Annelies "Anne" Marie Frank (Frankfurt, 12 de junho de 1929 – Bergen-Belsen, fevereiro ou março de 1945) foi uma adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto. Tornou-se uma das figuras mais discutidas da história após a divulgação póstuma do Diário de Anne Frank (1947), no qual documentou suas experiências enquanto vivia escondida em cômodos ocultos de uma empresa durante a ocupação alemã nos Países Baixos na Segunda Guerra Mundial. Desde então, passou a ser referida como um "símbolo da luta contra o preconceito" e teve sua história servindo como base para diversas peças de teatro e filmes ao longo dos anos. Em 1999, foi contemplada como uma das pessoas mais importantes do século XX em uma lista organizada pela revista Time.
Com o crescente número de manifestações antissemitas na Alemanha em 1933, um resultado da ascensão do Partido Nazista ao governo alemão, a família de Frank começou a temer em continuar no país, mudando-se no ano seguinte para Amsterdã. Em maio de 1940, após a invasão nazista aos Países Baixos, aumentaram gradativamente as perseguições aos judeus, além de terem sido criadas leis que os proibiam de frequentar diversos estabelecimentos. Dois anos depois, a família decidiu se esconder em compartimentos secretos de um edifício comercial, dividindo-o com mais quatro amigos. Em 4 de agosto de 1944, o grupo foi traído misteriosamente e teve a localização do esconderijo revelada para a Gestapo, acabando por serem transferidos para diversos campos de concentração. Em companhia de sua irmã, Margot Frank, a jovem foi transportada até Bergen-Belsen, onde, provavelmente, morreram vítimas de tifo epidêmico, em um dia desconhecido de fevereiro ou março de 1945.
Após o final da guerra, o único sobrevivente do grupo foi o pai de Anne, Otto Frank, que retornou para Amsterdã e descobriu que o diário da filha havia sido salvo por Miep Gies, uma das funcionárias da empresa que havia ajudado a família durante a vida em esconderijo. Otto publicou o diário em 1947 e, desde então, foi traduzido para mais de 70 línguas e comercializou cerca de 35 milhões de unidades em todo o mundo. Além disso, autores têm reconhecido o impacto do livro sobre a humanidade ao longo dos anos, sendo referido como fonte de incentivo para políticos como Nelson Mandela e Eleanor Roosevelt. Em 1960, foi inaugurado o museu Casa de Anne Frank, ponto turístico que tem atraído mais de 1,2 milhão de visitantes anualmente.
Imigração e educação (1929–1941)
Annelies Marie Frank nasceu no dia 12 de junho de 1929 em Frankfurt, Prússia, na República de Weimar, sendo a última filha de Otto Heinrich Frank (1889–1980) e Edith Holländer-Frank (1900–1945). Sua irmã mais velha era Margot (1926–1945). A família Frank eram asquenazitas liberais, ou seja, não seguiam todos os costumes e tradições do judaismo; desta forma, viviam em uma comunidade assimilada com outros cidadãos judeus e não judeus de diversas religiões. Edith e Otto eram pais dedicados, demonstravam interesse principal em atividades acadêmicas e possuíam em sua residência uma extensa biblioteca; além disso, costumavam incentivar suas filhas a lerem desde cedo. O patriarca da família era um veterano de guerra, tendo servido o Exército Imperial Alemão na Primeira Guerra Mundial; após sua atuação na Batalha de Cambrai, foi promovido a tenente. Após a guerra, Frank e seus irmãos assumiram a propriedade de um banco de negócios na cidade que anteriormente pertencia à seu pai, de onde tirava a maior parte da renda da família, mas o negócio entrou em declínio no início da década de 1930 como um resultado da Grande Depressão.
Em março de 1933, após o Partido Nazista sair vitorioso na eleição federal e seu líder, Adolf Hitler, ter sido nomeado Chanceler da Alemanha, começaram a ocorrer manifestações antissemitas massivas no país, fazendo com que a família Frank começasse a questionar a possibilidade de emigração. Inicialmente, Edith se mudou com as filhas para a casa de sua mãe, Rosa Holländer, localizada em Aachen, cidade que faz fronteira com a Bélgica e os Países Baixos. Otto permaneceu em Frankfurt, mas após receber uma proposta de iniciar uma companhia em Amsterdã, decidiu se mudar para organizar o negócio e arrumar acomodações para sua família. Após iniciar uma filial da Opekta Works, especializada em comercialização da pectina — ingrediente usado na preparação de geleias —, ele encontrou um apartamento em Rivierenbuurt, bairro onde a maioria dos judeus de origem alemã haviam se estabelecido. Edith e Margot foram de encontro ao patriarca da família em dezembro de 1933; Anne, por outro lado, permaneceu com a avó até fevereiro de 1934. A família Frank fez parte do grupo de 300 mil judeus que deixaram a Alemanha entre 1933 e 1939.
