Beatriz Costa, pseudónimo de Beatriz da Conceição (Mafra, Milharado, 14 de dezembro de 1907 – Lisboa, Coração de Jesus, 15 de abril de 1996), foi uma atriz, cantora e escritora portuguesa, conhecida pelos filmes em que participou durante a era de ouro do Cinema Português, que a consagraram como ícone da cultura popular lusa.
Beatriz Costa nasceu a 14 de dezembro de 1907, na pequena aldeia da Charneca, freguesia do Milharado, concelho de Mafra, no seio de uma família humilde, filha de António Isidoro, moleiro, natural da freguesia de Pereiro de Palhacana, Alenquer, e de Claudina da Conceição, natural da referida aldeia da Charneca.
Em 1912, com apenas 4 anos, os pais separam-se e vem com a mãe para Lisboa. Com o início da Primeira Grande Guerra, a mãe emprega-se como costureira no Casão Militar, tendo, pouco tempo depois, ido para Figueiró dos Vinhos, onde Beatriz alegadamente serviu de modelo para o pintor José Malhoa, numa pintura a óleo onde apresentava tranças, um laço e gola de guipura. Naquela localidade, a mãe conhece o seu primeiro padrasto, Manuel Jorge, natural do Casal de São Simão e militar do Regimento de Infantaria n.º15, tendo o casamento ocorrido em Tomar, onde estava sediado o regimento. Aos 6 anos vai para Tomar, onde permanece até aos 12. Teria sido nesta época, na sua pré-adolescência, que a jovem Beatriz teria sido "levada, para servir de aperitivo, a certos senhores que a acariciavam". Em virtude de uma nova separação, vem para Lisboa em 1920, numa carroça de lavadeiras, passando a primeira noite com a mãe num banco da Avenida da Liberdade, indo depois residir à Costa do Castelo. Beatriz trabalhou como ajuntadeira, empregada doméstica e bordadeira. Aprendeu a ler e a escrever sozinha, aos 13 anos.
Fernando Pereira seria o seu segundo padrasto, que lhes proporcionou melhores condições de vida, mudando de residência para as Avenidas Novas. Espectadora frequente do Parque Mayer, logo se enamorou pela ideia de pisar o palco e ter uma plateia que se levantasse para a aplaudir, o que não demorou a acontecer. Um cliente e amigo de um cabeleireiro vizinho do seu padrasto, fez chegar essa vontade à atriz Ema de Oliveira, que escreveu um bilhete de apresentação ao administrador do Teatro Éden.
Início da carreira e primeira tournée (1923-1926)
Estreou-se aos 15 anos, em abril de 1923, na revista Chá e torradas, como corista no Teatro Éden. No ano seguinte, já escriturada na Companhia António Macedo, participa na revista Résvés, estreada a 22 de junho de 1924 no Teatro Maria Vitória, revelando-se um sucesso. Luís Galhardo, fundador do Parque Mayer, descobrindo o talento da jovem, atribui-lhe o nome oficial de Beatriz Costa. Nesse mesmo ano vai pela primeira vez em tournée ao Brasil, pela mão do empresário António Macedo, diretor artístico da sua companhia e José Loureiro, também empresário e diretor de vários teatros brasileiros.
A atriz partiu de Lisboa com a Companhia Portuguesa de Revistas a 20 de julho, no paquete francês Lutetia, em cuja viagem apresenta um número que, tendo sucesso junto dos passageiros de diversas nacionalidades, bisa mais de uma vez. Aportando o navio no Rio de Janeiro a 4 de agosto, conclui a viagem de 16 dias para dar início à tournée. A estreia dá-se a 7 de agosto no Teatro República, num total de nove espetáculos inéditos em reprise, dos quais constam Fado corrido, Tiro ao alvo, Chá e torradas, Piparote, Aqui d'El Rei, Résvés, O 31, Tic-Tac e De capote e lenço, sendo a segunda fila da plateia reservada a críticos teatrais, como Mário Magalhães do jornal A Noite. Com o êxito alcançado na estreia, Beatriz Costa sai da segunda fila de coristas para arcar com responsabilidades maiores. No palco, ganha um lugar próximo à vedete Lina Demoel, desempenhando de seis a sete papéis em cada espetáculo, sendo-lhe aumentado o salário em 50% e oferecidos vestidos por conta da empresa, além de uma festa artística com renda bruta revertida a seu favor. De capote e lenço, o espetáculo de despedida, é encenado no dia 8 de dezembro. No dia 9 de dezembro, Beatriz Costa seguiu com a companhia para uma temporada nas cidades de São Paulo e Santos, retornando novamente para uma nova temporada no Rio de Janeiro, de onde regressa a Portugal a 14 de junho de 1925, já como atriz de nomeada.
