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César Lattes

Físico, pesquisador e professor brasileiro

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Cesare Mansueto Giulio Lattes, mais conhecido como César Lattes (Curitiba, 11 de julho de 1924 – Campinas, 8 de março de 2005), foi um físico brasileiro, codescobridor do méson-π (méson pi ou píon), descoberta que levou à concessão do Prêmio Nobel de Física de 1950 a Cecil Frank Powell, líder da pesquisa. Lattes é um dos mais ilustres físicos do Brasil e seu trabalho foi fundamental para o desenvolvimento da física atômica no país. Foi também um grande líder no meio científico brasileiro e um dos principais responsáveis pela criação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Embora Lattes fosse o principal pesquisador e primeiro autor do artigo que descreve o méson pi, apenas Cecil F. Powell foi agraciado com o Prêmio Nobel de Física, em 1950, por "seu desenvolvimento do método fotográfico de estudo dos processos nucleares e suas descobertas em relação a mésons feitas com este método". A razão para esta aparente negligência é que a política do Comitê do Nobel, até 1960, era conceder o prêmio ao líder do grupo de pesquisa, apenas. Entre 1949 e 1954, Lattes foi indicado sete vezes ao Nobel de Física. Em 1965, Lattes recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade de São Paulo.

Em sua homenagem, o CNPq deu seu nome ao sistema utilizado para cadastrar cientistas, pesquisadores e estudantes. Isso porque o nome de Lattes fundamentou a apresentação do Projeto de Lei 164/1948, que propunha a criação do CNPq. A Plataforma Lattes é uma base de dados de currículos e instituições de todas as áreas do conhecimento. O Currículo Lattes registra a vida profissional dos pesquisadores, sendo elemento indispensável à análise de mérito e competência dos pleitos apresentados a quase todas as agências de fomento no Brasil. César Lattes é um dos poucos brasileiros a figurar na Biographical Encyclopedia of Science and Technology, de Isaac Asimov, bem como na Encyclopædia Britannica e no Oxford Companion to the History of Modern Science.

Nascido no dia 11 de julho de 1924, era filho de Giuseppe Lattes, que veio ao Brasil em 1912 e retornou à Itália com a Primeira Guerra Mundial em 1914 e Carolina Maroni Lattes, ambos imigrantes italianos originários da região do Piemonte - ele, de Turim, e ela, de Alessandria. Os dois se conheceram no período em que o pai de Lattes lutava na guerra e quando retornou ao Brasil Giuseppe criou o Banco Brasul.

Apesar de serem judeus sefarditas, o filho foi batizado na Igreja Católica como Cesare Mansueto Giulio. Após se casarem, Giuseppe e Carolina retornaram ao Brasil em 1921 e César veio a estudar na Escola Americana. Com a Revolução de 1930, a família passou seis meses na Itália. Seu pai era gerente do Banco Francês e Italiano, onde César conheceu o cientista Gleb Wataghin, que mais tarde seria seu mentor.

Lattes estudou com uma professora particular em Porto Alegre em seus primeiros anos e depois no Instituto Menegapi por seis meses. Entre 1934 e 1938 fez o ensino médio no Colégio Dante Alighieri e, após seu pai intermediar conversas com o professor de Física da Universidade de São Paulo, Gleb Wataghin, Lattes se graduou em física, aos 19 anos de idade, por essa Universidade, em 1943, obtendo notas excelentes e se destacando no campo experimental. Na realidade, Lattes é fruto de uma das gerações de físicos que Wataghin formou, dentre os quais podemos citar Mário Schenberg, Marcelo Damy de Souza Santos, Jayme Tiomno, Oscar Sala e Sonja Ashauer.

Entre 1946 e 1948, Lattes começou a sua principal linha de pesquisa, o estudo dos raios cósmicos, descobertos em 1932 pelo físico estadunidense Carl David Anderson. Montou um laboratório a mais de 5 000 metros de altitude em Chacaltaya, uma montanha dos Andes, na Bolívia, onde empregou chapas fotográficas para registrar os raios cósmicos. Em sua viagem para a Bolívia, ele resolveu embarcar em um avião da Panair em vez de uma empresa britânica - o avião britânico que o traria à América do Sul caiu no Senegal.

