Edison de Souza Carneiro (Salvador, 12 de agosto de 1912 — Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1972) foi um escritor, folclorista, antropólogo, etnólogo e historiador brasileiro, especializado em temas afro-brasileiros. Foi um dos maiores etnólogos brasileiros, comprometido com os estudos sobre a cultura afro-brasileira e as heranças africanas no Brasil. Foi militante do Partido Comunista do Brasil (PCB) a partir da década de 1930.
As pesquisas e atuação intelectual de Edison Carneiro nos estudos afro-brasileiros também colaboraram para a consolidação das ciências sociais no país, juntamente com Arthur Ramos, Nina Rodrigues, Gilberto Freyre e tantos outros intérpretes do país. A autoridade construída e o reconhecimento pelos pares possibilitaram que atuasse na construção de espaços dedicados a essas discussões com a comunidade intelectual e a sociedade civil, como II Congresso Afro-Brasileiro (1937), União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia (1937) e o I Congresso do Negro Brasileiro (1950).
Edison Carneiro era filho de Antonio Joaquim Souza Carneiro, engenheiro e professor da Escola Politécnica da Bahia, e da dona de casa Laura Coelho de Souza Carneiro. Um núcleo familiar formado por mestiços e que desempenharam papeis relevantes no contexto cultural e político baiano e do país, como o envolvimento com as eleições para presidente de 1930. Seu irmão, o jornalista Nelson de Souza Carneiro, foi deputado federal, senador e presidente do Congresso Nacional entre os anos de 1960 e 1990, tendo como uma de suas principais bandeiras políticas a defesa do divórcio no Brasil. É tio da deputada federal Laura Carneiro, filha de Nelson.
Estudou no Ginásio da Bahia, uma das mais importantes instituições de ensino secundário da capital. Ingressou, posteriormente, na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia em 1931, onde colou grau no dia 24 de outubro de 1935. Sua vida estudantil foi intensa devido às participações na organização de agremiações e no Movimento Estudantil do estado.
Junto a Jorge Amado e outros estudantes baianos, atuou na agremiação literária Academia dos Rebeldes, liderada João Amado Pinheiro Viegas, criada em 1928. Um grupo que se propunha renovar o cenário intelectual baiano a partir de uma leitura crítica da realidade da Bahia e do país, especialmente sobre a população negra. O grupo era crítico ao movimento modernista do eixo Rio-São Paulo, por entender que esse movimento não promovia uma compreensão profunda das regiões do país.
Militância e atuação intelectual
Junto ao escritor e jornalista Aydano do Couto Ferraz e ao escritor Reginaldo Guimarões organizou do II Congresso Afro-Brasileiro, ocorrido em Salvador, em 1937. A sessão de abertura do evento ocorreu no salão nobre do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), sob a presidência do babalô Martiniano Eliseu do Bonfim, no dia 11 de janeiro de 1937. O congresso fez dialogar intelectuais, profissionais liberais e sociedade civil sobre os problemas que afetavam a população negra, como perseguição policial aos terreiros de candomblé, negação ao acesso à saúde e educação, exploração dos trabalhadores negros e liberdade religiosa. Ao contrário do I Congresso Afro-Brasieiro, organizado por Gilberto Freyre em 1934, em Recife, o povo esteve representado por figuras como os capoeiristas, líderes religiosos do Candomblé, sambadeiras, empresários, intelectuais e trabalhadores. A importância das pautas discutidas e a participação de diferentes comunidades no congresso, insejou a criação da União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia, como resultado das discussões sobre a intolerância religiosa na Bahia e a perseguição policial pelo estado, e do Centro de Cultura Física e Capoeira Regional da Bahia, a partir do requerimento de Manoel dos Reis Machado, o Mestre Bimba.
A participação de Edison Carneiro foi fundamental na organização do I Congresso do Negro Brasileiro, ocorrido no Rio de Janeiro, em 1950, e no qual contou com a colaboração de Abdias do Nascimento e Alberto Guerreiro Ramos. O evento foi uma iniciativa dos intelectuais e artistas do Teatro Experimental do Negro (TEN), e se constituiu como espaço de discussão das teses de Roger Bastide, Oracy Nogueira, Luiz de Aguiar Costa Pinto, além dos próprios organizadores. Assim como o congresso de Salvador, esse também contou com ampla participação popular, especialmente da população negra. O evento discutiu aspectos relacionados à participação da população negra em momentos históricos importantes e debateu o racismo enfrentado pelas pessoas negras no Brasil, se constituindo como espaço de empoderamento e criação de estratégias para combater a discriminação racial e permitir a inserção do negro no mercado de trabalho.
No âmbito da política, Edison Carneiro desenvolveu diversas atividades quando vinculado ao PCB. Além do Movimento Estudantil, foi o intelectual do partido responsável por desenvolver pesquisas para refletir sobre as condições de vida enfrentadas pelos trabalhadores negros no Brasil. Em sua participação no I Congresso Afro-Brasileiro, defendeu no artigo Situação do negro no Brasil que os trabalhadores negros eram explorados e viviam em péssimas condições de moradia. Defendeu ideias como autodeterminação dos negros e direito a constituição de um Estado Negro independente. Esse artigo é o primeiro na esquerda que problematiza raça e classe numa perspectiva marxista, sendo pioneiro e somando-se ao que hoje denominamos de marxismo negro.
Na luta pelo folclore brasileiro, Edison Carneiro foi fundamental na criação do Museu de Folclore Edison Carneiro, sendo por isso que o espaço de preservação e pesquisa leva seu nome.
Edison Carneiro foi presidente de honra de diversas escolas de samba, como escolas de samba Portela, Salgueiro, Mangueira, no Rio de Janeio.
O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), inaugurou no dia 13 de março de 2026, um mural produzido pelo projeto Negro Muro, no terraço do Museu de Folclore Edison Carneiro, na zona sul do Rio de Janeiro.
El-Rey, 1930, 1931 (com Dias da Costa e Jorge Amado. 2º autor);
Religiões negras. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936, 1963, 1981, 1991;
Negros Bantos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1937, 1981, 1991;
O negro no Brasil: trabalhos apresentados ao 2° Congresso Afro-brasileiro (Bahia). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. (com Aydano de Couto Ferraz, orgs.), 1940;
O quilombo dos Palmares, 1947, 1958, 2011;
Trajetória de Castro Alves, 1947, 1958;