Carlos Pereira Cruz (Torres Novas, Parceiros de São João, 24 de março de 1942), ex-locutor, jornalista, escritor e produtor de rádio e televisão português.
Um dos mais reconhecidos profsisonais da comunicação social de sempre — chegou a ser chamado de "Senhor Televisão" ou de "Senhor Quinto Canal" —, Carlos Cruz foi locutor de rádio e apresentador de programas, de informação e de entretenimento, na televisão e na rádio, destacando-se igualmente como produtor de programas, ao longo dos anos 1990. De resto, também chegou a exercer funções de diretor de informação, de diretor de programas e de diretor-coordenador da RTP1. A sua carreira foi abruptamente interrompida quando o seu nome surgiu como suspeito de práticas de abuso sexual de menores no mediático Processo Casa Pia, no âmbito do qual acabaria por ser condenado e cumprir pena.
Carlos Cruz nasceu em Parceiros de São João, no concelho de Torres Novas, numa casa sem água canalizada, eletricidade ou instalações sanitárias, serviços então inexistentes nos meios rurais do país, no ano de 1942.
Os seus pais eram proprietários agrícolas. Quando Carlos Cruz nasceu, os dois filhos mais velhos já eram adultos e os outros três tinham já 16, 11 e oito anos.
Aos seis anos, foi viver para Angola com a família.
Dois dos irmãos mais velhos tinham partido para a antiga colónia, em busca de uma vida melhor, e, embora contando já 59 anos de idade, o pai decidiu para lá partir também, levando a família, corria o ano de 1948.
Em Luanda, instalaram-se numa casa de outra família, no chamado Musseque Lixeira, bairro de odor nauseabundo; mais tarde, foram para uma vivenda acabada de construir no Bairro de São Paulo, na fronteira entre o asfalto e o musseque.
Em Angola Carlos Cruz desenvolveu o seu percurso escolar - a instrução primária no Colégio Padre António Vieira e o ensino secundário no Liceu Nacional Salvador Correia.
No ano de 1956, Carlos Cruz tem a sua primeira experiência na rádio, tendo apenas 14 anos de idade, num programa semanal da Mocidade Portuguesa, chamado A Voz da Mocidade.
Na sequência dessa experiência, pedirá ao padre José Maria Pereira, seu professor de Religião e Moral no liceu e diretor da recém-fundada Rádio Ecclesia - Emissora Católica de Angola, para que este o deixasse acompanhar ao vivo o relato de um jogo de futebol que, naquele ano, se realizaria entre a selecção militar portuguesa e a seleção angolana.
Lograda a entrada, Carlos Cruz seria sentado ao lado a Rui Romano, famoso radialista da época e encarregado de relatar o jogo. A certa altura, o adolescente seria confrontado com uma situação inesperada — confundindo Carlos Cruz com outra pessoa, Romano passa-lhe o microfone, anunciando que seria aquele a continuar o relato.
Carlos Cruz não desfez o engano e, apesar do caráter insólito da experiência, demonstraria com a mesma deter a capacidade necessária para a função. Pouco depois, era convidado a colaborar como relatador de jogos de futebol na mesma Emissora. Mais tarde, tornava-se igualmente produtor de programas desportivos, na mesma rádio e no Rádio Clube de Angola.
De resto, ainda chegaria a fazer a reportagem de uma viagem promocional da Força Aérea a Angola, chefiada por Kaúlza de Arriaga, onde pode conhecer e trabalhar ao lado de Artur Agostinho; o veterano locutor viria a converter-se num dos seus mestres, já em Portugal.
Em setembro de 1959, após fazer o exame de admissão ao Instituto Superior Técnico, Carlos Cruz iniciou a viagem de regresso à então metrópole, a bordo do navio Vera Cruz.
O pai havia falecido recentemente e a mãe, viúva, também decidira regressar à terra natal, Parceiros de São João.
Embora admitido na universidade, a ambição do jovem não passava por vir a ser engenheiro - no ano seguinte, em 1960, fazendo valer-se da sua experiência aos microfones em Angola, Carlos Cruz conseguiria ingressar na Emissora Nacional.
O jovem passaria então a conciliar a chamada "parte geral" do curso de Engenharia com o trabalho de relatador desportivo na rádio pública. Não o faria, contudo, por muito tempo — no ano seguinte, uma reprovação em Matemáticas Gerais, que considerou injusta, fá-lo-ia abandonar os estudos, em 1961.
No ano de 1962 abre um concurso para a RTP e o jovem apresenta-se como candidato. Uma vez selecionado, estreia-se, nessa sequência, como apresentador de televisão, continuando na área do desporto - apresenta, primeiro, o TV Motor, dedicado aos desportos motorizados, e, logo a seguir, o Tele Desporto, de caráter genérico.