David José, nome artístico de José Lessa Mattos Silva (São Paulo, 21 de fevereiro de 1942 – São Paulo, 6 de outubro de 2025), foi um ator, jornalista, roteirista, escritor e historiador brasileiro, também conhecido no meio universitário e literário como David José Lessa Mattos.
David José inicia a carreira artística em 1954, aos 12 anos de idade, na TV Tupi-Difusora de São Paulo, primeira emissora de televisão do país inaugurada em 1950. Durante 5 anos, de 1955 a 1959, interpreta o personagem Pedrinho no seriado Sitio do Picapau Amarelo, na primeira versão para televisão da obra de Monteiro Lobato. Cerca de 30 anos de sua vida foram dedicados a trabalhos no cinema, teatro e televisão, atuando como ator, roteirista e diretor. Outra parte de sua vida esteve ligada aos estudos, à pesquisa acadêmica e às atividades docentes. Formou-se em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, obteve a licença em Sociologia na Universidade de Paris VIII-Vincennes, o mestrado em Sociologia da Cultura na Universidade de Paris X-Nanterre e o doutorado em Historia Social na Universidade de São Paulo.
David José nasce em São Paulo, em fevereiro de 1942. É o terceiro filho do sergipano José Moura Mattos Silva e da baiana Antônia Lessa da Silva, casal que deixa a cidade de Alagoinhas, na Bahia, e vem para São Paulo com seus filhos Milton e Raimundo, os dois irmãos mais velhos de David. Seu irmão caçula, Antônio, nascerá em São Paulo dois anos mais tarde, em 1944.
O pai de David, José Moura Mattos Silva, era filho único de Idália de Moura Mattos Silva e de Eduardo José da Silva, professores portugueses de letras, fundadores de importante colégio de ensino fundamental e médio na cidade de Aracaju, estado do Sergipe. Antônia Lessa da Silva, sua mãe, era a caçula de três irmãs filhas de Augustinha Lessa de Cerqueira e de Roberto Cerqueira, casal que vivia na fazenda do Curralinho, no interior da Bahia. Em 1919, por iniciativa do jurista Pedro Augusto Carneiro Lessa, ela é levada para Salvador com apenas 4 anos de idade, logo após a morte de Augustinha Lessa de Cerqueira, sua mãe. Em Salvador, é acolhida na influente família Mário Cravo e nela viverá até seus 16 anos. Durante toda a vida, ela guardou uma pequena fotografia de Pedro Lessa, já idoso e barbudo, dizendo que ele era seu avô. Lembrava sempre, com orgulho, que ganhou uma nota de cinco mil réis do ilustre jurista Ruy Barbosa, quando ele e Pedro Lessa a levaram a um teatro em Salvador, e que guardou esse dinheiro por muitos anos. Dizia ainda que, quando criança, também conheceu o jurista Nelson Carneiro e que ele era seu primo. Entretanto, esses relatos da mãe de David nunca puderam ser confirmados, pois a vida pessoal e familiar de Pedro Lessa não é revelada em suas publicações biográficas, com exceção de seu casamento em São Paulo, na juventude.
David viveu até os 10 anos de idade em Suzano e em Mogi das Cruzes, pequenas cidades bem próximas da capital paulista. Nessa época, seu pai trabalhava como administrador de obras numa companhia de engenharia que construía túneis da estrada de ferro Central do Brasil. Em Mogi das Cruzes, David cursou até o terceiro ano primário na escola municipal, sendo aluno da professora Silvia Mafra Machado. Como gostava de música e estudava piano, costumava participar como cantor de todas as festas de fim de ano do grupo escolar, seguindo o gosto de seu pai por ópera e canto lírico. Ao mesmo tempo, levava uma vida de moleque do interior, pé no chão empinando papagaio ou pipa, jogando bolinha de gude, disputando com a molecada rodadas de pião enrolados em fieiras e jogando futebol, pois era bom de bola e praticou esse esporte até a juventude.
Em 1953, seus pais retornam à cidade de São Paulo e vão morar numa chácara perto do bairro de Santo Amaro, não longe da represa de Interlagos. Seu pai passa a administrar a Cerâmica Angelina, instalada na região e pertencente à família Giobbi. David vai estudar em Santo Amaro, no Colégio Doze de Outubro do Prof. Remo Rinaldi Naddeo. Permanece lá até 1957, e termina o antigo curso ginasial no Liceu Tiradentes, colégio que ficava próximo do Sumaré, bairro para onde sua família havia se mudado. Em 1959, matricula-se no Curso Clássico do Colégio Paes Leme. Em 1962, inscreve-se no cursinho do grêmio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP) e se prepara para o vestibular do Curso de Ciências Sociais. É aprovado e, em 1968, terminada a graduação, vai estudar em Paris, na França, com uma bolsa de estudos oferecida pelo Governo Francês.
