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Aristides de Sousa Mendes

Diplomata português (1885-1954)

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Aristides de Sousa Mendes GCC • OL • GCL, do seu nome completo Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches (Cabanas, Carregal do Sal, 19 de julho de 1885 – Mártires, Lisboa, 3 de abril de 1954), foi um diplomata português.

Enquanto cônsul de Portugal em Bordéus no ano da invasão da França pela Alemanha Nazi na Segunda Guerra Mundial, desafiou ordens expressas do ditador António de Oliveira Salazar que acumulava a função de ministro dos Negócios Estrangeiros, e durante três dias e três noites concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal a refugiados de várias nacionalidades que desejavam fugir da França em 1940.

O número total de vistos passados por Sousa Mendes é desconhecido, devido a muitos deles terem sido passados sem que deles se fizesse registo. Algumas fontes apontam o número de judeus salvos do Holocausto por Sousa Mendes na ordem dos dez mil, num total de trinta mil refugiados a quem terá passado vistos durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 3 de julho de 2020, a Assembleia da República concedeu-lhe Honras de Panteão Nacional, tendo em vista «homenagear e perpetuar a memória de Aristides de Sousa Mendes, enquanto homem que desafiou a ideologia fascista, evocando o seu exemplo na defesa dos valores da liberdade e dignidade da pessoa humana.» A cerimónia teve lugar em 19 de outubro de 2021, tendo nela participado as mais altas entidades portuguesas, designadamente o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República e o Primeiro-Ministro.

Aristides nasceu no lugar do Aido, freguesia de Cabanas (mais tarde denominada Cabanas de Viriato), concelho do Carregal do Sal, no sul do Distrito de Viseu a 19 de julho de 1885, às quatro da manhã. O seu irmão gémeo César nasceu às onze da noite do dia anterior, comemorando o seu aniversário a 18 de julho. César e Aristides foram ambos batizados a 21 de setembro de 1885, em Cabanas de Viriato. Pertenciam a uma família aristocrática rural, católica e monárquica, qualidades que partilhava, apoiando inclusivamente a contrarrevolução conhecida como "Monarquia do Norte".

O seu pai, José de Sousa Mendes, era juiz no Tribunal da Relação de Coimbra, sendo natural de Beijós, Carregal do Sal, e a mãe, Maria Angelina Coelho Ribeiro de Abranches, era natural de Midões, Tábua , onde nasceu a 17 de março de 1861, tendo falecido em Carregal do Sal, Cabanas de Viriato, 7.10.1931.

Aristides instala-se em Lisboa em 1907, após concluir, juntamente com o seu irmão gémeo, a licenciatura em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. César envereda pela carreira diplomática, mais política, ao passo que Aristides envereda pela carreira consular.

A 18 de fevereiro de 1909, casa-se em Beijós com Maria Angelina Coelho do Amaral e Abranches, sua parente em segundo grau e namorada de infância, filha de António de Sousa Mendes, que havia sido padrinho de batismo de Aristides, e de Clotilde Coelho Ribeiro. Os noivos conheciam-se desde a primeira infância porque eram duplamente primos em primeiro grau: seus respectivos pais eram irmãos, bem como suas mães também eram irmãs uma da outra.

O casal teve catorze filhos, nove rapazes e cinco raparigas, nascidos nos diversos países em que Sousa Mendes esteve colocado. Pouco depois do seu casamento, Sousa Mendes começou a carreira consular que o levaria e à sua família ao redor do mundo. No início de sua carreira atuou em Zanzibar, Brasil, Espanha, Estados Unidos e Bélgica. Aristides teve sempre uma carreira algo atribulada e com vários incidentes, sobretudo por abandono de posto sem autorização e por utilização abusiva de dinheiros públicos. Ao longo de 30 anos Aristides teve conflitos e incidentes com os mais diversos regimes políticos. O primeiro incidente deu-se em 1917 quando Aristides foi admoestado por ter abandonado o seu posto em Zanzibar sem para tal ter solicitado a devida autorização. Em 1919, quando colocado no Brasil, Aristides sofre uma suspensão, por dois anos, por comportamento antirrepublicano.

