Christopher Marlowe (batizado a 26 de fevereiro de 1564 — 30 de maio de 1593) foi dramaturgo, poeta e tradutor inglês, e viveu no Período Elizabetano. É considerado o maior renovador da forma do teatro do período com a introdução dos versos brancos, estrutura que será empregada por Shakespeare. Inclusivamente especula-se que ele será o próprio, como uma segunda identidade, e senão for assim, pelo menos parece ter sido provado que terão trabalhado em conjunto na composição de algumas peças de teatro.
Especula-se que Marlowe tenha atuado como agente secreto para Francis Walsingham. Segundo o depoimento dos seus assassinos Christopher Marlowe foi morto ainda jovem numa briga de taberna em maio de 1593, se bem que não se tenha a certeza do que aconteceu naquela tarde fatídica.
Marlowe frequentou a The King's School (Canterbury) (onde uma edificação atualmente leva seu nome) e o Corpus Christi College (Cambridge), onde recebeu o grau de Bachelor of Arts em 1584.
Marlowe era o filho de John Marlowe, um sapateiro, e Elizabeth Archer, e foi batizado em 26 de fevereiro de 1564 na cidade de Cantuária em Kent na Inglaterra. Documentos locais que sobreviveram daquele período contêm inúmeras ocorrências acerca do que se supõe um comportamento agressivo de John. Essa personalidade irascível certamente foi passada adiante para Marlowe, uma vez que mais tarde o poeta viria a se envolver em uma série de conflitos violentos. Em 1589, por exemplo, Marlowe foi brevemente preso após uma briga na qual um homem acabou morto. Tempos depois, foi novamente preso após uma briga de rua.
Restaram poucas informações relativamente à infância de Marlowe, mas é certo que, em 14 de janeiro de 1579, ele foi estudar na The King's School da Cantuária. Kit Marlowe, como ele também era conhecido, recebia uma bolsa anual no valor de quatro libras, pagas a "jovens pobres, mas dotados de grande aptidão para aprender". Durante o período em que frequentou a King's School, Marlowe estudou sob a orientação de John Greeshop, então diretor da escola. Um inventário da biblioteca de Greeshop elaborado em 1580 oferece um vislumbre do material acadêmico apresentado a Marlowe na King's School. Em meio a mais de trezentos volumes, encontravam-se exemplares de Ovídio, Petrarca, Chaucer e Bocaccio. Constavam também a obra Cosmographia de Münster e a Utopia de Moore, além das comédias de Plauto e dos tratados filosóficos de Ficino.
Após dois anos, Marlowe foi agraciado com uma nova bolsa de estudos, desta vez para estudar no Corpus Christi College, em Cambridge. A bolsa foi subvencionada pelo então arcebispo da Cantuária Matthew Parker, ainda em 1580, e condicionava o suporte à capacidade do candidato de demonstrar proeficiência em gramática latina e talento para a poesia, além da capacidade de compor e cantar. Uma vez que Marlowe recebeu a única bolsa entre tantos candidatos, é possível ter uma vaga ideia em relação às suas realizações acadêmicas na King's School.
Kit Marlowe aparece pela primeira vez nos registros de Cambridge por meio dos livros que detalham os gastos dos estudantes com comida e bebida, que sobreviveram desde aquele período. Esse documento indica que ele pode ter chegado à universidade em 10 de dezembro de 1580, em um sábado, embora sua matrícula tenha sido feita apenas em 17 de março de 1581. Marlowe recebeu seu Bachelor of Arts não muito mais tarde, em março de 1584, embora sem grandes distinções. Na ordem de formação, ele aparece como o 199º de 231 alunos. Após dar início a seu Master of Arts, em 1585, a frequência de Marlowe na universidade se tornou muito irregular, embora suas despesas com alimentação tenham aumentado graças a uma renda inesperada. Acredita-se que essa renda extracurricular proviesse de atividades governamentais de espionagem. É o que se pode inferir de um memorando do Conselho Privado da Rainha Elizabeth I, de 1587, segundo o qual durante suas abstenções Marlowe estivera prestando valiosos serviços à Coroa.
Embora não haja consenso quanto à ordem cronológica da obra de Marlowe, há uma tradição estabelecida de que tenha começado em Cambridge, com as traduções das Elegias de Ovídio e dos poemas sombrios de Lucano. Usualmente se considera Dido como sendo a primeira peça escrita por Marlowe, provavelmente em parceria com Thomas Nashe. A peça Tamburlaine também possui características que remontam ao período em Cambridge.
Ao fim dos seus estudos no Corpus College, Kit recebeu seu masters of arts em julho de 1587, ainda que não sem dificuldades. Suas ausências, bem como as suspeitas de que ele se encontrava em Rheims, na França, indicavam que ele pudesse estar envolvido com o catolicismo, em total desconformidade com a Igreja Anglicana, então religião oficial do Reino da Inglaterra desde 1558. Quando o grau acadêmico lhe foi negado, Kit apelou a Sir. Francis Walsingham, chefe do serviço secreto de Elizabeth I naquela ocasião. Um documento foi elaborado pelo Conselho Privado da Rainha e Marlowe finalmente recebeu o título de Master of Corpus.
