O cerco de Jerusalém em 70 d.C. foi o evento decisivo da Primeira Guerra Judaico-Romana (66–73 d.C.), uma importante rebelião contra o domínio romano na província da Judeia. Lideradas por Tito, as forças romanas sitiaram a cidade, que havia se tornado o reduto da resistência judaica. Após meses de conflito, os romanos romperam as defesas da cidade, culminando na destruição do Segundo Templo, no arrasamento da cidade e na matança em massa, escravização e deslocamento de seus habitantes. O cerco marcou o fim efetivo da revolta judaica e teve profundas implicações políticas, religiosas e culturais para o povo judeu, bem como consequências históricas mais amplas.
No inverno de 69/70 d.C., Tito liderou uma força de aproximadamente 50 000 soldados, incluindo quatro legiões e tropas auxiliares, na Judeia. Na primavera, esse exército circundou Jerusalém, cuja população havia aumentado com peregrinos da Páscoa (Pessach) e refugiados de toda a província. A cidade, já enfraquecida por lutas internas entre facções rivais lideradas por João de Giscala, Simão bar Giora e Eleazar ben Simão — que haviam assumido o controle após o colapso do governo rebelde moderado — foi isolada do suprimento de mantimentos, deixando seus habitantes à mercê da fome e de doenças. Apesar da forte resistência dos defensores, os romanos romperam as muralhas, forçando a concentração dos defensores no complexo do templo.
No mês de Av durante o verão, as forças romanas romperam o Monte do Templo e destruíram o Segundo Templo — um evento lembrado anualmente na tradição judaica no dia de jejum de Tisha B'Av. Os romanos acabaram por capturar toda a cidade, sufocando a resistência remanescente e infligindo um pesado tributo à população, com dezenas de milhares mortos, escravizados ou executados. A cidade foi destruída sistematicamente, restando apenas as três torres da cidadela herodiana como símbolo de sua antiga grandiosidade. Um ano depois, a vitória romana foi celebrada com um grande triunfo em Roma, durante o qual centenas de cativos foram exibidos ao lado dos despojos do templo, incluindo a menorá. Estruturas monumentais, como o Arco de Tito — que ainda permanece de pé na cidade — foram erguidas para comemorar a conquista.
A destruição de Jerusalém e do templo representou um grande marco na história judaica, trazendo consequências profundas que remodelaram a cultura, a religião e a identidade judaicas. Com a destruição do templo, o culto judaico se adaptou, dando origem ao Judaísmo rabínico, que enfatizou a oração, o estudo da Torá e os encontros em sinagoga em substituição aos rituais de sacrifício antes realizados no templo. A queda de Jerusalém também desempenhou um papel importante no desenvolvimento do Cristianismo primitivo, à medida que o movimento se distanciava cada vez mais de suas raízes judaicas. Após a guerra, a Legio X Fretensis estabeleceu um acampamento militar sobre as ruínas de Jerusalém. Algumas décadas depois, os romanos refundaram a cidade como a colônia de Aelia Capitolina, dedicando-a a Júpiter e extinguindo as esperanças judaicas de restauração do templo. Esse evento preparou o cenário para outra grande revolta judaica — a Revolta de Bar Kokhba.
Ao longo dos séculos anteriores ao cerco, Jerusalém serviu como o centro religioso e nacional do povo judeu, tanto para aqueles na Judeia quanto para a ampla Diáspora judaica. À época da revolta judaica, a cidade havia atingido seu auge em tamanho e população, tornando-se uma das maiores cidades do Oriente romano. Com cerca de 450 acres (1 800 dunams), quase o dobro do tamanho da atual Cidade Antiga, estima-se que Jerusalém abrigava dezenas de milhares de habitantes, com estimativas variando de 25 000 a mais de 150 000.
No centro de Jerusalém erguia-se o Segundo Templo, foco do culto e da identidade nacional judaica. Ele sucedera o Templo de Salomão, destruído pelos babilônios em 586/7 a.C., e foi reconstruído no final do século V a.C. durante o Retorno a Sião. No século I a.C., Herodes (r. 37–4 a.C.) expandiu e renovou o templo, transformando-o em um dos maiores santuários do mundo antigo.
