Cristina de Pisano (em francês: Christine de Pizan ou Christine de Pisan, Veneza, 11 de setembro de 1363 — Poissy, c. 1430) foi uma poetisa e filósofa italiana que viveu na França durante primeira metade do século XV. Ela era conhecida por criticar a misoginia presente no meio literário da época, predominantemente masculino, e defender o papel vital das mulheres na sociedade. Foi a primeira mulher francesa de letras a viver do seu trabalho.
Cristina de Pisano tinha quatro anos de idade quando mudou-se com a família para Paris, onde seu pai, Tommaso de Pizzano, foi nomeado secretário do rei Carlos V de França, em 1368 e trabalhou como astrólogo. Em 1380, ela casou com Etinenne de Castel, secretário da chancelaria do rei, com quem teve dois filhos e uma filha. Um evento de grande importância em sua biografia é a morte inesperada de seu marido em 1389, pouco depois do falecimento de seu pai. Uma vez viúva, ela se vê obrigada a encontrar meios para o sustento próprio e de sua família. Cristina começou compondo poesias a partir de 1390, as quais lhe renderam significativa atenção na corte. Em um de seus textos autobiográficos, Le livre de l’Advision Cristine, a personagem Philosophie lembra Cristina que se ela não tivesse ficado viúva, não teria se dedicado aos estudos e à escrita, mas teria se ocupado exclusivamente de responsabilidades domésticas – como era esperado de uma esposa de sua classe social. Convém observar que no período medieval a viuvez entre aristocratas representava um estado de grande liberdade para as mulheres, já que elas podiam decidir não se casar novamente. Ela se tornou autora, editora e publicadora e também se envolveu diretamente na confecção de seus livros: orientava copistas e artistas para ilustrar seus manuscritos, agiu como própria copista, e muito astutamente presenteou compilações dedicadas a potenciais mecenas, buscando com isso segurança financeira e renome. De fato, ela é considerada a primeira mulher escritora profissional no ocidente.
Em 1394, começou a escrever uma obra que seria intitulada Livre des cent ballades (Livro das cem baladas), sob a encomenda das esposas dos príncipes. A obra teve boa aceitação na época. Nela, em forte tom de lirismo melancólico, a autora externa seus sentimentos em relação aos últimos e difíceis tempos que estava vivendo, a ponto de desejar a morte. Mas, o que lhe garantiu a notoriedade alcançada como escritora foram os escritos em resposta ao famoso poema Roman de la rose (Romance da rosa), um dos livros mais populares em toda Europa no século XIII, de cunho misógino, representando as mulheres como nada mais que sedutoras, numa mordaz sátira às convenções do amor cortês. Em 1401, ela iniciou suas obras antimisóginas, criticando o referido poema, que, segundo ela, era infundado e servia apenas para denegrir a função natural e própria da sexualidade feminina. Assim, por criticar a misoginia presente no meio literário da época e defender o papel das mulheres na sociedade, Cristina de Pisano é considerada, ainda hoje, precursora do feminismo moderno.
Dentro desse tema, as duas obras de maior repercussão da autora foram: Livre de la cité des dames (O Livro da Cidade de Senhoras) e Livre des trois vertus (Livro das três virtudes). O Livro da Cidade de Senhoras, foi escrito em 1405, em 03 livros, dividido em 138 capítulos e foi inspirado em Lamentations (Lamentações), da autoria de Matheolus, uma obra do século XII que provocou grandes inquietações na leitora, conforme ela mesma relata no início de sua obra. Tomando como referência a obra A Cidade de Deus, de Santo Agostinho de Hipona, ainda que para contestar, a escritora descreve uma cidade utópica constituída de mulheres, tendo como exemplos mulheres virtuosas de todos os tempos, que viveram em mundos feitos por e para homens, as quais são reinterpretadas a partir ou em proveito das mulheres. Recorrendo às origens, Cristina redefine alguns mitos, e transforma a sua obra em uma verdadeira enciclopédia de mitos femininos, criando versões alternativas para algumas das imagens deturpadas do feminino presentes na literatura. Assim, mitos históricos, mitos cristãos – em particular, o mito da origem, o mito do pecado original - e figuras míticas, legendárias da mitologia clássica e da Bíblia, encontraram nova roupagem nas versões narradas pela autora nesse livro.
