Neste Dia

António Botto

Escritor português

Anúncio

António Tomás Botto (Concavada, Alvega, Abrantes, 17 de agosto de 1897 – Rio de Janeiro, 16 de março de 1959), poeta, contista e dramaturgo português. A sua obra mais popular, Canções, foi um marco na lírica portuguesa pela sua novidade e ousadia, ao abordar de modo subtil mas explícito o amor homossexual, causando grande escândalo e ultraje entre os meios reaccionários da época.

Amigo de Fernando Pessoa, que foi seu editor, defensor crítico e tradutor, conheceu igualmente outras figuras cimeiras das letras e artes portuguesas. Ostracizado em Portugal, radicou-se no Brasil em 1947, onde passou tempos muito difíceis, vindo a morrer de atropelamento.

António Botto nasceu a 17 de agosto de 1897 em Concavada, que então pertencia à freguesia de Alvega, no concelho de Abrantes, Portugal. A 23 de janeiro de 1898, foi batizado na igreja paroquial de Alvega como segundo filho de Francisco Thomaz Botto e primeiro de Maria Pires Agudo (o casal terá ainda mais dois filhos), ambos naturais de Alvega. O pai trabalhava como "marítimo" nas fragatas do Tejo. Em 1902 a família mudou-se para Lisboa, indo residir no n.º 22 da Rua da Adiça, Alfama, bairro popular e típico, que muito influenciaria a sua obra. O pai trabalhava como arrais de fragata e a mãe como mulher-a-dias. Num apontamento autobiográfico (e, talvez, parcialmente fantasista), Botto alude a esses tempos:

«Nasci numa terra de província, com arvoredos, piquenas casas, e uma fonte onde matei a sede da minha infância. Lá brinquei descalço e alegre na poeira dos caminhos. Minha mãe veio a Lisboa quando eu tinha cinco anos. Aqui ficámos a viver numa casa muito antiga de um bairro antigo e popular. Aqui, em Lisboa pisei, pela primeira vez, o chão de uma escola onde aprendi as primeiras letras num livro sempre bendito. Minha mãe queria que eu fosse padre — um ministro da Igreja Católica; mas, alguém a dissuadiu; alguém lhe disse uma noite: seu filho é bonito de mais para ser padre. Depois fui para Inglaterra: era melhor tirar um curso desses que dão rendimento na mecânica ou na ciência; e passados quatro anos regressei a Portugal sem nada ter aprendido! Empreguei-me no comércio e continuei a estudar. Aprendi alguma coisa. Os professores eram bons, simpatizaram comigo, e eu ia arrebitando o entendimento, — estudava e aprendia…»

«Empregado muito jovem numa livraria-editora lisboeta, aí granjeou a simpatia de escritores já eminentes nos anos 1910 e 20, que admiraram e incentivaram o seu precoce talento literário (ter-se-á estreado nas letras em 1912), muito antes de Fernando Pessoa aclamar as suas Canções em 1922. A sua juventude foi aventurosa, e a sua disponibilidade de efebo valeu-lhe então algumas digressões opulentas pelo estrangeiro.», escreveu Jorge de Sena, parecendo com isso indicar que o jovem Botto teria sido objecto de ligações pederásticas a homens abastados que o levaram em viagens pelo estrangeiro.

Primeiros escritos e as Canções

Em 1919 escreve Flor do Mal, texto dramatúrgico, e em 1920 publicou Canções do Sul (que alguns consideram ser um prelúdio das Canções), passando a residir na Rua da Madalena, 151-2º esq. onde viverá até 1937.

Em 1921, é publicada a 1.ª edição de Canções, com prefácio (não-autorizado) de Teixeira de Pascoaes e António Ferro dedica-lhe uma crítica elogiosa no Diário de amor. No entanto, na primeira página de A Capital, de 18 de Abril de 1921, estampava-se um artigo com esta manchete jocosa-moralista: «O Livro da D. Antonia: "Canções"… A Elle! – Ancia de réclame ou descalabro moral?», onde o autor, escandalizado, reclamava a apreensão do livro.

