Neste Dia

Atentado do Riocentro

Operação de bandeira falsa do Exército Brasileiro contra opositores em 1981

Anúncio

O Atentado do Riocentro, também chamado Caso do Riocentro, foi um ataque terrorista perpetrado por setores do Exército Brasileiro e da Polícia Militar do Rio de Janeiro na noite de 30 de abril de 1981, com o objetivo de incriminar grupos que se opunham à ditadura militar no Brasil e, assim, justificar a necessidade do seu aparato de repressão e retardar a abertura política em andamento. Exemplo emblemático do terrorismo de Estado praticado pela ditadura, previa uma série de explosões no Centro de Convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, quando ali se encontravam 20 mil pessoas durante um espetáculo de MPB em comemoração do Dia do Trabalhador.

Parte de uma longa série de atentados a bomba conduzidos por membros das Forças Armadas do Brasil, o atentado foi planejado como o maior ataque terrorista da história do país e recebeu intensa preparação, com conhecimento e participação da alta cúpula militar e, possivelmente, do próprio presidente da República, o general João Figueiredo. As explosões levariam o público a assustar-se e a buscar escapar rapidamente do Riocentro, ocasionando grande número de feridos e, potencialmente, centenas de pessoas pisoteadas. Contudo, a condução desastrada da operação minou os seus efeitos. Uma das bombas explodiu longe de seu alvo e outra detonou prematuramente, danificando os explosivos restantes e vitimando dois dos terroristas, o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que morreu instantaneamente, e o capitão Wilson Dias Machado, que ficou gravemente ferido. Na sequência dessas falhas, outros militares removeram discretamente os explosivos instalados no palco do show, antes que explodissem.

Na tentativa de assegurar a impunidade de seus autores, durante as investigações o Exército forjou evidências e creditou o ataque a organizações de esquerda que na época se encontravam inativas, uma conclusão que, imediatamente, foi recebida como sendo mentirosa. As investigações seriam reabertas muitas vezes ao longo dos anos, mas sempre freadas por decisões do Judiciário de que os crimes estariam cobertos pela Lei da Anistia — tecnicamente, aplicável apenas a crimes cometidos entre 1961 e 1979 — e, mais tarde, de que eles estariam prescritos. Em seu último episódio, em 2014 foram formalmente acusados de crimes relacionados ao atentado os generais Newton Cruz, Otávio Aguiar de Medeiros, Job Lorena de Sant’Anna e Edson Sá Rocha, e os coronéis Freddie Perdigão Pereira e Wilson Machado, dentre outros, mas o Tribunal Regional Federal da 2ª Região decidiu pelo trancamento da ação penal, e mais tarde essa decisão foi mantida pelo Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal.

A farsa em torno das investigações teve consequências severas, incluindo uma divisão das Forças Armadas entre os que apoiavam o ataque e aqueles que exigiam justiça contra os terroristas, e a renúncia do general Golbery do Couto e Silva, então Chefe da Casa Civil e o artífice do governo Figueiredo. Sob vigorosa pressão da sociedade, de setores das Forças Armadas e de políticos da oposição, o governo Figueiredo jamais pôde recuperar sua autoridade e viu-se incapaz de eleger um sucessor. O episódio, com seus desdobramentos, tornou-se um marco da decadência e do esgotamento da ditadura militar, que, quatro anos depois, daria lugar à Nova República.

Desde meados dos anos 1960, o endurecimento da ditadura militar brasileira levou à intensificação da oposição a ela, tanto por grupos que decidiram pegar em armas para combatê-la quanto por segmentos mais amplos da sociedade, que passaram a mobilizar-se por acreditarem que, a despeito da violência praticada pelos militares, o restabelecimento da democracia poderia ser buscado de maneira pacífica. A tática de guerrilha, contudo, foi abandonada logo nos primeiros anos da década de 1970, pois esses setores da esquerda já não tinham mais como levá-la adiante por falta de recursos e de membros, que haviam sido dizimados ou estavam exilados. Em meados dos anos 1970, portanto, o maior núcleo de oposição à ditadura não era mais a opção pelo socialismo ou comunismo das guerrilhas, mas a oposição civil em defesa da volta do estado democrático, fosse pelo Movimento Democrático Brasileiro, o partido oficial da oposição, fosse pelas manifestações de rua que voltavam a sacudir o país.

