A Companhia Holandesa das Índias Ocidentais ou Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais (em neerlandês: West-Indische Compagnie ou WIC) foi uma companhia majestática de mercadores holandeses. Representa um exemplo de organização privada do comércio externo, de pendor capitalista, que contrasta com o modelo de comércio português, que permaneceu fortemente dependente do Estado até bem mais tarde.
A companhia tornou-se instrumento da colonização holandesa nas Américas e foi responsável pela ocupação de áreas no nordeste brasileiro no século XVII.
A iniciativa intelectual para a criação da Companhia das Índias Ocidentais (WIC) partiu do pensador mercantilista Willem Usselincx. Movido por fervor calvinista e por uma visão econômica original para sua época, ele defendia a fundação de colônias agrícolas holandesas no Novo Mundo, argumentando que a verdadeira riqueza colonial estava nos produtos da terra (como açúcar, madeiras e couros), e não apenas nos metais preciosos. Ele apontava o Brasil como o exemplo perfeito dessa riqueza agrícola. Seu projeto inicial era mais pacifico e diplomático: durante a Trégua dos Doze Anos (1609-1621), ele pedia que a Holanda negociasse com a Espanha permissão para comércio e estabelecimento em áreas não ocupadas da América, como a Guiana.
No entanto, suas ideias encontraram forte oposição pela facção política liderada por Johan van Oldenbarnevelt, favorável à trégua. A oligarquia mercantil holandesa, concentrada no lucrativo comércio com o Oriente através da VOC, via pouco interesse no arriscado empreendimento que Usselincx propunha.
Embora inicialmente preferisse uma expansão pacífica em áreas não ocupadas, ele já previa que, se necessário, a trégua com a Espanha deveria valer apenas na Europa, permitindo que a Holanda prosseguisse a luta "além da linha equinocial" e, "à ponta de espada", povoasse suas colônias americanas.
A execução, em 1619, do estadista Johan van Oldenbarnevelt, sob a acusação de alta traição, marcou o triunfo definitivo da facção belicista e calvinista radical (os "contra-remonstrantes"), liderada pelo príncipe Maurício de Nassau. Tanto o príncipe, motivado por razões estratégicas e dinásticas, quanto os calvinistas, movidos por um fervor religioso anti-espanhol e anti-católico, ansiavam pela retomada do conflito. Em Madrid, nutria-se a esperança de que um conflito renovado na Europa forçaria os holandeses a concentrar seus recursos no continente, distraindo-os de seus ambiciosos projetos ultramarinos – uma expectativa que os eventos posteriores se encarregariam de desmentir.
Nesse clima de guerra iminente, as propostas há muito defendidas por Willem Usselincx para a criação de uma companhia de comércio no Atlântico foram reexaminadas com urgência. No entanto, com a mudança do cenário político, sua visão foi radicalmente transformada. Após intensos debates entre a oligarquia mercantil, a Companhia das Índias Ocidentais (WIC) foi formalmente constituída por carta-patente em 3 de junho de 1621. A nova companhia, ao contrário da ideia inicial de Usselincx, nasceu com um caráter essencialmente militar-mercantil. Seu objetivo confessado, conforme os termos da concessão, era a "colonização e o comércio mediante a conquista". Modelada em sua bem-sucedida irmã, a Companhia das Índias Orientais (VOC), a WIC subordinava claramente os interesses comerciais aos navais e militares, embora não se resumisse a uma organização de pirataria, mantendo a colonização e o comércio em sua carta de princípios.
A concessão outorgava à WIC, por vinte e quatro anos, o monopólio exclusivo da navegação, comércio e conquista em todas as terras de um lado do Atlântico entre a Terra Nova e o Estreito de Magalhães, e do outro lado, entre o trópico de Câncer e o Cabo da Boa Esperança. No Pacífico, sua esfera se estendia da costa americana à Nova Guiné. Era, nas palavras do historiador Charles Boxer, a resposta protestante holandesa à bula do Papa Alexandre VI que, em 1493, dividira o mundo entre Portugal e Espanha. A estrutura de poder da Companhia foi minuciosamente desenhada para equilibrar interesses regionais e garantir controle oligárquico. Seu capital e administração foram divididos entre cinco câmaras (kamers) regionais, com quotas de ações distribuídas de forma precisa: Amsterdam ficava com quatro nonos; Zeeland (Middelburg) com dois nonos; Maas (Rotterdam) com um nono; a Zona-Norte (Hoorn e Friesland ocidental) com um nono; e Groningen, também com um nono. A administração central cabia aos Heeren XIX (Dezenove Senhores), com dezoito diretores escolhidos entre as câmaras na mesma proporção (oito para Amsterdam, quatro para Zeeland, dois para Maas, dois para a Zona-Norte e dois para Groningen), mais um décimo nono representante dos Estados Gerais.