Em Amsterdã, as crianças foram matriculadas em escolas: Margot foi para uma instituição pública, enquanto Anne foi para um instituto que praticava o Método Montessori — técnica projetada por Maria Montessori e que foi expressamente proibida no início do Terceiro Reich. Apesar dos problemas iniciais com a língua neerlandesa, Margot se mostrou uma boa aluna com habilidades em aritmética, enquanto Anne se mostrava melhor em história, além de apreciar ler e escrever. Mais tarde, uma de suas colegas de classe, Hanneli Goslar, relembrou que a jovem escrevia com frequência, embora ela protegesse seu trabalho e se recusasse a discutir sobre o conteúdo de sua escrita. As irmãs Frank possuíam personalidades distintas; Margot era educada, tímida e estudiosa, enquanto Anne era sincera, energética e extrovertida.
Em 1938, Otto decidiu expandir seus empreendimentos e dar início à uma nova companhia; intitulada como Pectacon, o negócio seria especializado na comercialização de ervas, sais de decapagem e temperos mistos, usados posteriormente na produção de salsichas. Para dar continuidade ao projeto, Hermann van Pels foi contratado para prestar serviços como consultor de especiarias; assim como Otto, ele havia fugido com sua família após o início das perseguições aos judeus em Osnabruque, na Baixa Saxônia, onde se sustentava desempenhando trabalhos como açougueiro. Ambos tornaram-se bons amigos, as famílias se aproximaram e costumavam organizar reuniões aos sábados para apresentar a cidade aos novos refugiados judeus de origem alemã. No ano seguinte, a avó, Rosa Holländer foi o último membro da família a imigrar definitivamente para os Países Baixos, passando a viver na residência dos Frank.
Em maio de 1940, a Alemanha Nazista invadiu os Países Baixos e o governo de ocupação deu início às perseguições aos judeus com implementação de leis restritivas e discriminatórias; registros obrigatórios e segregações aconteceram posteriormente. Por exemplo, Anne e Margot foram proibidas de continuar frequentando as escolas em que estavam matriculadas, sendo direcionadas para instituições próprias para judeus; além disso, eram obrigadas à se identificarem com a estrela de Davi costurada em suas vestimentas. Em abril de 1941, em uma tentativa de evitar que suas companhias fossem confiscadas por serem propriedades de um judeu, Otto transferiu suas ações e liquidou as empresas, transferindo seus ativos para Jan Gies, um de seus principais colaboradores. Os lucros dos negócios continuaram com poucas mudanças e, apesar de receberem uma renda mínima, era suficiente para sustentar a família. No mesmo período, ele tentou conseguir visto nos Estados Unidos para sua família; no entanto, o pedido nunca foi processado devido ao fechamento do consulado norte-americano em Roterdã, consequência da destruição na cidade após a Batalha dos Países Baixos.
Antecedentes e esconderijo (1942)
No início de 1942, Anne lidou com a morte da sua avó, Rosa Holländer, e começou a frequentar uma instituição de ensino destinada apenas para judeus, passando a ser proibida de ter contato com crianças de outras etnias. Em seu aniversário de treze anos, em 12 de junho, foi presenteada por seus pais com um livro de autógrafos que havia demonstrado interesse anteriormente enquanto passava por uma vitrine; encadernado com um tecido xadrez em vermelho e branco, o material era composto por um pequeno cadeado em sua parte frontal. Anne decidiu que o usaria como diário, nomeando-o como "Kitty", escrevendo pela primeira vez em 20 de junho; embora suas primeiras anotações fossem relacionadas aos aspectos mundanos de sua vida, discutia também sobre mudanças no bairro onde residia, além de listar as diversas restrições impostas sobre a comunidade judaica pelo governo de ocupação nos Países Baixos. Além disso, esboçou em algumas passagens o sonho em tornar-se uma atriz, destacando que assistir filmes era um de seus passatempos favoritos; porém, os judeus foram proibidos de frequentarem as salas de cinema a partir de 8 de janeiro de 1941.