não menos ardente.
A partir de 1883, tem aulas particulares com Madame Bauer, com quem descobre, entre outros, o Journal d'Amiel, que o incentiva a escrever o seu próprio diário intimo. O seu primo, Albert Démarest, pela sua atenção bondosa e aberta, tem também um papel importante junto de Gide, conseguindo que a a sua mãe reticente lhe conceda acesso à biblioteca paternal.
Entre 1885 e 1888, o jovem André vive um período de exaltação religiosa — qualificada de "estado seráfico" — que ele partilha com a sua prima graças a uma correspondência alimentada por leituras comuns. Consulta abundamentemente a Bíblia, os autores gregos e pratica o ascetismo. Em 1885, trava conhecimento em La Roque com François Witt-Guizot, que associa durante algum tempo ao seu misticismo. No ano seguinte, é o pastor Élie Allégret, seu professor de Verão, que se torna seu amigo.
Em 1887, regressa à École alsacienne para aprender retórica e conhece Pierre Louys, com quem se envolve numa amizade apaixonada, que gravita em redor da literatura e do seu desejo comum de escrever. No ano seguinte, enquanto prepara o exame de filosofia no liceu Henri-IV, Gide descobre Schopenhauer. Passa a frequentar os salões literários de Paris, onde conhece numerosos escritores. O seu primeiro trabalho, Les Cahiers d'André Walter, com o qual espera obter o primeiro sucesso literário e a mão da sua prima, obtém críticas favoráveis e atrai a atenção do público.
Os Cahiers proporcionam-lhe conhecer Maurice Barrès (de o Culte du moi, não o de Déracinés, a quem se oporá) e Mallarmé, que catalisará a transformação do misticismo religioso de Gide em misticismo ético. O despontar de uma amizade duradoura com Paul Valéry é acompanhada da deterioração das relações com Pierre Louys, que o acusa, tal como a sua prima, de egocentrismo. Madeleine, entretanto, recusa o casamento e afasta-se inquietamente dele. Inicia-se então uma longa luta para vencer a sua resistência e convencer a família, que também se opõe à união. No seu conjunto, Gide classifica este período de frequência assídua e vã dos salões como uma "selva obscura" que o deprime.
Em 1891, pouco depois de ter escrito o Traité du Narcisse, conhece Oscar Wilde, personalidade que tanto o assusta como o fascina. Para Gide, que começa a afastar-se de André Walter, do seu ideal ascético, da rejeição da vida, Wilde é o exemplo vivo de uma alternativa.
Na Primavera de 1892, uma viagem pela Alemanha, sem a sua mãe, é a ocasião para aprofundar o seu conhecimento sobre Goethe. Gide começa então a pensar que "é um dever ser feliz". Nas Élégies romaines, Gide descobre a legitimidade do prazer — em oposição ao puritanismo que sempre havia conhecido — que resulta para ele numa "tentação de viver". É então que começam as tensões com a sua mãe, que continua decidida em defender as pretensões do filho em relação a Madeleine, contra o resto da família Rondeaux e da própria, determinados em não permitir o casamento entre os primos.
Durante o Verão de 1892, escreve a Voyage d'Urien. Após a publicação, o livro é ignorado pela crítica e os encorajamentos dos amigos próximos são pouco convincentes. No Outono, depois de uma breve passagem pelas casernas e cinco juntas, Gide é considerado inapto para o serviço militar. O ano seguinte é marcado pelo nascimento de uma nova amizade, inicialmente apenas epistolar, com Francis James, que o apresentou a Eugène Rouart.