Cassai do Sul (em francês: Sud-Kasaï) foi uma região separatista na região centro-sul do Congo-Léopoldville, durante a década de 1960. A região procurou a independência, em circunstâncias semelhantes ao vizinho, o Estado de Catanga, durante o tumulto político decorrente da descolonização do Congo Belga (Crise do Congo). No entanto, ao contrário do Catanga, o Cassai do Sul não declarou explicitamente a independência total do Congo-Léopoldville nem rejeitou a soberania quinxassa-congolesa. Conflitos étnicos e tensões políticas entre os líderes do governo central e os líderes locais atormentavam essa região rica em diamantes. Foi um estado separatista não reconhecido da Congo-Léopoldville (atual República Democrática do Congo) que foi semi-independente entre 1960 e 1962.
O líder e principal defensor do Cassai do Sul, Albert Kalonji, que representava uma facção do movimento nacionalista (o Movimento Nacional Congolês-Kalonji ou MNC-K) antes da descolonização, explorou as tensões étnicas entre o seu próprio grupo étnico, os lubas, e os povos luluas, para criar um estado na zona tradicional dos lubas, nas partes sudeste da região de Cassai. Quando a violência sectária eclodiu por todo o país, o estado declarou a sua secessão do Congo a 9 de Agosto de 1960 e o seu governo, e apelou aos lubas que viviam no resto do Congo-Léopoldville para regressarem à sua "pátria". Kalonji foi nomeado presidente. Embora o governo de Cassai do Sul afirmasse formar uma parte autónoma de um estado federal que abrangia todo o Congo-Léopoldville, exerceu um certo grau de autonomia regional e até produziu a sua própria constituição e selos postais. O Estado, apoiado por potências estrangeiras, particularmente a Bélgica, e financiado pelas exportações de diamantes, geriu inúmeras crises, incluindo as provocadas pela grande migração de refugiados lubas, mas tornou-se cada vez mais militarista e repressivo.
Pouco depois da sua secessão, o Cassai do Sul e as tropas quinxassa-congolesas entraram em confronto com as tropas cassais depois de o governo central quinxassa-congolês ter ordenado uma ofensiva contra a região. A campanha resultante, planeada como o primeiro acto de uma acção mais longa contra o Catanga, acabou cumprindo rapidamente o objetivo de tomada de Cassai, sem ocorrências, em três dias, de 23 a 26 de agosto de 1961. Porém, as tropas do governo que se instalaram em Cassai do Sul, instigadas por um ódio étnico, perpetraram, sem autorização do governo, um massacre generalizado contra lubas, seguido de uma crise de refugiados. A violência na repressão de Cassai, mesmo sem a autorização do primeiro-ministro Patrice Lumumba, serviu como pretexto para sua destituição por Joseph Kasa-Vubu no final da década de 1960 e à subsequente detenção e assassinato de Lumumba. Como resultado, Cassai do Sul manteve relações relativamente boas com o novo governo quinxassa-congolês desde 1961. Os seus líderes, incluindo o próprio Kalonji, serviram tanto no governo de Cassai do Sul como no parlamento quinxassa-congolês. O Cassai do Sul continuou a exercer uma quase independência, na qual as tropas quinxassa-congolesas e das Nações Unidas puderam mover-se através do território sem entrar em conflito com a gendarmaria do Cassai do Sul. Em abril de 1961, Kalonji adotou o título real de Mulopwe ("Rei dos Lubas") para ligar ainda mais o estado ao Império Luba pré-colonial. O ato dividiu as autoridades do Cassai do Sul e Kalonji foi repudiado pela maioria dos representantes parlamentares do Cassai do Sul em Léopoldville. Em dezembro de 1961, Kalonji foi detido sob pretexto legal em Léopoldville e encarcerado, e Ferdinand Kazadi assumiu o poder como chefe interino do Cassai do Sul. As tropas da ONU e do Congo ocuparam o Cassai do Sul. Em Setembro de 1962, pouco depois de escapar à prisão e regressar ao Cassai do Sul, Kalonji foi deposto num golpe de Estado que o obrigou ao exílio e pôs fim à secessão.
É frequentemente considerado que o fim da secessão do Cassai do Sul ocorreu em dezembro de 1961, data da prisão de Kalonji, ou outubro de 1962, com o golpe de Estado contra Kalonji e a chegada definitiva das tropas governamentais.
