Eduardo Hughes Galeano (Montevidéu, 3 de setembro de 1940 – Montevidéu, 13 de abril de 2015) foi um jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de 40 livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Suas obras transcendem gêneros ortodoxos, combinando ficção, jornalismo, análise política e História. Galeano é considerado um dos principais expoentes do Antiamericanismo e Anticapitalismo na América Latina no Século XX.
Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940 em Montevidéu, primeiro dos três filhos de Eduardo Hughes Roosen e de Licia Esther Galeano Muñoz, uma família católica de classe média alta. Seu pai era funcionário do Ministério da Pecuária e bisneto de um inglês dono de uma fazenda de 15.000 hectares em Paysandú. Licia era descendente do primeiro presidente do Uruguai, Fructuoso Rivera.
Na infância, Galeano tinha como certo que se tornaria padre, devido a importância da fé católica em sua vida. Todavia, perdeu a religiosidade aos treze anos de idade, quando afirmou ter perdido Deus. Também tinha o sonho de se tornar um jogador de futebol. Na adolescência, trabalhou em empregos nada usuais, como pintor de letreiros, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco. Abandonou a Escola Erwy Britânica no segundo ano e aos 14 anos, vendeu sua primeira charge política para o jornal El Sol, do Partido Socialista.
Embora nunca tenha retornado à educação formal, continuou a se educar por meio de conversas com a política e historiadora uruguaia Vivian Trías e em conversas e discussões em cafés, especialmente no Café Brasilero, que se tornaria seu favorito e onde se tornaria frequentador assíduo, exceto pelos anos que passou no exílio. Também estudou com o advogado socialista argentino Enrique Broken, que lhe deu aulas particulares. Aos 17 anos, Galeano já havia lido a Bíblia e O Capital.
Aos 19 anos, tentou o suicídio. Depois desse episódio, decidiu se dedicar à escrita. Pediu demissão do emprego de banqueiro e se estabeleceu em Buenos Aires, onde trabalhou para a revista Che, financiada pelo Partido Comunista Argentino e por uma agremiação de diversos grupos progressistas. Retornando a Montevidéu, Galeano iniciou sua carreira jornalística no início da década de 1960 como editor do Marcha, influente jornal semanal que tinha como colaboradores Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti. Durante esse período, passou um tempo na casa do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti. Em 1963, publicou seu primeiro livro, o romance curto "Os Dias Seguintes". Em outubro daquele ano, viajou para a China; ao retornar, escreveu seu primeiro livro de não ficção: "China 1964, Crônica de um Desafio". Entre 1965 e 1973 foi diretor do Departamento de Publicações da Universidade da República. Em 1971 escreveu sua obra-prima As Veias Abertas da América Latina.
Entre o final dos anos 1960 e começo da nova década, Galeano passou uma longa temporada no Rio de Janeiro, e a partir daí ele se tornou um visitante frequente. Seu primeiro texto foi traduzido no Brasil em 1974.
Em 1973, com o golpe militar no Uruguai, Galeano foi preso e depois exilado. Seu livro As veias abertas da América Latina foi censurado pelas ditaduras do Uruguai, Argentina e Chile, por isso foi viver na Argentina, onde fundou a revista cultural Crisis, na qual colaborou com o poeta e jornalista Juan Gelman.
Em 1975, Galeano recebeu o Prêmio Casa de las Américas por seu romance La canción de nosotros. Em 1976, a Argentina também passou pelo golpe militar do general Videla e seu nome foi parar nas listas dos esquadrões da morte. Assim, ele voou para a Espanha, onde escreveu sua famosa trilogia Memória do Fogo (uma revisão da história da América Latina) em 1984, considerada sua maior obra. Durante esses anos, ele passou um período em Estocolmo como parte do tribunal internacional ocupado pela invasão soviética do Afeganistão em 1979. A esse respeito, ele comentou que lhe parecia que um dos momentos culminantes das sessões era quando um alto líder religioso, já idoso, exclamou: "Os comunistas desonraram nossas filhas! Eles as ensinaram a ler e escrever!"