Em 1923 quando colocado em São Francisco, nos EUA, Aristides entra em choque com a comunidade local portuguesa por estar a exigir, indevidamente, aos emigrantes portugueses, uma contribuição para um fundo de caridade da Colónia Portuguesa do Brasil para os órfãos de guerra. Perante a recusa, como represália, Aristides proíbe os notários portugueses de trabalharem para o consulado e os notários acusam-no de os estar a afastar para poder assim receber ele "ou algum afilhado… a mais gorda fatia da receita", e apelidam-no de "Lord de Ópera-bufa". Aristides decidiu então dar réplica pública aos queixosos e, pouco diplomaticamente, recorre aos jornais Americanos para esgrimir os seus argumentos, atacando em particular os directores da Irmandade do Divino Espírito Santo. O MNE ordenou-lhe que suspendesse todas as publicações nos jornais, ordem que Aristides ignorou, continuando a sua contenda pública. O conflito atingiu tais proporções que o governo americano desagradado lhe cancelou a exequatur, impedindo-o assim de continuar a exercer as funções de cônsul em território Norte-Americano. Aristides foi então enviado para o Consulado do Maranhão no Brasil. Em 1926 Aristides regressa a Lisboa para prestar serviço na Direcção-Geral dos Negócios Comerciais e Consulares.

Após a revolução militar do 28 de maio de 1926, Aristides, que era monárquico e nacionalista apoia abertamente o regime ditatorial desde o seu início e a sua carreira começa então a melhorar significativamente. Em 1927 é nomeado cônsul em Vigo onde colabora com o Estado Novo na aniquilação das manobras dos refugiados políticos. É o próprio Aristides quem o escreve, em carta enviada ao MNE, datada de 1929 considerando-se a pessoa apropriada "para vigiar e inutilizar os manejos conspiratórios dos emigrados políticos contra a ditadura" e vangloria-se de que "no manejo dessa melindrosa missão", fez "inúmeras diligências junto das autoridades espanholas fornecendo ao nosso governo informações que permitiram liquidar os ditos manejos revolucionários".

Em 1929 foi nomeado cônsul-geral em Antuérpia, cargo que ocupou até 1938. Seu empenho na promoção da imagem de Portugal não passou despercebido. Foi condecorado por duas vezes por Leopoldo III, Rei dos Belgas, tendo-o feito oficial da Ordem de Leopoldo II em 6 de janeiro de 1931 e comendador da Ordem da Coroa, a mais alta condecoração belga. Durante o período em que viveu na Bélgica, conviveu com personalidades ilustres, como o escritor Maurice Maeterlinck, Prémio Nobel da Literatura, e o cientista Albert Einstein, Prémio Nobel da Física.

Enquanto cônsul em Antuérpia (Anvers na designação em francês), Aristides de Sousa Mendes proferiu, em 11 de abril de 1932, uma preleção intitulada Le Portugal, Pays de Rêve et de Poésie, no Athénée Royal d'Anvers, a convite da Asociacion Belgo-Ibero-Americana, preleção que foi publicada pouco depois com o n.º 2 das suas publicações por esta Asociacon.

Aristides sempre viveu com dificuldades financeiras e em 1932 e 1938 volta a ser repreendido por irregularidades nas contas do consulado. Também em 1938, Aristides é, mais uma vez, repreendido por ter abandonado o seu posto em Antuérpia sem que previamente tenha informado a legação de Londres. Outro incidente é a repreensão por declarações públicas, em nome do Estado Português, aquando da inauguração do Pavilhão Português na feira de Bruxelas em 1935.

Aristides nem sempre seguia regras e protocolos. Contavam os seus próprios filhos que quando colocados em Antuérpia, Aristides tinha por hábito enviá-los, a eles, então ainda adolescentes, em sua substituição, a cerimónias e eventos oficiais, o que por vezes causava perplexidade entre os convidados.

Depois de quase dez anos de serviço na Bélgica, Salazar, presidente do Conselho de Ministros e ministro dos negócios estrangeiros, nomeia Sousa Mendes cônsul em Bordéus, França.

Em 1938, em Bordéus, Andrée Cibial, uma jovem francesa de 32 anos, entra na vida de Aristides, contava então ele com 53 anos; era católico devoto, pai de uma prole, numerosa, 14 filhos, dos quais 12 vivos. Jose-Alain Fralon, jornalista do Le Monde conta-nos na sua biografia de Aristides que Andrée Cibial era uma mulher com um gosto especial por transgredir regras, com uma maneira de ser jovial completamente oposta à de Angelina, a esposa leal e devota de Aristides. Não tardou muito a que Andrée aparecesse grávida de Aristides e ela não procurou ocultar o facto, pelo contrário, deu-o a conhecer a toda a gente e à sua maneira peculiar, a meio da missa dominical na Catedral de Ribérac. A tia que a acompanhava ficou horrorizada.

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