Em 1922 sai a 2.ª edição de Canções, sob a chancela da Editora Olisipo de Fernando Pessoa. Este publica na revista Contemporânea o ensaio «António Botto e o Ideal Estético em Portugal». Em 1923, sai Motivos de Beleza.

Em 1924, ingressa na função pública como escriturário de 2ª categoria e parte para Angola, indo trabalhar na Repartição Política e Civil de Santo António do Zaire e mais tarde em Luanda. Em 1925 regressa a Lisboa e é colocado no posto antropométrico do Governo Civil. A esse respeito, escreveu:

«E abraçando uma ilusão, embarquei para Luanda. Um lugar de funcionário público chamava-me na miragem de melhorar os meus dias. Ao fim de dois anos voltava desiludido, mais triste. Contudo, a ambição de bem-estar apertava o meu anseio. Visitei a França, a Itália, fui à Bélgica, à Holanda, e nada me convenceu…»

Com efeito, a 16 de Janeiro de 1927, embarca para Nápoles, como secretário de Luis Fernando de Orleans y Borbón, primo do rei Afonso XIII, que o destituíra de infante de Espanha, na sequência de um escândalo sexual e de tráfico de drogas, em França. Homossexual desavergonhado e turbulento, que a ralé de Madrid havia apodado de "el rey de los maricas", perambulava pela Europa, protagonizando desaforos. Botto terá viajado durante alguns meses na companhia desse personagem singular, e em Março escrevia de Paris a Fernando Pessoa.

António Botto tinha uma personalidade marcada. Descrevem-no como magro, de estatura média, um dandy, sempre bem vestido, de rosto oval, um ar lânguido, uma boca muito pequena de lábios finos, os olhos amendoados, estranhos, inquisitivos e irónicos (de onde por vezes irrompia uma expressão perturbadoramente maliciosa) que ele frequentemente ocultava sob a aba do chapéu inclinado sobre o rosto.

Altivo, jamais falava sobre as suas origens modestas, nem sobre os pais ou os dois irmãos. Mentia sobre a idade, dizendo que tinha nascido em 1900. Tinha muitos conhecidos, alguns amigos, mas muitos acabavam por se afastar dele, agastados com a sua língua viperina. Almada Negreiros, que o conhecia bem e o retratou num desenho, chegou a dizer que Botto era «uma serpente». L.P. Moitinho de Almeida escreveu que «António Botto era bom amigo quando era amigo, mas era um inimigo terrível dos seus inimigos».

Segundo Eugénio de Andrade, que o conheceu em 1939, e que depois de uma boa impressão inicial acabaria por se desiludir com ele (considerava-o um poeta menor e muito inculto), Botto, vaidoso, egocêntrico e frívolo, primava pela «total ausência de escrúpulos, e uma linguagem cujo espírito oscilava entre a caserna e a Brasileira do Chiado», não se coibindo insinuar coisas pérfidas acerca de alguns confrades das letras.

Tinha um sentido de humor sardónico, incisivo, uma mente aguda, irreverente, sendo conversador brilhante e muito inteligente, características que muito divertiam e seduziam amigos como Fernando Pessoa ou Reinaldo Ferreira (de quem durante algum tempo foi colaborador administrativo no semanário Repórter X

(1930-1935). Era amigo do seu amigo, mas tornava-se muito desagradável se sentia que alguém antipatizava com ele ou não o tratava com a admiração incondicional que ele julgava merecer, chegando ao ponto de escrever cartas anónimas insultuosas. Este seu mau feitio criou-lhe um grande número de inimigos. Alguns dos seus contemporâneos consideravam-no frívolo, mercurial, mundano, inculto, intriguista, vingativo, mitómano, maldizente e, sobretudo, terrivelmente narcisista a ponto de ser megalómano.

Essas inimizades e talvez a homofobia de que tenha sido alvo, ficaram retratadas com uma ironia amarga no poema Palavras de um avestruz todo gris:

Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium
António Botto | World in Stories