Edmund Gustav Albrecht Husserl (alemão: [ˈhʊsɐl]; Proßnitz, 8 de abril de 1859 – Friburgo em Brisgóvia, 27 de abril de 1938) foi um filósofo e matemático alemão fundador da escola da fenomenologia. O pensamento de Husserl influenciou profundamente todo o cenário intelectual do século XX e XXI.
Ele rompeu com a orientação positivista da ciência e da filosofia de sua época e elaborou críticas ao historicismo e ao psicologismo na lógica. Em seu trabalho maduro, ele procurou desenvolver uma ciência sistemática baseada na chamada redução fenomenológica. Argumentando que a consciência transcendental estabelece os limites de todo conhecimento possível, Husserl redefiniu a fenomenologia como uma filosofia transcendental-idealista.
Apesar de ter nascido em uma família de origem judaica, em 1886 Husserl foi batizado como luterano. Ele estudou matemática nos termos de Karl Weierstrass e Leo Königsberger e filosofia a partir das ideias de Franz Brentano e Carl Stumpf. O próprio Husserl ensinou filosofia como Privatdozent (professor não remunerado) na Universidade de Halle-Wittenberg em 1887. Posteriormente, estabeleceu-se como professor, primeiro na Universidade de Gotinga em 1901, depois na Universidade de Friburgo, de 1916 até sua aposentadoria, em 1928. Posteriormente, ele apresentou duas palestras que, mais tarde, tornaram-se memoráveis: uma em Paris, em 1929, e a outra em Praga em 1935. As leis raciais do regime nazista de 1933 tiraram sua situação acadêmica e privilégios. Após sofrer de pleurisia, ele morreu em Friburgo, em 1938.
Nasceu de família judaica em uma pequena localidade da Morávia (região da atual República Checa). Husserl estudou inicialmente matemática nas universidades de Leipzig (1876) e Berlim (1878), seguindo as lições de Karl Weierstrass e Leopold Kronecker. Em 1881, vai a Viena para estudar sob a direção de Leo Königsberger (antigo aluno de Weierstrass), obtendo seu doutorado em 1883, apresentando a tese Beiträge zur Variationsrechnung ("Contribuições ao cálculo das variações").
Formou-se em 1884 em filosofia, na Universidade de Viena. À época, o filósofo Brentano impressionou Husserl, que a partir de então decidiu dedicar sua vida à filosofia. Em 1886, Husserl vai à Universidade de Halle, indicado por Brentano para a habilitação sob a tutoria de Carl Stumpf. Sob a direção de Stumpf, Husserl escreveu Über den Begriff der Zahl ("Sobre o Conceito do Número", 1887) cujos arquivos fornecerão as bases de sua primeira obra importante, Philosophie der Arithmetik ("Filosofia da Aritmética", 1891). Em 1887, Husserl converte-se ao cristianismo e junta-se à Igreja Luterana. Começa ensinando filosofia em Halle como tutor (Privatdozent) em 1887.
Nessas primeiras pesquisas, Husserl tenta combinar matemática com filosofia empírica pela qual tinha sido iniciado em Viena. Seu objetivo central será contribuir no fornecimento de fundações sólidas para a ciência matemática. O tema de seu estudo será a análise dos processos mentais necessários para a formação do conceito de número; baseado em suas próprias análises, bem como nos métodos atípicos de seus professores, tentará projetar a possibilidade de uma teoria sistemática. Em relação ao ensino de Karl Weierstrass, Husserl tenta derivar a ideia de que o conceito de número se obtém por um "desconto" de certas coleções de objetos; em respeito a Brentano-Stumpf, Husserl desenvolve a distinção entre as noções de presentações próprias e impróprias. Temos uma presentação própria quando o objeto está "atualmente" presente (no campo de vista, contexto ou intuição). Imprópria (ou simbólica, como também é referida), se podemos indicá-lo somente através de signos, símbolos etc. Nas Investigações Lógicas, de 1901, a IIIª Investigação foi interpretada como o início da teoria simbólica dos todos e suas partes, também referida como meronímia (um ramo da ontologia formal).
