Andrei Arsênievitch Tarkóvski (em russo: Андре́й Арсе́ньевич Тарко́вский) (Zavraje, Oblast de Ivanovo, 4 de abril de 1932 — Paris, 29 de dezembro de 1986) foi um premiado cineasta soviético. Tarkovski se graduou em Cinema na conceituada Universidade Estatal Pan-russa de Cinematografia S. A. Gerasimov (VGIK), a mais antiga universidade de cinema do mundo.
Ao longo de sua carreira venceu prêmios no Festival Internacional de Cinema de Veneza, Festival de Cannes e no BAFTA.
Tarkóvski nasceu na aldeia de Zavraje no Oblast de Ivanovo, na Rússia. Seu pai, Arsêni Aleksandrovitch Tarkóvski, natural de Kirovohrad, na Ucrânia, foi um dos mais cultuados poetas russos modernos; sua mãe, Mariia Ivânovna Vischniákova, era atriz, graduada pelo Instituto de Literatura Maxim Gorky. Seu avô, Aleksander Tarkowski, foi um nobre polonês que trabalhou como bancário.
Andrei Tarkóvski passou a infância em Iúrievets. Em 1937, seu pai deixou a família e, posteriormente, em 1941, apresentou-se ao exército e seguiu para o front, onde perdeu a perna. O menino Andrei ficou com a mãe, mudando-se com ela e sua irmã, Marina, para Moscou. Em 1939, Tarkóvski matriculou-se na escola de Moscou № 554. Porém, por ocasião da batalha de Moscou (outubro de 1941 a janeiro de 1942), já no contexto da II Grande Guerra, a população da cidade foi evacuada, e os três seguiram para Iúrievets, onde Andrei passou a viver com sua avó materna. Apenas em 1943, a família pode retornar a Moscou. Todas essas passagens e impressões de infância - a evacuação da cidade, sua mãe com dois filhos pequenos, o pai ausente, o tempo passado no hospital etc. - foram registradas no filme autobiográfico O Espelho.
De volta a Moscou, Tarkóvski continuou os estudos em sua antiga escola, onde conheceu o poeta Andrei Voznessênski, seu colega de classe. Também estudou piano, em uma escola de música, e frequentou uma escola de arte plásticas. De novembro de 1947 até a primavera de 1948, ficou internado num hospital, com tuberculose.
Após concluir o ensino médio (1951-1952), estudou árabe no Instituto Oriental, em Moscou, um ramo da Academia de Ciências da URSS. Acabou por abandonar os estudos, depois de sofrer uma concussão durante uma aula de educação física.
Em maio de 1953, conseguiu um emprego como coletor de amostras, na expedição de pesquisa geológica do Instituto NIGRIZoloto (ligado ao Ministério da Metalurgia da USSR), no remoto distrito de Turukhansky, no krai de Krasnoiarsk, onde trabalhou por quase um ano no rio Kureika, caminhando centenas de quilômetros pela taiga siberiana. Mais tarde, ele entregaria seu caderno de esboços ao arquivo Nigrizoloto. Foi durante essa expedição que Tarkóvski decidiu estudar cinema.
"Na minha juventude, passei por um momento muito difícil. Em geral, andava em más companhias quando era jovem. Minha mãe me salvou de uma forma muito estranha: ela me arranjou um emprego em um grupo geológico. Trabalhei lá como coletor, quase um operário, na taiga, na Sibéria. E essa foi a melhor lembrança de minha vida. Eu tinha 20 anos na época... Tudo isso fortaleceu minha decisão de me tornar um diretor de cinema".
Ao retornar da expedição em 1954, Tarkóvski começou a estudar na conceituada Universidade Estatal Pan-russa de Cinematografia S. A. Gerasimov (VGIK) no curso de direção de cinema. Estava na mesma classe de Irma Raush, com quem se casou em abril de 1957.
No início da Era Khrushchov, eram oferecidas oportunidades únicas para jovens cineastas. Antes de 1953, a produção anual de cinema era baixa, e a maioria dos filmes era dirigida por diretores veteranos. Depois de 1953, a produção de filmes cresceu, e os jovens diretores ganharam espaço. Khrushchov aliviou as restrições à importação de bens oriundos da indústria cultural capitalista e permitiu um pequeno fluxo de literatura, cinema e música da Europa e dos Estados Unidos para dentro da URSS. Isso permitiu que Tarkóvski conhecesse a produção do neorrealismo italiano, da nouvelle vague francesa e de diretores como Kurosawa, Buñuel, Bergman, Bresson, Andrzej Wajda (cujo filme Cinzas e Diamantes exerceu grande influência sobre o jovem Tarkóvski) e Mizoguchi.