Viajou para a Inglaterra graças ao seu professor Occhialini, onde foi trabalhar no H. H. Wills Laboratory, da Universidade de Bristol, dirigido por Cecil Frank Powell, com uma bolsa de 15 libras por mês. Após melhorar uma nova emulsão nuclear usada por Powell, pedindo à empresa britânica Ilford para adicionar boro a ela, em 1947 realizou, com a ajuda dessas chapas, uma grande descoberta experimental, a de uma nova partícula atômica, o méson π (ou pion), a qual se desintegra em um novo tipo de partícula, o méson μ (méson mu ou muon). O processo histórico dessa observação tem suas raízes em um período de férias de Giuseppe Occhialini, que foi esquiar nos Pic du Midi, na França, e levou consigo chapas fotográficas para serem expostas à radiação cósmica. Ao retornar com essas chapas e analisá-las ao microscópio, Occhialinni perguntou a Lattes, que havia feito um trabalho de padronização da identidade de traços visuais deixados por partículas carregadas geradas por aceleradores de partículas em chapas fotográficas assim que chegou em Bristol em 1946, o que teria causado os traços observados na emulsão exposta no Pic du Midi. Lattes não titubeou. Pela diferença dos traços com os quais estava familiarizado, cravou que eram traços provocados pela passagem de mésons.

Nessas chapas, foram descobertos dois decaimentos do méson pi em méson μ (múon). Essas descobertas foram relatadas em "Processes involving charged mesons", por Muirhead, Occhialini e Powell. No mesmo ano, ele foi responsável pelo cálculo da massa da nova partícula, em um meticuloso trabalho. Um ano depois, trabalhando com Eugene H. Gardner na Universidade da Califórnia em Berkeley, Lattes detectou a produção artificial de partículas píon no ciclotron do laboratório, quando do bombardeio de átomos de carbono com partículas alfa.

Prêmio Nobel de Física de 1950

Embora Lattes tenha sido o principal pesquisador e primeiro autor do histórico artigo da Nature, descrevendo o méson pi, Cecil Powell foi o único agraciado com o Prêmio Nobel de Física em 1950, pelo seu desenvolvimento de um método fotográfico de estudo dos processos nucleares e sua descoberta que levou ao descobrimento dos mésons. A razão para esta aparente negligência é a política do Comitê do Nobel, que até 1960 era de premiar somente o líder do grupo de pesquisa. Em 2001, durante uma entrevista para o Jornal da Unicamp, Lattes mencionou o fato de não ter ganhado o Nobel de Física:

"Sabe por que eu não ganhei o prêmio Nobel? Em Chacaltaya, quando descobrimos o méson-pi, se publicou: Lattes, Occhialini e Powell. E o Powell, malandro, pegou o prêmio Nobel pra ele. Occhialini e eu entramos pelo cano. Ele era mais conhecido, tinha o trabalho da produção de pósitrons, em 1933. Depois fui para a Universidade da Califórnia, onde foi inaugurado o sincrociclotron, em 1946. Já era 1948 e estava produzindo mésons desde que entrou em funcionamento em 1946, tinha energia mais que suficiente. Então, detectamos, Eugene Garden e eu, o méson artificial, alimentando a presunção de retirar do empirismo todas as pesquisas que se relacionassem com a libertação da energia nuclear. Sabe por que não nos deram o Nobel? Garden estava com beriliose, por ter trabalhado na bomba atômica durante a Guerra, e o berílio tira a elasticidade dos pulmões. Morreu pouco depois e não se dá o prêmio Nobel para morto. Me tungaram duas vezes."

Na sua última entrevista, concedida à revista Superinteressante em 2005, Lattes voltou a mencionar o episódio do Nobel de Física de 1950:

"Apesar de a comissão julgadora ser formada por ingleses, acredito que não foi minha nacionalidade que pesou na decisão do vencedor. Tanto na descoberta do méson pi, em 1946, como na sua criação artificial, em 1948, tive colaboração do Giuseppe Occhialini. Quem deveria ter ganhado era ele. E, em 1950, quem levou o prêmio foi o Cecil Powell, que também participou do trabalho. Mas deixa isso para lá. Esses prêmios grandiosos não ajudam a ciência."

Houve rumores de que Niels Bohr teria deixado uma carta intitulada "Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel - Abra 50 anos após a minha morte". No entanto, durante as buscas feitas no Arquivo Niels Bohr, em Copenhague, Dinamarca, tal documento não foi encontrado.

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