Outro elemento importante herdado por Brentano foi a noção de intencionalidade, que define a forma essencial dos processos mentais. Uma definição simples dirá que a principal característica da consciência é a de ser, sempre, intencional. A consciência sempre é consciência de alguma coisa: a análise intencional e descritiva da consciência definirá as relações essenciais entre atos mentais e mundo externo. Mas, para Brentano, o objetivo era gerar, com métodos empíricos (apoiando-se na introspecção pura), um critério-chave que pudesse caracterizar os fenômenos psíquicos em oposição aos fenômenos físicos, distinção cujo objetivo fora legitimar uma ciência psicológica nova, livre de preconceitos (Psychologie vom empirischen Standpunkt, 1874).
Para Brentano, todo ato mental tem seus conteúdos caracterizados por sua direção a um objeto ("objeto intencional"). Toda crença, desejo, tem, necessariamente, seus objetos: o desejado, o acreditado etc. Brentano usou da expressão "inexistência intencional" para indicar o status, na mente, dos objetos do pensamento. Com a noção de intencionalidade, o filósofo austríaco propôs um conjunto de traços que distinguiriam de maneira perfeitamente empírica os fenômenos psíquicos dos fenômenos físicos: para Brentano, fenômenos físicos não têm intencionalidade. O desenvolvimento e a crítica do conceito brentaniano aparece como o motivo permanente, central, da obra de Edmund Husserl. A principal diferença, em sua interpretação da noção de intencionalidade, aparece na crítica de seu modo inexistente ("inexistência" como existência "interna"): a transcendência necessária da mente e do discurso, a objetividade óbvia e no entanto contraditória do porvir científico e histórico, a objetividade radical, constituidora da subjetividade, formarão a marca do trabalho do primeiro fenomenologista, e seus elementos próprios de fascinação.
Husserl continua em Göttingen como professor em 1901 e, mais tarde, em Friburgo (Freiburg am Breisgau) em 1916.
Alguns anos após a publicação de sua principal obra, as Logische Untersuchungen (Investigações Lógicas; primeira edição, 1900–1901), Husserl elaborou alguns conceitos-chave que o levaram a afirmar que, para estudar a estrutura da consciência, seria necessário distinguir entre o ato de consciência e o fenômeno ao qual ele é dirigido (o objeto-em-si, transcendente à consciência). O conhecimento das essências seria possível apenas se "colocamos entre parênteses" todos os pressupostos relativos à existência de um mundo externo. Este procedimento ele denominou epoché. Estes novos conceitos provocaram a publicação de Ideen (Ideias) em 1913, no qual eles foram, pela primeira vez, incorporados, e um plano para uma segunda edição das Logische Untersuchungen.
A partir de Ideen, Husserl se concentrou nas estruturas ideais, essenciais da consciência. O problema metafísico de estabelecer a realidade material daquilo que percebemos era de pequeno interesse para Husserl (diferentemente do que ocorria quando ele tinha que defender repetidamente sua posição a respeito do idealismo transcendental, que jamais propôs a inexistência de objetos materiais reais). Husserl propôs que o mundo dos objetos e modos nos quais dirigimo-nos a eles e percebemos aqueles objetos é normalmente concebido dentro do que ele denominou "ponto de vista natural", caracterizado por uma crença de que os objetos existem materialmente e exibem propriedades que vemos como suas emanações. Husserl propôs um modo fenomenológico radicalmente novo de observar os objetos, examinando de que forma nós, em nossos diversos modos de ser intencionalmente dirigidos a eles, de fato os "constituímos" (para distinguir da criação material de objetos ou objetos que são mero fruto da imaginação); no ponto de vista Fenomenológico, o objeto deixa de ser algo simplesmente "externo" e deixa de ser visto como fonte de indicações sobre o que ele é (um olhar que é mais explicitamente delineado pelas ciências naturais), e torna-se um agrupamento de aspectos perceptivos e funcionais que implicam um ao outro sob a ideia de um objeto particular ou "tipo".
A noção de objetos como real não é removida pela fenomenologia, mas "posta entre parênteses" como um modo pelo qual levamos em consideração os objetos em vez de uma qualidade inerente à essência de um objeto fundada na relação entre o objeto e aquele que o percebe. Para melhor entender o mundo das aparências e objetos, a fenomenologia busca identificar os aspectos invariáveis da percepção dos objetos e empurra os atributos da realidade para o papel de atributo do que é percebido (ou um pressuposto que perpassa o modo como percebemos os objetos).