A O domínio colonial europeu no Congo começou no final do século XIX. O rei Leopoldo II da Bélgica, frustrado com a falta de poder e prestígio internacional do seu país, tentou persuadir o governo belga a apoiar a expansão colonial em torno da então inexplorada Bacia do Congo. A ambivalência do governo belga em relação à ideia levou Leopoldo a criar finalmente uma colónia por conta própria. Com o apoio de vários países ocidentais, que viam Leopoldo como um estado-tampão útil entre potências coloniais rivais, Leopoldo garantiu o reconhecimento internacional de uma colónia pessoal, o Estado Livre do Congo, em 1885. O Império Luba, a maior potência da região de Cassai, foi anexado ao novo estado em 1889. Na viragem do século, a violência dos oficiais do Estado Livre contra os quinxassa-congoleses e o sistema implacável de extração económica levaram a uma intensa pressão diplomática sobre a Bélgica para assumir o controlo oficial do país, o que fez 1908, criando o Congo Belga.
O domínio belga no Congo baseou-se na "trindade colonial" (trinité coloniale) de Estado, missionários e interesses de negócios privados. O privilégio dos interesses comerciais belgas significou que grandes quantidades de capital fluíram para o Congo e que regiões individuais se tornaram especializadas.
Em muitas ocasiões, os interesses do governo e das empresas privadas ficaram intimamente ligados, e o Estado ajudou as empresas a esmagar greves e a remover outras barreiras impostas pela população. O país estava dividido em subdivisões administrativas hierarquicamente organizadas e geridas uniformemente de acordo com uma "política nativa" estabelecida (politique indigène) – em contraste com os britânicos e franceses, que geralmente favoreciam um sistema de governo indirecto pelo qual os líderes tradicionais mantinham a sua posição de autoridade sob supervisão colonial.
Antes do início do período colonial, a região de Cassai do Sul fazia parte do Império Luba, uma federação de reinos locais com um certo grau de uniformidade cultural. Durante o século XVII e o século XVIII, os lubas espalharam-se por grandes partes da savana Cassai-Catanga ao longo da bacia do rio Cassai e acabaram por se desenvolver em vários subgrupos étnicos, principalmente os luba-cassais e os luba-catangas. Embora nunca se tenham unido num único estado centralizado, os grupos mantiveram um grau de ligação cultural baseado em mitos de origem e práticas socioculturais partilhadas. Outros grupos, como o songye e o kanyok, também tiveram uma longa história na região de Cassai.
Um dos maiores legados do domínio colonial em Cassai foi a redivisão arbitrária da população em novos grupos étnicos. Apesar da língua (luba) e da cultura partilhadas por ambos os grupos, os administradores coloniais acreditavam que os habitantes da zona do Rio Lulua eram etnicamente distintos dos lubas e chamavam-lhes luluas. Os colonizadores, no intuito de fomentar uma divisão e enfraquecer a unidade dos povos passou a alimentar a ideia de que que os lubas eram mais inteligentes, trabalhadores e abertos a novas ideias do que os luluas, passando a rotular estes como mais reaccionários e estúpidos. Assim, a partir da década de 1930 o Estado colonial começou a tratar ambos os grupos de forma diferente e aplicou políticas diferentes a cada um, promovendo os lubas a posições acima de outros grupos étnicos.
Durante a década de 1950, quando os belgas começaram a temer que a ascensão de uma poderosa elite intelectual e política de lubas pudesse tornar-se uma ameaça para o governo colonial, a administração começou a apoiar as organizações luluas. Isto contribuiu ainda mais para a crescente polarização étnica entre os dois grupos. Em 1952, uma organização chamada Irmãos Lulua (Lulua Frères) foi fundada para fazer campanha pelo progresso socioeconómico do grupo lulua e tornou-se uma representante não oficial dos luluas. Em 1959, a animosidade entre os lubas e os luluas atingiu um ponto crítico com a divulgação de uma proposta colonial para transferir os agricultores lubas das terras luluas para as terras menos férteis do território luba. Como resultado, as hostilidades aumentaram e eclodiram confrontos violentos. Em agosto de 1959, as manifestações de lubas contra o plano foram violentamente reprimidas pelo exército e pela polícia colonial.