Neste Dia

Ataques ao norte de Angola em 1961

Série de ataques armados de guerrilha ocorridos no norte de Angola entre março e outubro de 1961

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Os ataques ao norte de Angola em 1961, também chamados metonimicamente de revolta de 15 de março, foram uma série de ataques armados de guerrilha organizados pela União das Populações de Angola (UPA), mais tarde renomeada como Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), que ocupou parte do norte de Angola entre março e outubro de 1961. Juntamente com os ataques a Luanda em fevereiro de 1961, os episódios de março de 1961 são considerados como o início definitivo da Guerra de Independência de Angola e da Guerra Colonial Portuguesa, que não cessariam até 1974.

Embora os ataques tenham sido repelidos pelos portugueses ainda em 1961, os guerrilheiros da UPA chegaram a ocupar a comuna-sede do município de Nambuangongo, declarando a localidade como capital do Estado Livre de Angola, transformando a zona na primeira experiência de um território libertado angolano com autogoverno após a colonização. A icônica capital Nambuangongo somente conseguiu ser reconquistada pelos portugueses em 6 de agosto do mesmo ano, após longo esforço militar.

Os movimentos anticoloniais africanos, que ganharam bastante força durante a década de 1950, chamaram atenção das autoridades coloniais militares em Portugal e em Angola, bem como a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE). No início de 1960, no bojo da descolonização do Congo Belga, o comando militar lusitano passou a monitorar as actividades suspeitas e lançavam recomendações de medidas de prevenção ao governo, tal como o alcatroamento de estradas, vigilância das fronteiras, armar civis e reforço militar. Em janeiro de 1961 ocorre a greve da Baixa do Cassange, o primeiro movimento político que deflagraria a Guerra de Independência de Angola, e a fevereiro de 1961 ocorrem os ataques a Luanda, uma série de ataques armados de guerrilha ligados ao Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) contra posições portuguesas em Luanda.

Tendo em vista tais movimentações, a 15 de dezembro de 1960, o Comando Militar de Angola determinou reforçar as missões de vigilância no norte e criar condições para facilitar a chegada a reforços à região. A 4 de março, o coronel Viana de Lemos, em conversa com um adido da embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, recebeu a informação de que a UPA planeava levar a cabo ataques violentos no norte de Angola para chamar a atenção da Organização das Nações Unidas (ONU), que iria debater Angola a 15 de março; o coronel transmitiu a informação ao ministro da Defesa Botelho Moniz, que por sua vez enviou um telegrama ao general Beleza Ferraz, chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que se encontrava em Angola a analisar a situação. A população portuguesa, por sua vez, comprou em 1960 seis vezes mais armas do que no ano anterior.

No entanto, o governo e, sobretudo, António de Oliveira Salazar, reagiram aos avisos com passividade, só tendo sido enviados para Angola 4 companhias de caçadores e uma de Polícia Militar em meados de 1960 e 2 companhias de Caçadores em Fevereiro de 1961.

Nas vésperas da sublevação, as Forças Armadas Portuguesas contavam em Angola 15.000 a 20.000 brancos, mestiços e africanos distribuídos entre o exército, a polícia, a administração e organizações paramilitares. Contavam-se 9829 militares no exército, um navio hidrográfico, três fragatas e dois navios-patrulha à data da independência do Congo Belga e, na Força Aérea, uma base aérea em Luanda e um aeródromo em Negage, com 12 aviões PV2, 10 T-6, 10 DO-27, 9 Auster e 6 Nordatlas. Nem todos, porém, estavam a postos para acorrer à zona da sublevação. Portugal dispunha apenas de um batalhão na região, aquartelado em Uíge.

Preparação e financiamento da UPA

Os ataques da UPA já estavam sendo gestados por Holden Roberto desde 1958 quando passou a ser ativo da Agência Central de Inteligência (CIA), recebendo do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos um salário de US$ 6.000 anualmente até 1962, quando passou a receber US$ 10.000 para coleta de informações privilegiadas e financiamento de operações. Além disso, a UPA trabalhava sob orientação do Comitê Americano para os Assuntos Africanos, mantendo ainda estreita colaboração com o partido quinxassa-congolês Associação dos Bacongos para a Unificação, a Conservação e o Desenvolvimento da Língua Congo (Abako) e estava fortemente influenciada por Joseph Kasa-Vubu. Além do apoio financeiro dos estadunidenses e quinxassa-congoleses, os chineses e a Frente de Libertação Nacional da Argélia também colaboraram com o treinamento de guerrilheiros da UPA, já no ano de 1959. A retaguarda militar para a operação foi garantida com a montagem da icônica Base Militar de Quincuzo da UPA, em solo quinxassa-congolês, no mesmo ano.