Em 1985, com a redemocratização de seu país, Galeano retornou a Montevidéu, onde viveu até sua morte. Ali, juntamente com Mario Benedetti, Hugo Alfaro e outros jornalistas e escritores que haviam trabalhado para o semanário Marcha, fundou a Brecha, da qual permaneceu membro do conselho consultivo até sua morte. Também escreveu colunas para jornais de outros países. Entre 1987 e 1989, foi membro da Comissão Nacional do Referendo, criada para revogar a Lei de Caducidade da Pretensão Punitiva do Estado, promulgada em dezembro de 1986 para impedir o julgamento de crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura militar em seu país (1973-1985).
O escritor foi casado três vezes: primeiro com Silvia Brando, com quem teve Verónica Hughes Brando; depois com Graciela Berro Rovira, mãe de Florencia e Claudio Hughes Berro; e por fim com Helena Villagra, com quem teve Mariana.
Em 10 de fevereiro de 2007, Galeano passou por uma operação bem-sucedida para tratar câncer de pulmão.
Galeano foi internado dia 10 de abril e morreu próximo das 9h em 13 de abril de 2015, em Montevidéu, de câncer no mediastino, após o tumor provocar metástase. Ele foi cremado e suas cinzas espalhadas no Rio da Prata.
A obra mais conhecida de Galeano é, sem dúvida, As Veias Abertas da América Latina. Nela, analisa a História da América Latina como um todo desde o período colonial até a contemporaneidade, argumentando contra o que considera como exploração econômica e política do povo latino-americano primeiro pela Europa e depois pelos Estados Unidos. A obra recebeu uma menção honrosa do Prêmio Casa de las Américas. O livro tornou-se um clássico entre os membros da esquerda latino-americana.
A autora Isabel Allende, que disse que seu exemplar do livro de Galeano foi um dos poucos itens com os quais ela fugiu do Chile em 1973, após o golpe militar de Augusto Pinochet, chamou Veias Abertas da América Latina de "uma mistura de detalhes meticulosos, convicção política, talento poético e boa narrativa".
Em abril de 2009, o presidente venezuelano Hugo Chávez apresentou uma cópia de As Veias Abertas da América Latina ao seu homólogo americano Barack Obama durante a Quinta Cúpula das Américas realizada em Port of Spain. Isso fez com que o livro se tornasse um best-seller na internet em poucas horas.
Em Brasília, mais de 40 anos após o lançamento da sua mais famosa obra, durante a 2ª Bienal do Livro e da Leitura, Eduardo Galeano admitiu ter mudado de ideia sobre o que escrevera. Disse ele: "'Veias Abertas' pretendia ser um livro de economia política, mas eu não tinha o treinamento e o preparo necessário". Ele acrescentou que "eu não seria capaz de reler esse livro; cairia dormindo. Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é extremamente árida, e meu físico já não a tolera". Essa fala causou alvoroço na imprensa e em adversários de Galeano que logo a tomaram como indício de que o escritor mudara o rumo de suas posições políticas. Numa entrevista posterior, porém, quando questionado em entrevista a Jorge Majfud, publicada no número de Junho de 2014 de Le monde diplomatique, sobre o referido comentário, esclareceu:"O livro, escrito há tanto tempo, continua vivo e saudável. Apenas sou honesto o bastante para admitir que neste ponto de minha vida o velho estilo de escrita me soa por demais pesado, e que é difícil para mim me reconhecer nele, já que prefiro agora ser cada vez mais breve e fluente." E para deixar clara sua posição, conclui: "Isso nada tem a ver com (Mario) Vargas Llosa". Depois de o repórter comentar que tal entrevista estava sendo usada com propósitos ideológicos diametralmente opostos aos de Galeano, este conclui: "[As] vozes que que se levantaram contra mim e contra As veias abertas da América Latina, estão seriamente enfermas e agem de má-fé."Memória do Fogo é uma trilogia da História das Américas. Seus personagens são figuras históricas: generais, artistas, revolucionários, operários, conquistadores e conquistados, retratados em pequenos episódios que refletem o período colonial do continente. Começa com os mitos dos povos pré-colombianos e termina no início da década de 1980. Na obra, Galeano destaca não apenas a opressão colonial, mas também atos individuais e coletivos de resistência. A obra foi aclamada pela crítica literária. Ronald Wright, do suplemento literário do The Times, escreveu que "os grandes escritores dissolveram gêneros antigos e encontraram novos. Esta trilogia de um dos mais ousados e talentosos da América Latina é impossível de classificar".