Em Cambridge, além de ter dado início à sua obra, bem como ao serviço de espionagem, Marlowe travou contato com figuras importantes da Londres elisabetana, tais quais seu contemporâneo Thomas Nashe, co-autor de Dido, Thomas Walsingham, Robert Greene, John Lyly e Gabriel Harvey. Além dessas personagens, Marlowe certamente conheceu um Thomas Fineaux of Hoghan e um Simon Aldrich, ambos estudantes em Cambridge. Um diarista da época, Henry Oxiden, anotou comentários de Aldrich a respeito de Marlowe e seu período no College:"Sr. Aldrich disse que o Sr. Fineux de Dover foi um ateísta e que teria ido até a floresta à meia-noite e se ajoelhado para rezar ardentemente ao diabo. Ele aprendeu tudo de coração com Marlowe, além de outros livros. Marlowe fez dele um ateísta".
Washington, DC, Folger Shakespeare Library, MS 750.1Em 1593, o agente duplo Richard Baines e o dramaturgo Thomas Kyd viriam a acusar Marlowe de ateísmo, atribuindo-lhe uma série de práticas que implicavam traição, como homossexualidade e heresia.
É amplamente documentado que Marlowe serviu como espião, embora não tenham sobrevivido mais informações quanto à extensão de suas atividades ou período exato. Hilton especula que Marlowe possa ter sido recrutado em Cambridge, por Thomas Walsingham, que mais tarde também seria seu protetor e financiador em Londres.
O atestado de envolvimento com o serviço secreto fica subentendido em um famoso documento de estado. Na ocasião, em 29 de junho de 1587, o Conselho Privado da Rainha deliberou a respeito do caso de um estudante de Cambridge chamado Christopher 'Morley', cuja honra vinha sofrendo com certas difamações e que justamente por isso a concessão de seu diploma lhe havia sido negada. Apenas o resumo da deliberação enviado à universidade sobreviveu até os dias atuais, conforme a tradução que segue abaixo:Considerando que foi reportado ter Christopher Morley viajado para Rheims e lá permanecido, os membros acharam por bem certificar de que a intenção dele lá não era essa [de permanecer]; mas que, ao contrário, em todas suas ações ele se comportou ordeira e discretamente, realizando serviços em nome de Sua Majestade, de modo que merece ser bem recompensado por seus negócios fidedignos. Os membros requerem que os rumores mencionados sejam dissipados por todos os meios possíveis e que para ele [Marlowe] seja concedido o seu grau acadêmico, uma vez que não agrada a Sua Majestade que um de seus empregados, como ele [Marlowe], envolvido em questões pertinentes ao benefício de seu país, seja difamado por indivíduos ignorantes dos casos em que ele se envolveu. Uma das interpretações para esse documento sustena que Marlowe possa ter frequentado círculos católicos em Rheims na posição de espião ou "infiltrado", atividades governamentais comuns no período, tipicamente (mas não exclusivamente) sob a égide de Sir. Francis Walsingham.
Ainda no que concerne às atividades de inteligência, especula-se, igualmente, que Marlowe seria um acadêmico de nome "Morley", cujas atividades envolviam a de preceptor de Arbella Stuart. "Morley" (uma das diferentes grafias utilizadas para se referirem a Marlowe em sua época) foi descrito pela guardiã legal de Arbella, a Condessa de Shrewsbury, como alguém que esperava o pagamento de £40 (quarenta libras) pelos seus trabalhos com Arbella, de vez que ele se encontrava em desgraça desde que deixara a universidade. A Condessa declarou que ele tomava conta da pequena Arbella já fazia três anos, mas que era um acadêmico de atitudes suspeitas, possivelmente um simpatizante papista, o que converge para as circunstâncias sabidas a respeito de Marlowe. A possibilidade de que esse "Morley" tenha sido Marlowe foi levantada pela primeira vez por no periódico literário Times Literary Supplement e posteriormente foi sustentada também por John Baker em um jornal acadêmico intitulado Notes and Queries. Segundo John, apenas Marlowe poderia ser esse "Morley" mencionado, dada a falta de documentação que indique a existência de outro "Morley" naquela ocasião, que, acima de tudo, possuísse o grau de Master of Arts. Se Marlowe realmente serviu como tutor de Arbella, então é possível que tenha agido na condição de agente secreto. Arbella era sobrinha de Mary, Rainha da Escócia e de James VI da Escócia, mais tarde Rei James I da Inglaterra, e a menina era uma forte candidata à sucessão ao trono de Elizabeth I. Frederick S. Boas, por seu lado, rejeita a possibilidade aventada baseando-se em documentos legais que indicam a residência de Marlowe, entre setembro e dezembro de 1589, como sendo em Londres, virtualmente distante, portanto, de onde vivia Arbella Stuart no mesmo período.