Jean Charles de Menezes (Gonzaga, 7 de janeiro de 1978 — Londres, 22 de julho de 2005) foi um eletricista brasileiro que ficou conhecido após ser executado por engano por agentes da Polícia Metropolitana de Londres, que o confundiram com um terrorista fugitivo. Sua morte aconteceu duas semanas após atentados terroristas atingirem o sistema de transporte público de Londres, resultando na morte de 52 pessoas e em centenas de feridos.
Natural de Minas Gerais, Menezes entrou no Reino Unido em 2002. No momento de sua morte, morava em um conjunto de apartamentos em Tulse Hill – onde também residia o terrorista Hussain Osman, natural da Etiópia, mas com nacionalidade britânica, que participou da tentativa de explodir bombas em trens do metrô londrino na véspera. Após deixar o local para trabalhar, Menezes foi confundido com Osman, passando então a ser perseguido pela polícia.
Na Estação Stockwell, do Metropolitano de Londres, agentes dispararam onze tiros à queima-roupa contra Menezes, os quais sete tiros atingiram sua cabeça e um seu ombro, levando-o a morrer instantaneamente no local. Seu corpo foi levado para o Brasil, onde foi sepultado no cemitério de sua cidade natal. O governo brasileiro condenou a execução, e Menezes recebeu diversas homenagens, incluindo um memorial na estação Stockwell que foi inaugurado em 2010.
No Reino Unido, a polícia instaurou duas investigações para apurar o caso: a primeira concluiu que nenhum dos policiais deveriam enfrentar processos disciplinares e a segunda criticou fortemente a estrutura de comando da polícia e suas comunicações com o público. A promotoria também decidiu que não haviam provas suficientes para processar nenhum policial, mas iniciou ação contra o comissariado da polícia, que foi multado. A família de Menezes, que recebeu indenização da polícia britânica, recorreu da decisão de não processar os policiais, mas o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos julgou por maioria que as autoridades do país investigaram adequadamente o caso.
Jean Charles vivia havia três anos no sul da capital inglesa e, segundo as autoridades, foi confundido com um terrorista árabe, que teria participado dos atentados da véspera, contra ônibus e estações do metrô de Londres. O erro foi admitido pela Scotland Yard, quando informou que o brasileiro não tinha nenhuma relação com qualquer grupo terrorista. Segundo a autoridade policial, o incidente ocorreu porque o brasileiro se recusara a obedecer às ordens de parar, dadas pelas autoridades.
No entanto, a Comissão Independente de Investigação de Queixas da Polícia (CIIQ, em inglês) concluiu que Ian Blair, chefe da Scotland Yard, tentou impedir que a morte de Jean Charles fosse investigada.
O jornal britânico The Observer, em sua edição do 21 de agosto de 2005, revelou que os três agentes que vigiavam Jean Charles não estavam armados nem uniformizados e não o consideravam suspeito de portar armas, bombas ou qualquer artefato terrorista. Só tinham a intenção de detê-lo. No entanto, esses homens tinham ordens de ceder o controle da operação a grupos especiais das forças armadas (SAS), caso estes interviessem. Os militares consideraram Jean Charles uma grave ameaça e seguiram seu modus-operandi - atirando para matar.
Alex Pereira, primo de Menezes que morava com ele, afirmou que o rapaz foi baleado pelas costas.
Segundo a Agência Brasil, o Ministério das Relações Exteriores publicou uma nota oficial na qual afirma que o governo brasileiro ficou "chocado e perplexo" ao tomar conhecimento da morte do brasileiro, "aparentemente vítima de lamentável erro".
Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que "o Brasil sempre condenou todas as formas de terrorismo e mostrou-se disposto a contribuir para a erradicação desse flagelo dentro das normas internacionais", e que aguarda explicações das autoridades britânicas sobre as circunstâncias da morte de Jean Charles.
Em 16 de novembro, o jornal Daily Telegraph publicou uma reportagem acusando a polícia britânica de utilizar munição de ponta oca, conhecida como dum dum, para matar Jean Charles. O armamento foi proibido pela Convenção da Haia de 1899, por motivos humanitários (o projétil se expande e se estilhaça dentro do corpo do indivíduo atingido, criando grande estrago e provocando dores lancinantes, o que normalmente não acontece com uma bala comum).
Descrição do assassinato de Jean Charles por testemunhas
Os policiais inicialmente alegaram que interpelaram o suspeito, mas relatos posteriores indicam que ele não foi sequer interpelado.
De acordo com um dos seguranças, Jean Charles se levantou e caminhou em direção aos policiais e a ele, momento em que o mesmo segurança o agarrou, colocou os seus braços contra o tronco e o empurrou de volta para o assento. O segurança então ouviu um tiro e foi puxado e arrastado pelo chão do vagão. Enquanto o segurança estava sendo arrastado, ouviu ainda vários tiros.
Dois policiais dispararam um total de onze tiros, de acordo com o número de invólucros vazios encontrados no chão do vagão. Jean foi baleado sete vezes na cabeça e uma vez no ombro, bem de perto, e morreu ali mesmo. Uma testemunha ocular disse mais tarde que os onze tiros foram disparados durante um período de trinta segundos, em intervalos de três segundos. Uma testemunha separada relatou ouvir cinco tiros, seguido em um intervalo por vários tiros mais.
A ação violenta dos policiais se deveu às diretrizes da operação Kratos, que visava combater potenciais homens-bomba; a orientação era que se atirasse na cabeça (e não no troco) dos homens-bomba, sem mesmo adverti-los.
Jean Charles Menezes nasceu em 7 de janeiro de 1978, em Gonzaga, Minas Gerais. Cresceu numa área rural, a 300 km de Belo Horizonte. Depois da descoberta de um talento precoce para a Eletrônica, ele deixou a fazenda, aos catorze anos, para morar com seu tio em São Paulo e prosseguir seus estudos. Aos 19 anos recebeu um diploma técnico da Escola Estadual São Sebastião. Entrou no Reino Unido, em 2002, com um visto estudantil, e com apenas quatro meses na Inglaterra já tinha um bom domínio do inglês e trabalhava para mandar dinheiro para a família.
A polícia alegou que seu visto havia vencido quando foi morto - o que foi desmentido por seu primo.