1954-1960: Teatro Escola de São Paulo (TESP)
No fim do ano de 1953, voltando da escola na hora do almoço e caminhando por uma estrada de terra deserta perto da chácara onde morava, David se encontra com atores da TV Tupi-Difusora. Ele conhecia a maior parte deles, pois havia um aparelho de TV em sua casa desde o início da televisão, em 1950. Do grupo de artistas faziam parte o diretor Jota Silvestre, os atores Lima Duarte e Dionísio Azevedo, e as atrizes Lia de Aguiar e Flora Geny. Eles participavam de uma filmagem externa em 16mm, sem áudio, criando cenas para o famoso programa de teleteatro da emissora, o TV de Vanguarda, lançado em 1952 por Walter George Durst, Cassiano Gabus Mendes e Dionísio Azevedo.
David fica fascinado vendo os atores representarem, tudo parecendo uma grande brincadeira. E quando ouve as atrizes Lia de Aguiar e Flora Geny dizerem que estavam com fome, ele se oferece a ir até sua casa buscar frutas para elas. Pouco tempo depois, ele, sua mãe e seus irmãos trazem para os artistas um cesto cheio de abacates, goiabas e jabuticabas.
Nesse dia, principalmente Lia de Aguiar e Lima Duarte puxam conversa com ele, que lhes conta que já tinha subido no palco do Cine Odeon, em Mogi das Cruzes, nos shows de fim de ano do grupo escolar. Os dois deixam um número de telefone com sua mãe, dizendo que poderiam apresentá-lo ao médico Júlio Gouveia que, com sua mulher Tatiana Belinky, havia criado o Teatro Escola de São Paulo (TESP) e realizava espetáculos de teatro infanto-juvenil na TV Tupi-Difusora.
O encontro de David com Júlio Gouveia acontece nesse mesmo ano de 1953, pouco antes do Natal. Três meses depois, ele é chamado a participar do Teatro da Juventude, programa de teleteatro infanto-juvenil da TV Tupi-Difusora, com cerca 1 hora e meia de duração, produzido pelo TESP e levado ao ar aos domingos às 10 horas da manhã.
No dia 4 de abril de 1954, aos 12 anos de idade, David estreia no Teatro da Juventude, em As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, no papel do menino Ben Rodgers. Participavam do elenco Sérgio Rosemberg (Tom Sawyer), Lúcia Lambertini (Tia Polly), Ferruccio Betti (Sid) e também Suzy Arruda e José Serber, entre outros. Ele permanecerá vinculado ao TESP durante toda a sua adolescência, atuando no Teatro da Juventude, no Sítio do Picapau Amarelo e em diversos seriados do programa Fábulas Animadas.
Em dezembro de 1954, o TESP lança às quintas feiras, por volta das19h30, o seriado Pinóquio, baseado na obra de Carlo Collodi. Paulo Basco interpreta o boneco de madeira, José Serber, o velho Geppetto e, David, o Grilo Falante. No final de 1955, contracenando com a menina Verinha Darcy, David está no papel do menino das cabras no seriado Heidi, uma adaptação da obra da escritora suíça Johanna Spyri.
No segundo semestre de 1955, ele passa a ser o Pedrinho do Sítio do Picapau Amarelo, personagem que representa durante quase 5 anos, até janeiro de 1960, ao lado de Lúcia Lambertini (a boneca de pano Emília), Edy Cerri (Narizinho) e Hernê Lebon (Visconde de Sabugosa).
Em 1956, com Adriano Stuart, Sílvio Boraks, Urânio Benatti, Antônio Moura Mattos e outros, David é um dos meninos perdidos da floresta no seriado Peter Pan, adaptado da obra de James M. Barrie e estrelado por Edi Cerri, Ainda em 1956, o TESP volta a apresentar em capítulos semanais, no Teatro da Juventude, As Aventuras de Tom Sawyer e, também, As Aventuras de Huckleberry Finn do mesmo Mark Twain. Dessa vez, David é o próprio Tom Sawyer, contracenando com Lúcia Lambertini (tia Polly), o menino João Manuel (Huck), Hernê Lebon (Injun Joe) e com a menina Verinha Darcy no papel de Becky, a namoradinha de Tom na escola dominical.