Augusto de Beauharnais (em francês: Auguste Charles Eugène Napoléon; Milão, 9 de dezembro de 1810 – Lisboa, 28 de março de 1835), foi o primeiro marido da rainha Maria II e Príncipe Consorte de Portugal e Algarves de 26 de janeiro de 1835 até à sua morte, dois meses depois. Foi também a partir de 1824 e até 1835 o segundo Duque de Leuchtenberg e Príncipe de Eichstätt. Ele possuía o título brasileiro de Duque de Santa Cruz e o título francês de Duque de Navarra. Filho primogénito do príncipe Eugênio de Beauharnais, Duque de Leuchtenberg e de sua esposa, a princesa Augusta da Baviera, era irmão da imperatriz Amélia, segunda esposa de Pedro I do Brasil.
Augusto de Beauharnais nasceu em 9 de dezembro de 1810, em Milão, filho do príncipe francês Eugênio de Beauharnais, enteado de Napoleão Bonaparte, e da princesa Augusta da Baviera, filha do rei Maximiliano I da Baviera.
Augusto passou a sua infância e parte de sua juventude na cidade de Munique, residência dos Wittelsbach, a família real da Baviera, da qual fazia parte, por sua mãe, uma princesa bávara. Augusto foi educado nos princípios da honra militar pelo pai, Eugênio, e da moral católica pela mãe, Augusta.
Em 14 de novembro de 1817, seu avô materno, rei Maximiliano I, concedeu a seu genro Eugênio o título de Duque de Leuchtenberg e Príncipe de Eichstätt, com direito ao tratamento de Alteza Real, para ele, e Alteza Serena, para seus filhos, incluindo Augusto.
Além da posição e herança consolidadas, Eugênio, falecido jovem, em 21 de fevereiro de 1824, deixou à família um ilustre parentesco (o filho de sua irmã Hortensia viria a ser, em 1852, o Segundo Imperador da França com o título de Napoleão III) e uma fama "liberal" consolidada que marcou a existência de Augusto.
A primeira chance do cadete da família, quase Napoleônica, veio após a Revolução Belga, que começou em 25 de agosto de 1830, com o levante de Bruxelas. A independência foi proclamada no dia 4 de outubro seguinte. O recém-eleito Congresso Nacional da Bélgica votou pela forma monárquica e procedeu à eleição de um governante hereditário.
Por duas vezes, Augusto ficou em segundo lugar na votação: o duque de Nemours, segundo filho do rei Luís Filipe I da França, foi o preferido. Entretanto, este recusou a oferta, forçado pela oposição feroz das outras potências. Assim, o Congresso teve de se preparar para aceitar o candidato indicado pelos poderes, Leopoldo de Saxe-Coburgo-Gota.
Para Augusto, príncipe de uma casa não reinante, esse resultado poderia ser considerado um meio-sucesso, ou seja, créditos para a próxima eleição. A segunda ocasião apresentou-se noutro pequeno reino com um presente turbulento: Portugal.
Após o casamento, por procuração, do Imperador D. Pedro I do Brasil, com sua irmã Amélia — que insistiu para que ele a acompanhasse em sua viagem ao Brasil — Augusto não pretendia aceder ao desejo da nova Imperatriz, mas foi estimulado pela mãe a transferir-se para a corte do Rio de Janeiro. Antes de partir, o jovem, que ainda não havia atingido a maioridade, deixou pronto o seu testamento.
Em solo brasileiro, passou a residir no Palácio Imperial de São Cristóvão e tornou-se muito próximo do cunhado. Em alvará datado de 5 de novembro de 1829, D. Pedro I concedeu a Augusto, enquanto príncipe de Eichstätt e duque de Leuchtenberg, o direito ao tratamento de Alteza Real em todo o território nacional. Em Carta Imperial datada do mesmo dia, o imperador concedeu-lhe o título de duque de Santa Cruz, também com tratamento de Alteza Real.
Regresso à Europa e casamento com Maria II
Quando D. Pedro I partiu para reconquistar o trono de Portugal para sua filha, rainha Maria II, Augusto voltou para a Baviera, para junto dos seus familiares. Entretanto, foi escolhido pelo imperador para marido da jovem rainha portuguesa pelas qualidades verificadas durante sua estada no Brasil, quando acompanhou sua irmã Amélia.
Cumprindo o desejo do cunhado, Augusto casou com a rainha Maria II, por procuração, a 1 de dezembro de 1834. E, por palavras e de presença, na Sé de Lisboa, a 26 de janeiro de 1835.
Foi marechal do exército português e Par do Reino, tomando assento na Câmara Alta alguns dias após o matrimônio.
Augusto morreu em 28 de março de 1835, no Palácio das Necessidades, em Lisboa, ao cabo de escassos dois meses de casamento e sem ter chegado a engravidar a soberana. Sua morte repentina, e em tão pouca idade, aos 24 anos, gerou grande distúrbio popular em Lisboa — corria o rumor de que o príncipe consorte havia sido envenenado. Contudo, em carta enviada à duquesa Augusta, antiga aia dos irmãos, Fanny Maucomble, descreveu a rápida evolução da doença de Augusto:"[…] Parece-me que o Príncipe tinha começado a sofrer de uma ligeira dor de garganta na sexta-feira, dia 20. Não tinha dito nada, não dando importância ao facto. Infelizmente! Vós, como eu, tínhamos conhecimento de como ele pouco cuidava da sua saúde. […] Domingo, saiu por volta das 7 horas da manhã para passear e disparar alguns tiros de carabina, num pequeno parque ao redor [do palácio] da Ajuda. Fazia muito frio; pois neste país, na primavera, as manhãs e as noites são frias e, por isso, perigosas.
Voltou para o almoço às 10 horas e não disse ainda nada do seu mal da laringe, que o estava atormentando. À 1 hora da tarde foi passear com a Rainha num lugar chamado Campo Grande, onde eram realizadas corridas a cavalo. Fazia calor, com um sol muito forte. Ficaram no carro aberto, no mesmo lugar por mais de uma hora a fim de observar as corridas. Ao regressar o Príncipe sofria ainda mais, mas jantou e desejou fazer uma partida de bilhar com a Rainha; no entanto, foi obrigado a procurar a cama. Todo mundo o aconselhou a chamar um médico, mas não foi possível convencê-lo. O Conde Mejan e a Imperatriz [Amélia, sua irmã] o pregaram de colocar os pés na água e de lhe aplicar compressas de mostarda. Recusou. Finalmente, na segunda-feira, ele consentiu em falar com um médico. Este aplicou, em primeiro lugar, 24 sanguessugas à garganta […]"
"Após diversas outras tentativas, e vendo nenhum êxito, foram chamados outros médicos. O estado do paciente estava extremamente grave. À noite, esteve calmo, mas, na manhã do dia 28, os médicos chamaram a Imperatriz a fim de inteirá-la de que, infelizmente, não existia mais nenhuma esperança e que preparasse o espírito da Rainha."
"A Imperatriz providenciou um sacerdote que subministrou os Sacramentos, que recebeu ao meio-dia. Em seguida, se despediu com grande coragem de todos, falou longamente com a Rainha e recomendou a mesma à Imperatriz. Pouco depois, entrou em agonia e, às 2 horas, exalou o último suspiro nos braços da Rainha e da Imperatriz, que não o haviam deixado um momento."