A escritora italiana viveu em um momento político especialmente turbulento, marcado por disputas de lideranças na monarquia e no papado. Em meio à Guerra dos Cem Anos, quando a França foi devastada pelo cerco dos ingleses, e eclodiu o conflito resultante da disputas de poder entre Armagnacs e Borguinhões (1407 – 1435), além das instabilidades causadas pelo Grande Cisma do Ocidente, crise religiosa marcada pela eleição de dois papas (um em Avinhão e outro em Roma), ambos reclamando para si o poder sobre a Igreja Católica. A considerável quantidade de tratados de natureza política escritos por Cristina de Pisano é certamente explicada pela sua presença na corte Valois e pelas suas reações diante desse contexto de profunda instabilidade política.
Ela se retirou da corte parisiense em 1418, em decorrência da guerra civil, e se abrigou em um convento em Poissy, onde praticamente abandonou a atividade literária, exceto pela escrita de um poema celebrando a vitória dos franceses sobre os ingleses sob a liderança de Joana d'Arc, em 1429. Acredita-se que Pisano morreu um pouco antes da condenação de Joana d’Arc em 1431.
Contexto cultural e intelectual
Cristina de Pisano gozou de considerável reputação em vida e seu lugar no cânone da literatura ocidental está assegurado – o que ainda não é o caso em relação ao cânone filosófico. Com efeito, avaliar a pertinência dos seus escritos para a compreensão da atividade filosófica dessa época implica levar em conta as condições singulares em que esta escreveu, e isso inclui notadamente a distinção sociocultural entre o meio laico e o meio clerical. Enquanto mulher, ela esteve necessariamente excluída do meio clerical e, ao mesmo tempo, não pode ter acesso a uma educação formal universitária. Ela pertenceu ao meio intelectual e cultural que se desenvolveu na corte de Carlos VI, onde conviveu e debateu com nomes centrais do nascente pensamento humanista francês (como Jean Gerson, Jean Montreuil e Gontier Col). De modo geral, era muito incomum que mulheres desenvolvessem a prática da escrita na Idade Média fora dos contextos monásticos, onde a educação religiosa vinha acompanhada de certa instrução. Cabe notar que esse fato se reflete na iconografia da época, onde são raras as representações de mulheres autoras ou como autoridades intelectuais. Nesse sentido, as ilustrações de Cristina de Pisano estudando entre os livros, escrevendo e discutindo com homens em nítida posição de autoridade são surpreendentes e pouco comuns. Em seu autobiográfico Le livre de Mutacion de Fortune (1403) ela descreveu uma alegoria intrigante: após a morte de seu marido, uma transformação dramática faz-se necessária – ela é transformada pela Fortuna em um homem, que agora possui força suficiente para conduzir a embarcação que representa sua existência. Mais que uma mera construção literária, tal metamorfose reflete uma realidade social, na medida em que escrever e viver de sua escrita, especialmente sobre assuntos de natureza teórica e política, são atividades percebidas como masculinas. Tal relato se vale de um topos literário (virago) para reclamar a mesma autoridade de um homem.
O fato de Cristina ser filha de um membro da corte de Carlos V fez com que fosse educada através de tutoria – como era recorrente entre jovens aristocratas. Além disso, teve acesso à famosa Biblioteca Real da França, a qual contava com mais de 900 volumes em seu catálogo, entre obras centrais das tradições política, religiosa e filosófica. De fato, as evidências documentadas do seu conhecimento de obras filosóficas são vastas. Por exemplo, no Livre des faits et bonnes moeurs du sage Roy Charles V (1404), Cristina escreveu um espelho dos príncipes (espécie de guia moral para o soberano) em resposta ao Livre du gouvernement des Princes de Gilles de Rome, onde encontra-se referências à Ética à Nicômaco de Aristóteles (na tradução de Oresme). No Livre de l’advision Cristine (1405), Ela se inspirou na Consolação da Filosofia de Boécio, mostrando conhecimento detalhado do De trinitate de Agostinho e de diversas obras de Aristóteles, bem como longas citações do Comentário de Tomás de Aquino à Metafísica de Aristóteles, traduzidas provavelmente pela própria autora do latim.