O financiamento e os incentivos foram bem definidos. Os Estados Gerais concederam um substancial subsídio inicial de um milhão de florins à Companhia, sendo que metade desse valor seria posteriormente repartida entre o próprio governo e os demais acionistas. Em caso de guerra aberta, o governo se comprometia a contribuir com uma esquadra de dezesseis navios e quatro iates, totalmente equipados, com a WIC arcando com sua manutenção e aportando força equivalente. Para atrair investidores, estabeleceu-se que nenhum lucro seria distribuído antes de atingir 10% de retorno sobre o capital investido. Apenas acionistas com contribuições substanciais poderiam aspirar a cargos diretivos: uma subscrição mínima de 6.000 florins era exigida em Amsterdam, e de 4.000 florins nas demais câmaras. Contrariando os desejos democratizantes de Usselincx, o controle efetivo ficou nas mãos dos diretores e, por extensão, das oligarquias urbanas que os nomeavam, consolidando o poder da elite mercantil-calvinista.
Um mito persistente, amplificado por escritores posteriores como Werner Sombart, atribuiu a fundação e o capital das companhias das Índias aos judeus sefarditas, os chamados "marranos" refugiados em Amsterdã. Pesquisas de arquivo, no entanto, desmontaram completamente essa narrativa. Nos registros do capital inicial subscrito pelos cidadãos de Amsterdã para a WIC, que totalizava cerca de 3.000.000 de florins, a contribuição da comunidade judaica foi de apenas 36.000 florins. Desse montante, apenas cinco indivíduos judeus investiram mais de 2.000 florins cada. Mesmo em 1658, em uma lista de 169 grandes acionistas (aqueles com mais de 4.000 florins), apenas onze nomes eram judaicos. A influência decisiva, conforme demonstrado, veio de outro grupo: os calvinistas emigrados dos Países Baixos espanhóis (Flandres, Brabante, Valônia). Refugiados como o próprio Usselincx, Isaac Le Maire, Balthasar de Moucheron, o cartógrafo Petrus Plancius, o historiador Johannes de Laet e o humanista Caspar Barlaeus foram figuras-chave na concepção, defesa intelectual e administração da WIC.
O objetivo da companhia era levar ao Novo Mundo (tal como a sua congênere, a bem-sucedida Companhia Holandesa das Índias Orientais, já fazia na Ásia), a guerra da independência dos Países Baixos, atacando os pontos-chave do Império Espanhol. As possessões portuguesas, segundo se calculava, seriam o calcanhar-de-aquiles, e pensava-se que a Espanha sacrificaria sua própria defesa em benefício da proteção dos seus domínios americanos. Por isso, em 1624-1625, a WIC dedicava ao Brasil o melhor de suas atenções, tentando ocupar Salvador, capital da colônia portuguesa na América, onde, porém, os neerlandeses não obtiveram êxito.
A opção por ocupar Pernambuco era óbvia: D. Diogo de Menezes, governador-geral, escreveria na época à Corte que "no Brasil, não há mais que este lugar de Pernambuco e da Bahia". Eram as chamadas "capitanias de cima", que monopolizavam a produção do açúcar, principal gênero de exportação, e que geravam o excedente fiscal que tornava o Brasil rentável, pois as "capitanias de baixo" eram deficitárias. A Capitania de Pernambuco tornara-se a maior e mais rica área de produção de açúcar do mundo. Mas, mesmo assim, não se pense serem povoadas as capitanias de cima: a ocupação era meramente litorânea, não excedendo uma faixa de 70 quilômetros a partir da costa.