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Carlos IV de Espanha

Carlos IV (Portici, 11 de novembro de 1748 – Roma, 20 de janeiro de 1819) foi o Rei da Espanha de 1788 até sua abdicação

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Carlos IV (Portici, 11 de novembro de 1748 – Roma, 20 de janeiro de 1819) foi o Rei da Espanha de 1788 até sua abdicação em 1808. Era filho do rei Carlos III e de Maria Amália da Saxônia.

Subiu ao trono com grande experiência em assuntos de Estado, mas viu-se superado pela repercussão dos acontecimentos ocorridos em França em 1789 e pela sua falta de energia pessoal, que fizeram com que o governo caísse nas mãos da sua esposa, a princesa Maria Luísa de Parma, e do valido, Manuel de Godoy, que se dizia ser amante da rainha, embora actualmente essas afirmações tenham sido desmentidas por vários historiadores. Estes acontecimentos acabaram com as expectativas com as quais deu início ao seu reinado. Quando o rei Carlos III faleceu, a queda da economia e a desorganização da administração revelaram os limites do reformismo, ao ponto de colocar a Revolução Francesa como uma alternativa ao Antigo Regime.

Nasceu a 11 de Novembro de 1748 em Portici, durante o reinado do seu pai no reino das Duas Sicílias. Foi baptizado com os nomes de Carlos António Pascoal Francisco Xavier João Nepomuceno José Januário Serafim Diogo.

Em 1759, quando o seu tio, o rei Fernando VI de Espanha, morreu sem deixar descendentes, o seu pai passou a ocupar o trono de Espanha. Assim, Carlos tornou-se herdeiro da monarquia hispânica, prestando o seu juramento como príncipe das Astúrias a 19 de Julho de 1760.

Sucedeu ao seu pai Carlos III, quando este faleceu a 14 de Dezembro de 1788.

Carlos IV contraiu matrimónio com a sua prima-irmã Maria Luísa de Parma, filha de Filipe, duque de Parma, em 1765. Juntos tiveram catorze filhos das vinte-e-quatro vezes que Maria Luísa esteve grávida, mas apenas sete chegaram à idade adulta.

O reinado de Carlos IV de Espanha foi marcado pelo impacto que a Revolução Francesa de Julho de 1789 teve em Espanha, assim como o seu desenvolvimento posterior, principalmente depois de 1799, quando Napoleão Bonaparte assumiu o poder.

A resposta inicial da corte de Madrid foi o chamado "pânico de Floridablanca" e o confronto com o novo poder revolucionário, após a destituição, prisão e execução do rei Luís XVI, chefe da Casa de Bourbon, que também reinava em Espanha, o que levou à Guerra da Convenção (1793-1795) que foi desastrosa para as forças espanholas. Em 1796, Carlos IV e o seu poderoso "primeiro-ministro" Manuel de Godoy mudaram completamente de política em relação à República Francesa e aliaram-se a ela, o que provocou a primeira guerra com a Grã-Bretanha (1796-1802), que acabaria por provocar a Guerra da Segunda Coligação e que marcou outra reviravolta difícil na Monarquia de Carlos IV, além de provocar uma dura crise na Tesouraria Real que se tentou resolver com a chamada "desamortização de Godoy" - o "favorito" foi afastado do poder durante dois anos (1798-1800). Após a efémera Paz de Amiens em 1802, rebentou a segunda guerra com a Grã-Bretanha, no seguimento da Guerra da Terceira Coligação, na qual a frota franco-espanhola foi derrotada pela frota britânica comandada pelo almirante Nelson, na Batalha de Trafalgar (1805). Este acontecimento foi a crise fatal para o reinado de Carlos IV que culminou com a conspiração do El Escorial, de novembro de 1807 e com o motim de Aranjuez de Março de 1808, no qual o rei perdeu o poder e se viu forçada a abdicar do trono a favor do seu filho Fernando. No entanto, dois meses depois, pai e filho estariam a assinar as abdicações de Bayona, nas quais entregaram os seus direitos de sucessão a Napoleão Bonaparte que, por sua vez, os entregou ao seu irmão José Bonaparte.

Muitos espanhóis "patriotas" não reconheceram as abdicações e continuaram a considerar Fernando VII como rei, iniciando, em seu nome, a Guerra da Independência Espanhola. No entanto, outros espanhóis, chamados desdenhosamente de "afrancesados", apoiaram uma Espanha napoleónica e o novo rei, José I Bonaparte, pelo que se considera que esta tenha sido a primeira guerra civil da História contemporânea de Espanha.