Mikhail Romm, professor e orientador de Tarkóvski, foi o mestre de muitos estudantes de cinema que mais tarde viriam a se tornar diretores influentes. Em 1956, Tarkóvski, ainda como aluno, dirigiu seu primeiro curta-metragem, The Killers, baseado em um conto de Ernest Hemingway. O curta-metragem There Will Be No Leave Today e o roteiro de Concentrated, em 1958 e 1959, respectivamente, completam sua experiência na academia.
Durante seu terceiro ano na VGIK, Tarkóvski conheceu Andrei Kontchalovski. Ambos descobriram ter muito em comum: gostavam dos mesmos diretores e compartilhavam ideias sobre cinema e filmes. Em 1959, escreveram o Roteiro de Antártica - País Distante', que mais tarde foi publicado no Moskovskij Komsomolets. Tarkóvski apresentou o roteiro para a produtora Lenfilm, mas foi rejeitado. Os dois cineastas foram mais bem-sucedidos com o roteiro de O Rolo Compressor e o Violinista, que conseguiram vender à Mosfilm e que se tornou o projeto de graduação de Tarkóvski (pré-requisito para obtenção do diploma, em 1960) e lhe valeu seu primeiro prêmio, no Festival Estudantil de Cinema de Nova York, em 1961.
Filmografia: Realizações na União Soviética
Tarkóvski dirigiu apenas sete longas-metragens, bem como três curtas de seu tempo na VGIK. Também escreveu vários roteiros. Dirigiu a ópera Boris Godunov, em Londres, e uma produção de rádio do conto Turnabout de William Faulkner. Além disso, escreveu Esculpir o Tempo , um livro sobre a teoria do cinema.
O primeiro longa metragem realizado por Tarkóvski foi A Infância de Ivan em 1962. Tarkóvski assume o projeto do diretor Eduard Abalov, que abandonou a produção. O longa concedeu a Tarkóvski aclamação internacional e foi vencedor do Leão de ouro, na cidade de Veneza, em 1962.
Em 1965 Tarkóvski dirigi o longa Andrei Rublev sobre a vida do pintor russo Andrei Rublev. O segundo Longa de Tarkóvski só foi exibido uma vez em moscou no ano de 1966, dado os problemas com as autoridades soviéticas. O filme viu a luz mais algumas vezes em 1969 no Festival de Cannes, onde ganha o prêmio FIPRESCI. E foi amplamente divulgado em uma edição não oficial nos anos 1971 na União Soviética. Com o apoio de algumas personalidades que apreciavam o trabalho do diretor uma versão é finalmente liberada em 24 de dezembro de 1971. Essa foi a primeira colaboração entre o diretor e o ator Anatoly Solonitsyn.
Solaris, o terceiro longa do diretor, foi finalizado em 1972. O filme é uma adaptação do Romance de mesmo nome do escritor Stanisław Lem. O filme foi apresentado no festival de Cannes, ganhou o prêmio Grand príx spécial du Jury, prêmio FIPRESCI e foi nomeado a Palme D’Or. No documentário Andrey Tarkovsky: Un poeta en el cine o diretor faz o seguinte comentário: "Solaris, é para mim, meu pior filme. É o que menos gosto dentre todos os que realizei. Ao contrário do autor do livro, eu não tenho interesse no problema da relação entre o homem e o conhecimento mas nos problemas psicológicos... nos problemas humanos. Pode o homem viver em condições desumanas e continuar sendo homem?"
Entre 1973 e 1974 o diretor realizou as filmagens de seu quarto longa. O Espelho é um filme autobiográfico, que remonta a infância do diretor. A narrativa não linear e os fatos dispersos temporalmente no filme são consideradas uma das interpretações audiovisuais mais fidedignas feitas sobre a memória. Os primeiros fragmentos de O espelho foram escritos enquanto Tarkóvski trabalhava em Andrei Rublev. Os fragmentos foram publicados como uma história curta sob o título A White day em 1970. O título do filme foi retirado de um dos poemas de seu pai Arsêni Tarkóvski. Uma primeira versão do roteiro é escrita, embora contenha temas populares como uma mãe heroica, a guerra e o patriotismo. O roteiro foi recusado, dada a sua natureza complexa e nada convencional. Com a recusa do roteiro, Tarkóvski ingressa na Realização de Solaris. Mas o próprio diretor escreve em seu diário que está ansioso para rodar o longa. Com um roteiro não linear o próprio diretor admite que não saberia o produto final que se tornaria o filme. Finalizado o projeto, O Espelho ganhou a classificação de terceira categoria que limitou com severidade a distribuição do filme, só pode alcançar alguns poucos cinemas e alguns clubes de trabalhadores. A terceira categoria colocou o cineasta em risco de receber algumas acusações por desperdiçar fundos públicos. Acredita-se que esse seja um dos motivos que fez Tarkóvski considerar fazer filmes fora da União Soviética.