Augusto Ruschi (Santa Teresa, 12 de dezembro de 1915 – Vitória, 3 de junho de 1986) foi um agrônomo, ecologista e naturalista brasileiro. Recebeu o título de Patrono da Ecologia no Brasil, por lei federal de 1994, sendo também um dos ícones mundiais da proteção ao meio ambiente.
O interesse pelo estudo de plantas e animais, desde a infância, o levou a conhecer a fundo diversos ramos da biologia, tornando-se respeitado especialista em beija-flores e orquídeas do Brasil. Ajudou no combate a pragas na agricultura, na implantação de diversas reservas ecológicas, como o Parque Nacional do Caparaó, e na divulgação da natureza. Montou duas instituições científicas: o Museu de Biologia Professor Mello Leitão (MBML) e a Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi (EBMAR).
De forte origem integralista, Ruschi rejeitava o que considerava um ambientalismo "sentimental"; em vez disso, vinculava o seu a uma orientação nacionalista e desenvolvimentista, calcada na Doutrina de Segurança Nacional. A defesa do meio ambiente era tida por ele como uma defesa da grandeza nacional do Brasil contraposta a particularismos econômicos. Sua inclinação a matrizes autoritárias e nacionalistas o levou a uma intensa conexão com a ditadura militar brasileira. Figura polêmica, defensor atuante e notório do meio ambiente, envolveu-se em várias disputas públicas com empresas e autoridades pela preservação ambiental, destacando-se o conflito com o Governador do Espírito Santo, Élcio Álvares, em 1977, a respeito da instalação de uma fábrica de palmito na Reserva Biológica de Santa Lúcia. Foi também pioneiro no combate ao desmatamento da Amazônia e antecipou a respeito dos efeitos deletérios do plantio monocultural de eucalipto e do uso de agrotóxicos, entre outros problemas ambientais contemporâneos.
Sua notável contribuição para o ambientalismo e para as ciências, expressa em suas ações e em seus mais de 400 artigos e mais de 20 livros científicos, foi consagrada através do respeito que granjeou entre os estudiosos de sua época e de muitas homenagens que recebeu em vida e postumamente. Foi Professor Titular da UFRJ e pesquisador do Museu Nacional. Contudo, em anos recentes, os métodos e conclusões da sua produção técnico-científica têm levantado críticas, sendo acusado de fraude e plágio. Por força de suas pesquisas, também deixou grande coleção de fotografias e produziu inúmeros desenhos científicos.
Sua vida é mal documentada e tem muitos fatos confirmados somente pelo próprio cientista. Augusto Ruschi nasceu em uma família de imigrantes italianos, sendo o oitavo dos doze filhos de Giuseppe Ruschi e Maria Roatti. Seu pai, natural de Montescudaio, na região de Pisa, era engenheiro agrônomo, trabalhava na topografia e construção, e migrara para o Brasil em 1894 contratado pelo governo para organizar a colonização de Palmeira, no Paraná. Depois fixou-se em Santa Teresa, no Espírito Santo, realizando medições topográficas e coletando impostos. Ali Giuseppe conheceu sua futura esposa. Os Ruschi são uma família de grande antiguidade, alegadamente remontando aos tempos de Nero, quando um certo Ruscus teria servido como secretário do imperador romano e dado origem ao nome familiar. Foram enobrecidos na Idade Média, e vários de seus membros se notabilizaram no estudo científico e no trabalho com plantas. Augusto Ruschi casou duas vezes: primeiro com Claide, com quem teve dois filhos, Augusto Filho e André, em segundas núpcias uniu-se a Marilande, com quem foi pai de Piero.
Em entrevista, Ruschi relatou que desde pequeno tinha forte interesse pela natureza, fazendo sua primeira exploração aos seis anos, quando, segundo ele, passou um dia inteiro na área que rodeava sua casa, admirando a flora e a fauna local, e imaginando um dia viver num lugar como aquele, cheio de pássaros e flores. Embrenhava-se nas matas para buscar o conhecimento que desejava, e logo se entendeu um habilidoso naturalista, apesar da contrariedade que suas andanças causavam nos pais. Recebeu uma instrução elementar no internato do Seminário Capuchinho de Santa Teresa, onde foi alfabetizado por Jacinto de Paula. Entusiasmava-se cuidando dos jardins, e distraía-se nas aulas brincando com insetos que guardava em caixas de fósforo e pequenos vidros. Continuou seus estudos primários no Colégio Ítalo-Brasileiro, e com dez anos passou a residir em Vitória, onde pôde frequentar um colégio melhor, o Ginásio Espiritosantense. Lá teve como mestra a pesquisadora Maria Estela de Novaes, que incentivou sua inclinação para as ciências naturais.