Uma vez que temia o contágio da Revolução Francesa em Espanha, José Moñino, conde de Floridablanca, enquanto primeiro secretário de Estado, tomou medidas para o impedir, uma vez que, naquela altura, a monarquia carecia de um dispositivo de segurança e ordem pública que pudesse fazer frente a possíveis golpes revolucionários. Assim, Floridablanca tomou imediatamente uma ´série de medidas para evitar o "contágio", impedindo que se soubesse o que estava a acontecer em França e travando a propagação das "ideias perigosas" dos revolucionários franceses. Assim, por exemplo, ordenou, segundo as suas próprias palavras que "se formasse um cordão de tropas em toda a fronteira, de mar a mar, como se faz com a peste para que não nos comuniquem o contágio". Por isso, encerrou precipitadamente as Cortes de Madrid de 1789 que, desde 19 de Setembro, se encontravam reunidas para prestar juramento ao herdeiro do trono, devido aos últimos acontecimentos de França, uma vez que, a 6 de Outubro, tinha ocorrido o assalto ao Palácio de Versalhes que tinha forçado os "patriotas" de Paris e o rei Luís XVI a mudarem-se para Paris, para a Assembleia Nacional Constituinte, que desde 14 de Julho, após a tomada da Bastilha, se tinha tornado no novo poder soberano de França.

Floridablanca decidiu também suspender todos os jornais, à excepção dos oficiais (Gazeta de Madrid, Mercurio, Diario de Madrid), nos quais tinha sido proibido mencionar os acontecimentos franceses. Foi reforçado o controlo ideológico da Inquisição, que voltou à sua função inicial de ser um órgão repressivo ao serviço da monarquia, em 1791 foi criada a chamada Comissão Reservada para perseguir aqueles que defendiam "ideias revolucionárias". Os membros da Comissão tinham como função introduzir-se em tertúlias de indivíduos influentes e informar os seus superiores em relação aos temas de conversa e às pessoas que neles participavam. Foi criada a censura a estrangeiros para controlar os seus movimentos, principalmente os franceses, e apenas se permitia a entrada em Espanha de pessoas que jurassem fidelidade à religião católica e ao rei e todos os corregedores foram forçados a retirar qualquer campanha considerada subversiva, entre outras medidas.

Os acontecimentos em França também tiveram o seu impacto no Império das Índias, uma vez que Espanha deixou de poder contar com o auxílio da monarquia francesa, vinculada à espanhola pelos pactos de família, assim chamados por ser a Casa de Bourbon a reinante em ambos os países, como tinha acontecido durante a disputa com a Grã-Bretanha pelo território de Nutka. O conflito ocorreu em 1789, quando alguns exploradores e militares espanhóis que se dirigiam para norte a partir da Califórnia, que na altura fazia parte do Vice-Reino da Nova Espanha, chegaram à ilha de Nutka, que pertencia à colónia britânica do Canadá e encontraram-se aí com militares e exploradores britânicos que vinham de este. No final, a monarquia espanhola teve de renunciar aqueles territórios nas Convenções de Nutka, assinadas nos anos seguintes. Também afectaram a política mediterrânica, uma vez que, quando as praças do norte de África de Orã e Mazalquivir foram atacadas por piratas berberes, o governo de Madrid optou por abandoná-las, apesar do esforço dos que tinham resistido aos ataques, por desejar concentrar-se por completo no que estava a acontecer em França.

Os acontecimentos em França obrigaram finalmente a monarquia espanhola a deixar os "pactos de família" em suspenso com a monarquia francesa. A detenção de Luís XVI em Varennes, após a sua tentativa de fuga de Paris em Junho de 1791, levaram Floridablanca a intervir em defesa do rei francês e a enviar uma nota diplomática à Assembleia Nacional francesa, na qual pedia aos franceses que respeitassem "a dignidade eminente da sua pessoa sagrada [Luís XVI], a sua liberdade, a sua imunidade e da sua família real". A nota foi considerada uma interferência inadmissível nos assuntos internos de França e piorou as relações entre os dois países. Um deputado da Assembleia afirmou que "as potências europeias devem saber que morreremos, se tal for necessário, mas não permitiremos que intervenham nos nossos assuntos". Pouco depois, Floridablanca recusou-se a aceitar a Constituição Francesa de 1791, "por ser contrária à Soberania", nem a reconhecer o juramento que Luís XVI fez à mesma a 14 de Setembro de 1791.

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