Pressionado pela mobilização da sociedade e na esteira do esgotamento do milagre econômico do governo que o antecedera, desde 1974 o general Ernesto Geisel, o quarto militar a ocupar o posto de presidente da República desde o Golpe de 1964, vinha pondo em prática medidas graduais visando a reabertura política do país, mas não sem enfrentar a intensa oposição de setores linha-dura das Forças Armadas do Brasil. Embora a política de Geisel fizesse concessões vacilantes à ampliação das liberdades públicas e incluísse a manutenção da repressão violenta à oposição, como forma de acalmar a linha-dura, os membros desta recusavam-se a aceitar as medidas progressistas do governo e desejavam garantir sua supremacia durante as eleições indiretas que seriam realizadas em 1978.

Com essa finalidade, esses militares passaram a arquitetar atentados terroristas com vistas a enfraquecer os setores dominantes das Forças Armadas, que eles viam como brandos e ineficazes — até mesmo com "inclinações esquerdistas" — e também com a finalidade de intensificar o sentimento anticomunista da população de tal forma que sua proposta linha-dura viesse a ser vista como necessária ao país. Não que se tratasse de uma estratégia nova, visto que já entre 1967 e 1968 militares liderados por Aladino Félix e o general Paulo Trajano da Silva haviam realizado uma longa campanha de assaltos à mão armada e ataques a bomba com o objetivo de levar a um endurecimento da ditadura que assolava o país. Pioneiros do terrorismo de Estado no Brasil, esses ataques foram anteriores ao surgimento do terrorismo de esquerda do final dos anos 1960, mas devido às manobras dos militares, acabaram creditados a grupos de esquerda e tiveram papel significativo na promulgação do AI-5, de 13 de dezembro de 1968.

Como parte dos esforços do governo Geisel em frustrar as tentativas dos setores mais radicais das forças armadas em mobilizar o apoio das tropas como um todo, em 1979 o presidente escolheu como seu sucessor o general João Figueiredo. Anteriormente chefe do gabinete militar do governo Médici, Figueiredo também fora chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI) e praticamente toda a sua carreira estava ligada à chamada "comunidade de informações" do Exército, que era responsável direta pelas atividades de repressão à oposição ao governo, por meio de organizações como o próprio SNI, o Centro de Informações do Exército (CIE) e o Destacamento de Operações de Informação do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). Sua escolha como sucessor de Geisel, portanto, visava superar resistências e compor alianças que sustentassem o processo de reabertura política do país.

A imposição de Figueiredo como candidato, contudo, foi uma vitória "com gosto de derrota", pois Geisel jamais foi capaz de conquistar o engajamento ou a despolitização do Alto Comando das Forças Armadas e dos diferentes setores destas. Como parte dessa dinâmica e em razão de seu histórico profissional, o general Figueiredo teve de colaborar com a comunidade de informações das Forças Armadas e evitaria confrontá-la, principalmente o CIE, cujos integrantes estavam inconformados com os rumos políticos do governo. Além de suas motivações comuns com o restante da ala linha-dura dos militares, os membros desse grupo haviam sido responsáveis por centenas de casos de tortura e assassinato de opositores, e, portanto, temiam ser humilhados e punidos caso o regime se desfizesse e a oposição viesse a assumir o poder. O fim da ditadura, além disso, já vinha limitando severamente as atividades da comunidade de informações e esse grupo temia perder seu poder e benesses.

Por isso, para eles também era interessante que a esquerda voltasse a se envolver na luta armada, de modo a justificar mais repressão política e a continuidade dos órgãos em que trabalhavam. Na falta de um perigo evidente, visto que a ação armada da esquerda havia sido abandonada muito antes, esses grupos estavam dispostos a forjar ameaças da parte de "subversivos de esquerda", que, eles esperavam, levariam a uma volta da repressão mais violenta e aumentariam a importância dada aos órgãos de segurança da ditadura.

Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium
Atentado do Riocentro | World in Stories