Neste Dia

Bruno Tolentino

Escritor brasileiro

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Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 – São Paulo, 27 de junho de 2007) foi um poeta, escritor e polemista brasileiro. Lembrado por sua poesia de inspiração clássica e por suas invectivas contra artistas contemporâneos famosos, é tido por muitos como um dos fundadores da Nova Direita no Brasil.

Sua obra poética — em especial os livros As Horas de Katharina (1994), A Balada do Cárcere (1996), O Mundo como Ideia (2002) e A Imitação do Amanhecer (2007), nos quais trabalhou por décadas — foi apreciada nacionalmente com diversos prêmios, entre os quais três Jabutis. No entanto, muitos de seus apreciadores afirmam que ela é ignorada pela academia brasileira por conta das inúmeras polêmicas em que o autor se envolveu.

A sua biografia é de difícil reconstrução, tendo em vista que o autor, ao longo da sua trajetória, disseminou muitos fatos mentirosos ou exagerados sobre a sua vida. Nasceu em 1940, filho de Heitor Jorge de Carvalho Tolentino e de Odila de Souza Lima, e primo do crítico literário Antonio Candido e da crítica teatral Bárbara Heliodora. Ele alegava ter convivido desde criança com escritores próximos à família, como Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Em 1963, publicou Anulação e Outros Reparos, dedicado à irmã de Glauber Rocha, a atriz Anecy Rocha, com quem teve um breve caso amoroso. O livro rendeu-lhe o Prêmio Revelação de Autor, que, à época, tinha júri composto por Manuel Bandeira e Lêdo Ivo.

Com o golpe militar de 1964, mudou-se para a Europa, onde viveu por trinta anos e publicou os livros de poemas Le vrain le vain (1971), em francês, e About the Hunt (1979), em inglês. Lá, como integrante do Programa de Leitorado do Itamaraty, ministrou aulas de Literatura em Essex e Bristol, envolveu-se num caso amoroso com o inglês Simon Pringle (Tolentino era bissexual), e, em 1987, foi preso em flagrante no aeroporto de Heathrow, em Londres, portando uma maleta cheia de cocaína, denunciado pela astróloga que havia consultado antes de viajar. Condenado a onze anos de prisão, cumpriu ao todo metade da pena, sobretudo na penitenciária de Dartmoor, e foi deportado para o Brasil em 1993.Aos companheiros de prisão, organizou aulas de alfabetização e de literatura, "em cujas sessões avançadas", segundo Tolentino, "chegaram a comparecer psicanalistas de renome, ao lado de personalidades do mundo das letras tais como Humphrey Carpenter, o estudioso e biógrafo de Ezra Pound e Auden, o dramaturgo Harold Pinter e Antonia Fraser", mas os seus biógrafos contestam a veracidade dessas visitas.

Em 1993, retornou ao Brasil, publicando o livro As Horas de Katharina em 1994, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de melhor livro de poesia no ano seguinte, e A Balada do Cárcere em 1996. Com isso, Tolentino relançou-se no cenário cultural brasileiro, sendo comentado por diversos nomes proeminentes, dentre os quais Arnaldo Jabor, que escreveu uma crônica sobre o seu retorno, intitulada Tolentino traz de volta a peste clássica.

Tolentino sentiu-se inconformado com o cenário intelectual e cultural do Brasil que encontrou e escreveu ensaios para diversos jornais e periódicos, como a revista Bravo!, onde lançou críticas ácidas a diversos autores e movimentos da poesia moderna e contemporânea brasileira. Nesse período, aproximou-se de outros críticos do establishment cultural, como Olavo de Carvalho, e consagrou-se como uma grande influência entre leitores e estudantes conservadores que formaram a primeira geração da nova direita no Brasil.

Entre os anos de 2000 e 2002, morou no Santuário Estadual de Nossa Senhora da Piedade em Caeté, onde viveu e contribuiu com o Movimento Eclesial de Comunhão e Libertação. Nesta época, em 2002, terminou a revisão do seu livro O Mundo como Ideia, que lhe rendeu um segundo Jabuti em 2003, além do Prêmio Senador José Ermírio de Morais, em sessão solene da Academia Brasileira de Letras, com saudação proferida pelo filósofo Miguel Reale.

Portador de AIDS e lutando contra um câncer, morreu aos 66 anos em São Paulo, por falência múltipla de órgãos, em 27 de junho de 2007. Seu último livro, A Imitação do Amanhecer, publicado no ano anterior, rendeu-lhe, postumamente, um terceiro Jabuti.