Os escritos de historiadores greco-romanos atestam a importância e o esplendor de Jerusalém. O historiador grego do século II a.C. Políbio descreveu os judeus como uma nação que vivia em torno de um templo chamado Jerusalém, enquanto Tácito — historiador romano do século I d.C. — escreveu que “Jerusalém é a capital dos judeus. Nela havia um templo possuindo enormes riquezas.” Fontes judaicas também celebram a grandiosidade da cidade e de seu templo. Uma tradição rabínica diz: “Não há beleza como a beleza de Jerusalém,” enquanto outra declara: “Aquele que não viu Jerusalém em seu esplendor nunca viu uma cidade bela em toda a sua vida. Aquele que não viu o Templo em sua plena construção nunca viu um prédio glorioso em sua vida.” O escritor romano Plínio, o Velho descreveu Jerusalém, à época de sua destruição, como “de longe a mais famosa das cidades do Oriente.”
Durante as Três Festas de Peregrinação do judaísmo — Pessach, Sucot (Tabernáculos) e Shavuot (Semanas) — a população de Jerusalém crescia consideravelmente, pois dezenas de milhares de visitantes da Judeia e do exterior viajavam até a cidade para cumprir rituais religiosos no templo. Um imposto anual de meio shekel era recolhido de adultos judeus na Judeia e na diáspora para o templo. O constante fluxo de peregrinos contribuía para a prosperidade econômica e a proeminência da cidade.
Jerusalém dividia-se em vários distritos distintos, incluindo a “cidade baixa”, uma área densamente povoada; a “cidade alta”, um bairro rico habitado pela elite de Jerusalém, incluindo famílias sacerdotais; e o Monte do Templo, coração religioso e político da cidade. A localização estratégica de Jerusalém, ladeada pelo Vale do Cédron a leste e pelo Vale de Hinom ao sul, fornecia barreiras naturais que dificultavam ataques diretos. Complementando essas defesas naturais, havia uma série de muralhas fortificadas, construídas e ampliadas ao longo da história da cidade. A primeira muralha, erguida no século II a.C. pelos primeiros reis hasmoneus sobre as fundações de uma muralha anterior construída pelos reis do Judá, cercava tanto a cidade baixa quanto a alta, formando o núcleo de Jerusalém. À medida que a cidade crescia, foi erguida a segunda muralha mais ao norte, estendendo a proteção a bairros e distritos comerciais mais recentes. Nas décadas anteriores à revolta, a cidade expandiu-se ainda mais para o norte, motivando a construção de uma terceira muralha. Essa muralha, iniciada pelo rei Herodes Agripa (r. 41–44), pretendia cercar o novo subúrbio setentrional de Bezeta, mas suas obras foram interrompidas pelo imperador Cláudio por temor de uma revolta judaica ou devido à morte de Agripa. No entanto, após o início da revolta em 66 d.C., rebeldes judeus concluíram às pressas a terceira muralha para proteger a cidade contra o iminente ataque romano. Devido a sua construção apressada, a terceira muralha era mais fraca que as anteriores, deixando um ponto vulnerável que os romanos explorariam durante o cerco.
Além de suas muralhas, Jerusalém possuía várias estruturas fortificadas que desempenharam papéis cruciais em sua defesa. Herodes reforçou as fortificações da cidade com extensos complexos defensivos, muitos ainda intactos à época da revolta. No canto noroeste do Monte do Templo, ele construiu a Fortaleza Antônia, um reduto militar com vista para a área do templo, ponto estratégico fundamental. Na cidade alta, o Palácio de Herodes era outro complexo fortificado, cercado por muralhas e protegido por três torres: Fasael, Hipico e Mariamne. Localizado nessa área, o Palácio Hasmoneu também se destacava.
As defesas naturais de Jerusalém eram enfraquecidas por sua dependência de alimentos importados, pois a agricultura local não bastava para sustentar sua população; por isso, a cidade dependia de suprimentos vindos da Judeia, Samaria, Galileia e outras regiões. Durante a guerra, essa dependência aumentou devido à chegada de refugiados e insurgentes, tornando a cidade ainda mais vulnerável à fome. O abastecimento de água na cidade vinha de grandes piscinas que coletavam água da chuva e canais que a traziam de fontes como a Fonte de Giom, enquanto um sistema de aquedutos levava água adicional das proximidades de Belém.