Angelo Agostini (Vercelli, 8 de abril de 1843 — Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1910) foi um desenhista, ilustrador, jornalista e caricaturista ítalo-brasileiro que é considerado o artista gráfico mais importante do Segundo Reinado e um dos pioneiros das histórias em quadrinhos em escala mundial. Sua vasta obra, produzida ao longo de mais de quatro décadas, constitui uma crônica satírica e crítica da sociedade e da política brasileira, abrangendo desde a Guerra do Paraguai até a consolidação da República Velha.
Agostini foi o fundador de periódicos icônicos como o Diabo Coxo e, principalmente, a Revista Illustrada, que se tornou uma das mais influentes e longevas publicações do Império do Brasil. Em suas páginas, combateu ferozmente a escravidão e o clero, além de criticar a monarquia e o próprio imperador D. Pedro II. É creditado pela criação daquela que é considerada a primeira história em quadrinhos brasileira e uma das mais antigas do mundo, As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte, publicada a partir de 30 de janeiro de 1869.
Sua vida pessoal foi tão turbulenta quanto sua carreira política, marcada por um relacionamento com a pintora Abigail de Andrade que escandalizou a sociedade da época e o forçou a um breve exílio na Europa. Seu legado é celebrado anualmente com o Prêmio Angelo Agostini e o Dia do Quadrinho Nacional, estabelecido na data de sua publicação pioneira.
Primeiros anos e formação na Europa
Angelo Agostini nasceu em Vercelli, uma comuna na região do Piemonte, então parte do Reino da Sardenha. Ainda na infância, mudou-se para Paris com sua mãe, a cantora lírica Raquel Agostini, onde viveu sua adolescência e iniciou seus estudos artísticos. Este período na capital francesa, um dos maiores centros culturais e políticos do século XIX, foi fundamental para sua formação intelectual e artística, colocando-o em contato com a efervescente tradição da caricatura e da imprensa satírica europeia, notadamente a francesa, que tinha em Honoré Daumier um de seus maiores expoentes.
Em 1859, aos dezesseis anos, acompanhou sua mãe que viajava ao Brasil para uma turnê de canto, desembarcando em São Paulo.
Chegada ao Brasil e a imprensa paulistana
A carreira de Agostini como cartunista teve início em São Paulo, em 1864, com a fundação do jornal Diabo Coxo. Lançado em 1º de outubro, foi o primeiro periódico ilustrado da cidade e contava com a colaboração textual do poeta, advogado e ardoroso abolicionista Luís Gama. A publicação era notória por seu humor afiado e suas críticas à realidade local, mirando a política, os costumes e as figuras da elite paulistana. Apesar da repercussão, a revista teve vida curta, sendo encerrada em 1865.
Em 1866, Agostini lançou um novo desafio à conservadora sociedade paulista: o jornal Cabrião. Ainda mais combativo, o periódico intensificou os ataques ao clero, à monarquia e às elites escravocratas. Suas charges eram consideradas tão provocadoras que a sede do jornal chegou a ser depredada por grupos conservadores, e Agostini sofreu perseguições. O Cabrião consolidou sua fama de polemista, mas, pressionado financeira e politicamente, também foi descontinuado em 1867.
Consolidação no Rio de Janeiro
Após o fechamento do Cabrião, Agostini mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital do Império. Na corte, encontrou um ambiente cultural e político mais dinâmico, onde seu talento floresceu. Começou a colaborar com importantes periódicos, como O Mosquito e A Vida Fluminense.
A Vida Fluminense e o pioneirismo de Nhô Quim
Foi nas páginas de A Vida Fluminense que Agostini publicou sua obra mais revolucionária. Em 30 de janeiro de 1869, veio a lume o primeiro capítulo de As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte. A série narrava, em quadros sequenciais com texto em formato de legenda, as peripécias de um caipira (personagem rural) que se muda para a cidade grande e se espanta com os costumes e a corrupção da corte.
A obra é considerada a primeira história em quadrinhos do Brasil e uma das mais antigas do mundo, antecipando em mais de duas décadas o famoso The Yellow Kid norte-americano. Agostini utilizou recursos gráficos inovadores para a época, estabelecendo uma narrativa visual contínua que satirizava a sociedade urbana através do olhar ingênuo do protagonista. A série foi publicada de forma irregular e posteriormente interrompida pelo artista, sendo retomada brevemente por outro desenhista.
Revista Illustrada: Apogeu e combate político
Em 1 de janeiro de 1876, Agostini fundou a Revista Illustrada, seu projeto mais ambicioso e duradouro. A revista tornou-se um marco editorial e a principal plataforma para suas campanhas políticas. Por meio de litografias de página inteira e charges corrosivas, Agostini liderou uma incansável campanha pela abolição da escravatura. Suas imagens que denunciavam a brutalidade do sistema escravista tiveram enorme impacto na opinião pública.
Além da causa abolicionista, a revista criticava a Guerra do Paraguai, ironizava a figura do Imperador D. Pedro II — frequentemente retratado como um velho sonolento e alheio aos problemas do país — e defendia ideais republicanos. A Revista Illustrada circulou por mais de duas décadas, testemunhando a queda do Império e os primeiros anos da República.
Na Revista Illustrada, em 1883, Agostini criou outro personagem icônico: As Aventuras de Zé Caipora. Diferente de Nhô Quim, Zé Caipora era um personagem mais fantástico, um caçador azarado que vivia em conflito com os animais da floresta, os quais sempre levavam a melhor. As histórias, mudas e de grande dinamismo visual, foram um sucesso estrondoso. Em 1886, a série foi reunida e publicada em formato de álbum, o que alguns pesquisadores consideram a primeira revista em quadrinhos com um personagem fixo lançada no Brasil. O personagem seria retomado por Agostini anos mais tarde em outras publicações, como O Tico Tico.