O que impediu a organização de lançar um ataque armado amplo em 1959 ou 1960 foram os desacordos e as disputas político-ideológicas internas em relação a formação de alianças, posições ideológicas e acessos aos recursos do partido entre Barros Necaca, Holden Roberto, Jean-Pierre Mbala, Miguel Moniz e Borralho Lulendo, nomes que compunham o grupo de liderança da UPA. Por influência estadunidense, Mbala, Moniz e Lulendo são afastados da liderança da UPA, ocorrendo, também a morte por causas naturais de Barros Necaca no final de 1960. Com o poder concentrado em si, Holden Roberto alega às autoridades estadunidenses em Nova Iorque que tinha 40 mil guerrilheiros e 500 mil simpatizantes em Angola, convencendo os seus financiadores externos de que estava preparado para a guerra anticolonial.

Porém, seu efetivo real era um grupo de 4.000 a 5.000 guerrilheiros operando a partir do Congo-Léopoldville, que recebem sua ordem, a partir dos Estados Unidos, em dezembro de 1960, para um ataque armado que "incendiasse" Angola em 15 de março de 1961, tomando fazendas, postos avançados do governo e centros comerciais. O comando operacional dos ataques ficou a cargo de Rosário Neto, que estava no Congo-Léopoldville, e de João Baptista Traves Pereira e Marcos Kassanga, que estavam conduzindo as operações internamente em Angola.

As informações relativas ao ataque da UPA chegaram às autoridades portuguesas com mais precisão à medida que se aproxima a data planeada. A 13 de março, um informante da PIDE afirmou que um servente o avisara de que corria graves riscos se saísse à rua naquela semana, pois a UPA preparava-se para fazer "uma grande confusão, matando todos os brancos". A 14 de março, um administrador de concelho deu conta de terem entrado em Angola numerosos africanos durante a noite, utilizando caminhos secundários. Os habitantes da região tinham sido avisados de que, a 15 de março, seriam visitados por elementos da UPA, que se propunham a fazer "confusão" e tomar pela força certas povoações de Mabanza Congo, Maquela do Zombo e Cuimba. Ainda a 14 de março, o posto da PIDE emite um aviso de que um ataque da UPA dar-se-ia "no dia seguinte".

O início dos ataques da UPA no norte de Angola

A ordem do ataque foi dada mediante a distribuição de um panfleto que marcava o "início da festa" para dia 15 de março e que mandava que todos os participantes da ação "deveriam limpar bem todos os postos, tratar bem os chefes de posto e suas famílias e demais brancos". Inclusive, parte da etinia dos congos fugiu para as matas ou para o Congo-Léopoldville e para o Congo-Brazavile para não tomar parte nos ataques planeados.

Na madrugada de 15 de março, a UPA lançou uma ofensiva contra as propriedades e povoações na fronteira com o Congo-Léopoldville, na Baixa de Cassange, e grupos de congos avançam até perto de Uíge, armados com catanas e "canhangulos", espingardas de fabrico artesanal. Ao som de tambores, o sinal militar para as operações, são perpetrados ataques indiscriminados, que geram assassinatos em massa, incêndios, pilhagens e violação de mulheres e crianças, espalhando-se os tumultos às plantações de café isoladas, postos de abastecimento e vias de transporte. Na fazenda Zalala, perto de Quitexe, o gerente acordou o chefe de posto às cinco da manhã para comunicar o desaparecimento de cem homens e grande agitação nos que restavam. O chefe partiu para averiguar as roças da zona e, nada de anormal tendo registado, averiguou a área de demarcação de um colono recém-chegado, tendo-o encontrado juntamente com a mulher mortos à catanada. Ao tentar regressar ao seu posto, deparou-se com um branco partido de Quitexe que o informou que na fazenda Zalala, todos tinham sido massacrados.

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