De modo geral, a poesia de Tolentino aspira a um lirismo filosófico e classicizante, em contraste com o que normalmente se encontrava na década de 1990, onde predominavam expressões derivadas do concretismo e da poesia marginal. Seus poemas geralmente se escreviam sob uma métrica, de acordo com alguma forma fixa e tratavam de questões metafísicas.

O primeiro livro de poesia que Tolentino publicou foi Anulação & outros reparos, em 1960, o qual editou posteriormente, em 1998, e do qual afirmou ser o seu livro "mais ralo". Durante seu exílio na Europa, publicou Le vrain le vain em 1971 e About the hunt em 1979 e trabalhou durante décadas em poemas narrativos e filosóficos em língua portuguesa que foram reunidos em quatro livros que publicou em seu retorno ao Brasil: As Horas de Katharina (1994), A Balada do Cárcere (1996), O Mundo como Ideia (2002) e A Imitação do Amanhecer (2006). Além disso, publicou o livro de poemas Os sapos de ontem em 1995, no contexto da polêmica com Augusto de Campos.

As Horas de Katharina narra a história de uma moça do século XIX forçada a ser freira que, com o tempo, vivenciou um lento processo de conversão e aceitação do seu ministério. Tolentino concebeu essa obra por sugestão de seu primo José Joaquim Dutra de Andrade, que o incitou a escrever um livro "católico".O segredo

A balada do cárcere narra a história de um eu lírico que, preso, conhece um detento chamado Numeropata, que lhe conta a sua história por meio de sonetos e constantes alusões à mitologia grega. Segundo Tolentino, o livro foca "o drama da inarticulação, da alienação do espírito privado de um acesso coerente ao território ambíguo e derrapante da linguagem simbólico-emocional" e se baseia em um homem que conheceu em Dartmoor, condenado à prisão perpétua por ter matado a esposa e a quem o poeta ajudou a se ressocializar em suas aulas de leitura.O espírito da letra

O mundo como Ideia apresenta uma série de ensaios e poemas filosóficos que discutem a questão do "mundo como ideia". Para Tolentino, o ser humano é "um primeiro rascunho do ser" e "a vida é metafísica", mas o homem moderno tende a encarar a realidade a partir de "construções conceituais que fazemos do significado profundo e misterioso das coisas" (como o marxismo, o cientificismo e o niilismo), negando assim a dimensão metafísica da vida. A única maneira de o homem livrar-se desse ideário e desfrutar da plenitude da vida, segundo ele, é por meio de Deus e da beleza, dois conceitos que a modernidade vem constantemente procurando destruir.Soneto VIII de O Verme

A imitação do amanhecer (2006)

A imitação do amanhecer narra, por meio de 538 sonetos alexandrinos, um romance que o eu lírico viveu com um homem em Alexandria no ano de 1922. A obra, como um todo, além de narrar esse encontro, trata de questões metafísicas e existenciais, como "a relação entre o instante e o tempo rumo ao caos final da morte".Soneto 1.2

O poeta, enquanto trabalhou como colunista de diversos jornais e revistas, escreveu ensaios ácidos contra nomes consagrados da literatura e cultura brasileira e promoveu algumas polêmicas relacionadas a movimentos da poesia moderna e contemporânea no país. Essa sua atividade como polemista foi um contraponto significativo à atitude crítica da época. Segundo Heloísa Buarque de Hollanda, a literatura brasileira na década de 1990 sofria de uma "apatia literária", visto que os autores da época procuravam "escapar do atrito", afastando-se de polêmicas literárias e debates críticos. Diante desse cenário, segundo Nívia Maria Santos Silva, Tolentino assumiu "a posição de incitador de debates".

A primeira polêmica notória de Tolentino envolveu um artigo que publicou para o Estadão em 3 de setembro de 1994 intitulado Crane anda para trás feito caranguejo, onde critica uma tradução de Augusto de Campos do poema Praise for an Urn, de Hart Crane, chamando o concretista de "vaidoso prepotente" e "delirante autoritário" e dizendo que "já está na hora de acabar com a admiração dos irmãos Campos no mundo da tradução brasileira". Por conta disso, Campos organizou um abaixo-assinado contra o poeta, assinado por mais de setenta figuras proeminentes da cultura brasileira, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Marilena Chaui. Em resposta, Tolentino escreveu uma série de poemas jocosos satirizando cada um dos signatários, reunidos no livro Os sapos de ontem.

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