De volta a Lisboa, permanece na companhia de Macedo, estreando-se a 7 de julho no Teatro da Trindade, com a revista Desditosa pátria, ao lado de grandes nomes como Nascimento Fernandes e Cremilda de Oliveira. Em agosto vai ao Porto, apresentando o repertório da companhia no Teatro Sá da Bandeira. Em outubro ingressa na Nova Companhia de Opereta, residente no Teatro São Luiz, seguindo-se inúmeras atuações em operetas e zarzuelas como A canção do olvido, A montaria, Os gaviões, Flor do tojo, A moça de Campanilhas, A alsaciana e A pobre Valbuena, ao lado de, entre outros, Teresa Gomes. Por se considerar que o espaço do São Luiz é pequeno demais, a companhia muda-se em maio de 1926 para o Teatro Éden, seguindo-se, naquele espaço, as revistas Fox trot, Ólarila, Revista de Lisboa, Sete e meio e reprises de outras peças, com passagens pelo Teatro Apolo, Maria Vitória e São Luiz.
Depressa Beatriz se impôs pelo seu talento, comunicabilidade, alegria, inteligência e contundência. Uma sede muito grande de conhecimentos levou-a, desde logo, a tornar-se amiga de grandes vultos da nossa cultura, como Aquilino Ribeiro, Gago Coutinho, Ferreira de Castro, Miguel Torga, António Botto, Vieira da Silva, Agostinho da Silva, Mário Eloy, Vitorino Nemésio ou Stuart Carvalhais. A atriz tornou-se muito próxima de Hermínia Silva e considerou, mais tarde, que Palmira Bastos, foi a sua grande mestra.
Apogeu da carreira no Teatro e Cinema (1927-1939)
Em 1927, talvez influenciada pelo furor que o corte à la garçonne popularizado por Louise Brooks provocou, estreou-se nos palcos com o novo corte de cabelo que se tornaria sensação entre as mulheres: o franjão. Já conhecida figura do meio artístico, a partir daí, como se diz em Portugal, toda a gente sabe o que significa ter uma franja à Beatriz Costa, que ganhou a alcunha de "Menina da franja". Em 1928 estreia-se no cinema mudo, nas curtas-metragens Fátima Milagrosa, onde dançou um tango com Manoel de Oliveira e O Diabo em Lisboa, ambos de Rino Lupo, representando nos dois filmes papéis de cabaré.
Ainda no mesmo ano ingressara na Companhia Eva Stachino, participando das revistas Carapinhada, Mártir do Calvário, Água fresca, Coração português, Mãe Eva/Eva no Paraíso, Pó de Maio e Manda quem pode, ao lado de, entre outros, Irene Isidro, Vasco Santana, Alice Ogando, Fernanda Coimbra e Maria das Neves, nos palcos do Teatro Variedades, Trindade e Apolo. Alcança um estrondoso êxito em Pó de Maio, com o celebrado número D. Chica e Sr. Pires, ao lado do ator Álvaro Pereira, o que lhe proporciona uma maior popularidade. Em junho de 1929 parte novamente para o Brasil com a Companhia Eva Stachino, onde, recebida com efusivas manifestações, representa no Rio de Janeiro as reprises de Pó de Maio, Mãe Eva/Eva do Paraíso e Carapinhada e as estreias de Lua de mel, Meia-noite e Mouraria. Novamente, a imprensa portuguesa noticiou o sucesso da atriz, relembrando a sua passagem pela América do Sul. Após breve incursão aos palcos de São Paulo, Beatriz é convidada por Procópio Ferreira, comediante de relevo no teatro brasileiro, para ficar a trabalhar no Rio integrando o elenco da sua companhia de comédias, mas a proposta seria recusada. Regressa em dezembro do mesmo ano.
De regresso a Lisboa, deixa a companhia e é contratada por Corina Freire a participar já em 1930 nas revistas O cavaquinho, A bola e Pato marreco, no Teatro Avenida. No mesmo ano participa no filme Lisboa, Crónica Anedótica, de Leitão de Barros, onde aparece brevemente vestida de branco num mercado. Em dezembro, durante a visita a Lisboa de Ressano Garcia, subsidiário português da Paramount, recebe um convite para um contrato muito vantajoso para o papel de protagonista de A Minha Noite de Núpcias (adaptado do original Her Wedding Night, de Frank Tuttle), terceiro fonofilme português e que na versão portuguesa foi dirigido por Alberto Cavalcanti, a realizar-se em França e a estrear em 1931. Foi o seu primeiro grande papel no cinema, onde contracenou com Estêvão Amarante e Leopoldo Fróes. Regressando a Portugal das filmagens, entra na Companhia Emáus, com a qual representa no Variedades as revistas O Tareco, Pim-pam-pum, O canto da cigarra, Desculpa ó Caetano, Pirilau e realiza um dos seus primeiros travestis, um rapaz de rua, atrevido e bairrista, na revista O mexilhão.