Ruschi também alegou que aos doze anos já passava semanas seguidas na floresta se alimentando de frutas silvestres, suprimentos em conserva e de pequenas caças, coletando e descrevendo animais e vegetais, ao mesmo tempo em que iniciava seus desenhos científicos e lia muitos livros de botânica, bioquímica, ornitologia e áreas afins, que obtinha do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro em troca do envio de espécimes animais e vegetais. Como relatou anos mais tarde, estudava tanto que atravessava as noites em claro e só pensava em suas pesquisas, a ponto de seus pais imaginarem que estava ficando louco. Chegou a estudar vários idiomas: inglês, francês, latim e alemão, além de conhecer o italiano por virtude de suas origens familiares. Ruschi narrou que durante esse período fez minuciosas e inéditas observações sobre as lagartas que assolavam as plantações de laranja, dando importantes subsídios para pesquisadores internacionais que se viam às voltas com o problema. A partir daí teria atraído a atenção do professor Cândido Leitão, do Museu Nacional, que passou a protegê-lo e orientá-lo.
Nos anos 30 aderiu ao Integralismo, de Plínio Salgado, tendo participado na campanha eleitoral de seu irmão Eurico Hildebrando Aurélio Ruschi para prefeito de Santa Teresa, na qual este foi eleito pela Ação Integralista Brasileira (AIB). Após o fim da ditadura Vargas, Augusto Ruschi se filiou ao Partido de Representação Popular (PRP), legenda integralista sucessora da AIB.
Sua primeira paixão foram as orquídeas. Explorou mais de mil quilômetros quadrados de mata descrevendo, catalogando e classificando milhares de espécies. Teria publicado seu primeiro trabalho científico com quinze anos, um relato sobre a descoberta de dois novos gêneros e cerca de dezenove novas espécies de orquídeas, escrito em latim e com uma metodologia inovadora. Aos dezessete anos passou a trabalhar regularmente para o Museu como coletor de espécimens, frequentando também seminários e palestras no Rio, e aos dezenove anos voltou-se para os beija-flores, quando descobriu que algumas espécies eram responsáveis pela polinização de orquídeas, numa época em que estas aves eram pouco conhecidas pela ciência, tornando-se um dos pioneiros na matéria e ganhando reconhecimento mundial. Como em seu tempo ainda não havia o curso de Biologia, ingressou em 1936 na faculdade de Agronomia de Viçosa, terminando o curso em Campos.
Com 22 anos, já residindo no Rio de Janeiro, Cândido Leitão ofereceu-lhe trabalho no Museu Nacional, ligado à Universidade do Brasil (atualmente a UFRJ) e obteve o cargo de Professor Titular de Botânica na universidade, mas depois de poucos meses pediu demissão do Museu, já que não conseguia viver longe da floresta, e voltou para sua terra natal. Em 1939 os diretores do Museu criaram a Estação Biológica de Santa Lúcia, em Santa Teresa, encarregando-o mais tarde da direção, que exerceu até aposentar-se em 1983. Ali fundou, em 1949, o Museu de Biologia Professor Mello Leitão, cujo Boletim foi o veículo de divulgação de muitas de suas pesquisas. Entrementes, formou-se também em Direito, e dava assessoria ao Ministério da Agricultura, ao Ministério da Educação e ao Governo do Estado do Espírito Santo.
Na mesma época, começava a se preocupar com os crescentes problemas ambientais, campo em que viria a se tornar um dos mais aguerridos pioneiros no Brasil, a partir da constatação dos efeitos do desmatamento do entorno da área em que pesquisava, e que era tomado por fazendas de café, e de monoculturas de eucalipto. Segundo Geraldo Hasse, "Ruschi não falava apenas por si, como botânico cioso de um rico habitat; vocalizava temores difusos de grupos sociais ante a presença de empresas multinacionais na economia brasileira". Em função disso, em 1951 organizou no museu um curso sobre preservação ambiental.