Bluma Wulfovna Zeigarnik (russo: Блюма Вульфовна Зейгарник, IPA: [blʲumə vulʲfəvnə zʲɪjɡarnʲɪk]; foi uma psicóloga e psiquiatra lituano-soviética, membro da Escola de Psicologia Experimental de Berlim e do Círculo de Vygotsky. Ela contribuiu para o estabelecimento da psicopatologia experimental como uma disciplina separada na União Soviética no período pós-Segunda Guerra Mundial.
Na década de 1920, conduziu um estudo sobre memória, no qual comparou a memória em relação a tarefas incompletas e completas. Ela descobriu que tarefas incompletas são mais fáceis de lembrar do que as bem-sucedidas; isso agora é conhecido como Efeito Zeigarnik. Mais tarde, começou a trabalhar no Instituto de Atividade Nervosa Superior de Moscou onde conheceria sua próxima grande influência, Lev Vygotsky e se tornaria parte de seu círculo de cientistas. Foi também lá que Zeigarnik fundou o Departamento de Psicologia. Em 1983, ela recebeu o prêmio Lewin Memorial Award por sua pesquisa psicológica.
Batizada Ženya Bluma Gerštein (ou Geršteinaitė), Zeigarnik nasceu em 27 de outubro de 1901, na cidade de Prienai, no sul da Lituânia. Seus pais, Volf e Ronya Gerštein, eram comerciantes judeus seculares, que desfrutavam de uma situação financeira confortável, sendo extremamente respeitados pela comunidade local de judeus do local.
Apesar de enfrentar grandes dificuldades provocadas por meningite, que fizeram com que ela perdesse quatro anos de estudo, Zeigarnik se recuperou sem qualquer sequela, e veio a se formar com distinção no ginásio feminino de Minsk, em 1918. Pouco tempo depois, prestou novo exame, destinado aos formandos do ginásio masculino, e então, após cursar Lógica e Psicologia pela segunda vez, começou a se preparar intensamente para os estudos universitários. Foi nesta época que Bluma conheceu seu futuro marido, Albert Zeigarnik, com quem se casou em 1919, aos dezoito anos de idade.Em 1921, o casal se mudou para Berlim, a fim de estudar. Ela ingressou no Departamento de Filosofia da Universidade Friedrich Wilhelm, onde assistiu a palestras de matemáticos, filósofos e psicólogos famosos da época, demonstrando particular interesse pelos ensinamentos dos psicólogos da Gestalt, especialmente Wolfgang Köhler, Max Wertheimer, Kurt Koffka e Kurt Lewin. Ainda como aluna, Zeigarnik se envolveu no trabalho de um grupo de pesquisas liderado por Lewin, cujo objetivo era investigar os princípios da Gestalt e o efeito do campo psíquico além dos limites da percepção, nos processos cognitivos e sociais.
Zeigarnik formou-se na Universidade de Berlim em 1925, mas continuou a atuar como assistente de pesquisa. Ela colaborou com Kurt Lewin em diversos experimentos para confirmar a teoria dele de análise de campos de força.
Um desses projetos, conduzido entre 1924 e 1926, resultou no estudo "Über das Behalten erledigter und un-erledigter Handlungen" (em português: "Sobre tarefas concluídas e inacabadas"). Os resultados foram publicados integralmente no periódico Psychologische Forschung, introduzindo o fenômeno que Zeigarnik descreveu como "paradigma da tarefa interrompida". Este conceito passou a ser conhecido como Efeito Zeigarnik na área da psicologia, após John William Atkinson o referenciar desta forma em sua dissertação sobre motivação, em 1953.
Continuando a pesquisar em regime parcial até 1931, Zeigarnik então emigrou para a União Soviética com o marido, que havia recebido uma proposta de emprego na Comissão de Negócios Estrangeiros. Uma vez em Moscou, trabalhou no Instituto de Atividade Nervosa Superior, que, em 1932, foi reestruturado e se tornou uma divisão do Instituto de Medicina Experimental de Toda a União.
Nessa época, ela conheceu psicólogos russos notáveis como Lev Vygotsky e Alexander Luria, conseguindo apresentar ambos a Lewin pouco tempo depois. Desde sua primeira visita à clínica de Kurt Goldstein no Hospital Lazarett, em Berlim, Zeigarnik se dedicou à psicologia clínica, sendo que ao longo da década de 1930, essa área se tornou seu principal interesse. No entanto, mesmo com o título acadêmico de Candidata em Ciências Biológicas que lhe foi concedido em 1935, Bluma não conseguiu publicar um único artigo científico entre 1936 e 1939, uma vez que este foi um período de obstrução ideológica contra cientistas na Rússia, sobretudo após 1936, com a publicação do decreto do Comitê Central do Partido Comunista de Toda a União, intitulado "Sobre as perversões pedagógicas no sistema dos Comissariados do Povo para a Educação".
Em 1943, Zeigarnik se tornou chefe do laboratório de psicopatologia experimental no Instituto de Psiquiatria em Moscou, lecionando sobre o tema na Universidade Estatal de Moscou a partir de 1949. No entanto, foi suspensa de seu cargo no Instituto de Psiquiatria em 1950 e, em 1953, demitida devido à sua origem judaica, graças à campanha antissemita soviética, que ocorreu entre 1948 e 1953. A psicóloga somente voltou à ativa em 1957, depois de ser reintegrada ao seu cargo no Instituto de Psiquiatria.
Bluma Zeigarnik concluiu seu terceiro doutorado em 1958, quando recebeu o título de Doutora em Ciências Pedagógicas e publicou a monografia "Distúrbios do Pensamento em Pacientes Psiquiátricos". Em 1962, lançou sua segunda monografia, intitulada "Patologia do Pensamento", sendo que a temática dos distúrbios do pensamento se tornou seu principal foco científico. Suas obras demonstram profundo conhecimento da psicologia e psiquiatria, tanto soviética quanto ocidental. Por viver na União Soviética, no entanto, enfrentou diversas restrições à liberdade de pensamento, e foi obrigada não apenas a fazer referências a Karl Marx e Lenin, como também a criticar as ideias ocidentais como "burguesas".
Durante um período de relativa liberdade, Zeigarnik voltou a se dedicar ao estudo dos processos de pensamento e às manifestações dos distúrbios mentais na fala. Seu trabalho sobre esquizofrenia contribuiu para o desenvolvimento de métodos alternativos de tratamento, voltados à reabilitação social dos pacientes. A partir de 1962, com o afastamento gradual da influência de Pavlov na ciência soviética, houve uma retomada da psicologia e da aplicação de diversos métodos de pesquisa psicológica.
Em 1965, Zeigarnik recebeu o título de Professora de Psicologia e, em 1967, foi eleita presidente da Faculdade de Psicofisiologia e Neuropsicologia da Universidade Estatal de Moscou. Nos anos seguintes, publicou diversas monografias importantes, como "Introdução à Patopsicologia", em 1969, "Personalidade e Patologia da Atividade", em 1971 e "Fundamentos da Psicopatologia", em 1973 e 1976.
Em 1969, participou do XIX Congresso Internacional de Psicologia em Londres, presidindo uma sessão sobre estudos experimentais em psicologia anormal, ao lado de Alexander Luria, que apresentou uma palestra sobre a origem e organização cerebral da ação consciente.
Sua monografia "Psicologia Anormal Experimental" foi publicada em inglês em 1972, ampliando seu reconhecimento internacional. Em 1979, participou do Simpósio Internacional sobre o Inconsciente em Tiblíssi, que discutiu amplamente o conceito de inconsciente. Anos depois, foi coautora de uma revisão do evento, ajudando a desfazer mitos sobre a inferioridade da ciência ocidental em relação à soviética.
Durante seus últimos anos de vida, Zeigarnik desenvolveu uma anemia crônica grave, que exigia transfusões de sangue frequentes. Ainda assim, teve uma fase produtiva e de reconhecimento internacional, recebendo prêmios na Alemanha e na União Soviética. Publicou obras que se tornaram referência para estudantes de psicologia, como "A Teoria da Personalidade de K. Lewin", em 1981, "Teorias da Personalidade na Psicologia Estrangeira", em 1982, e uma nova edição de "Patopsicologia", em 1986. Nestes trabalhos, demonstrou profundo conhecimento sobre diversas correntes psicológicas, desde a psicanálise clássica até abordagens humanistas e existenciais.
Pequena e de aparência frágil, adorava receber convidados e se mostrava atenciosa com os que lhe faziam perguntas profissionais. Criou uma escola que funciona até os dias de hoje, e que formou muitos estudantes de psicopatologia, incluindo Yuri Polyakov, Valentina Nikolaeva e Boris Bratus a escola permanece ativa na Rússia atual. Faleceu em 1988, aos 87 anos de idade.