A décima eleição presidencial do Irã foi realizada em 12 de junho de 2009. Participaram da disputa os quatro candidatos aprovados pelo Conselho dos Guardiães da Constituição: Mohsen Rezaei (Independente), Mehdi Karroubi (Etemad-e-Melli), Mir Hussein Mussavi (Frente Reformista) e o atual presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad (Abadgaran). A principal disputa pelo posto presidencial desdobrou-se entre o presidente conservador e o reformista-conservador Mussavi. Foram as primeiras eleições em que os candidatos participaram de debate ao vivo em televisão.
O presidente do Irã é o mais alto cargo eletivo do país, no entanto, seu titular não tem poder sobre a definição da política externa nem é o chefe das forças armadas. Os candidatos à presidência do país têm de ser aprovados pelo Conselho dos Guardiães, um órgão de doze membros - seis clérigos, selecionados pelo Supremo Guia do Irã (o aiatolá), e seis juristas, propostos pelo chefe do poder judiciário e aprovados pelo parlamento iraniano. A taxa de participação de 85% foi o recorde absoluto.
Com 62,6% dos votos no primeiro turno, a Comissão Eleitoral Iraniana declarou em 13 de junho Mahmoud Ahmadinejad vencedor da eleição. Após o anúncio dos resultados, Mussavi recusou-se a reconhecer a vitória oficial de Ahmadinejad e milhares de partidários do principal candidato da oposição saíram às ruas para protestar na capital Teerã e outras cidades iranianas. Durante as manifestações, que ocorreram em diferentes dias, houve confrontos entre manifestantes e as forças de segurança iranianas que resultaram, segundo números oficiais, em ao menos 20 mortos. Também foram presos membros de alguns partidos da oposição. Os protestos por conta da eleição de 2009 configuraram-se em um dos mais intensos desde a Revolução Iraniana de 1979, que derrubou a ditadura do xá Reza Pahlevi. O aiatolá Ali Khamenei rejeitou denúncias de fraude e exigiu que a oposição reconheça o resultado oficial.
A União Europeia e vários países ocidentais expressaram preocupação sobre supostas irregularidades ocorridas na apuração, e alguns analistas e jornalistas dos Estados Unidos e da Europa levantaram dúvidas sobre a autenticidade dos resultados. Entretanto, muitos Estados-membros da Organização da Conferência Islâmica, assim como a Rússia, a China, a Índia e o Brasil reconheceram a vitória Ahmadinejad como legítima.
Durante a campanha, Mahmoud Ahmadinejad, era favorito na zona rural e teve o apoio dos setores mais conservadores, tais como o Exército e a Guarda Revolucionária. Mir Hossein Mousavi, o candidato reformista, conseguiu atrair principalmente os jovens, as mulheres e a população urbana.
Poucos dias antes do pleito, em 1º de junho, o comitê de campanha de Mousavi em Qom, a 156 km ao sudoeste de Teerã, foi atacado. Nenhum grupo reivindicou a autoria do atentado. Ao mesmo tempo, houve denúncias de uma tentativa de assassinato do ex-presidente reformista Mohammad Khatami (1997-2005). Uma bomba teria sido colocada no avião em que Khatami viajava.
Pela primeira vez, os debates entre candidatos foram televisionados no Irã. Entre 2 e 8 de junho, todas as noites, os candidatos se defrontaram, dois a dois, durante aproximadamente uma hora e meia. No debate de 3 de junho, Mussavi e Ahmadinejad trocaram acusações, diante de uma audiência de mais de 40 milhões de pessoas.
Mussavi afirmou que o presidente mentira sobre os dados da economia para esconder a inflação e a incompetência para administrar o país. Ahmadinejad criticou os aliados do opositor - como os ex-presidentes Mohammad Khatami (1997-2005) e Akbar Rafsanjani (1989-1997), o qual acusou de corrupção e enriquecimento ilícito.
Rafsanjani é o atual líder do Conselho de Discernimento e da Assembleia dos Especialistas, além de ser considerado o homem mais rico do país. Muitos iranianos acreditam que as acusações possam ser verdadeiras, mas, pelo modo como foram feitas por Ahmadinejad, causaram escândalo. Mussavi, por sua vez, acusou Ahmadinejad de isolar o país internacionalmente, ao negar o holocausto dos judeus. Todos os concorrentes, no entanto, concordavam em manter o programa nuclear iraniano, com fins de produção de energia.
Em 9 de junho, Rafsanjani reagiu às acusações de Ahmadinejad com uma carta aberta ao Líder Supremo, o aiatolá Ali Khamenei, pedindo que ele censurasse Ahmadinejad pelos comentários “infundados e irresponsáveis” feitos durante o debate.
O ultraconservador Ahmadinejad conquistou a vitória no primeiro turno, obtendo cerca de 2/3 dos votos, seguido de longe pelo segundo colocado, o reformista Mir Hossein Moussavi. Os outros dois candidatos - o conservador independente Mohsen Rezaei e o clérigo reformista Mehdi Karubi, do Etemad-e-Melli (Partido da Confiança Nacional) - tiveram votação inexpressiva.
O especialista em história moderna do Oriente Médio e do Sul da Ásia, Juan Cole, da Universidade de Michigan, aponta algumas anomalias nos resultados das eleições. Por exemplo: Ahmadinejad venceu na cidade de Tabriz, a capital da província natal de Mousavi, o Azerbaijão Oriental, com 57% dos votos. Ahmadinejad também venceu em Teerã, com mais de 50% dos sufrágios, ainda que sua popularidade nas cidades maiores seja considerada baixa. Ao mesmo tempo, Karroubi, o outro candidato reformista, recebeu menos de 1% dos votos, sendo que havia obtido 17% no primeiro turno das eleições presidenciais de 2005. Karroubi também perdeu na sua província natal, quando, tradicionalmente, o voto dos iranianos tem forte correlação com a origem étnica.
No Irã, a votação é manual, assim como a contagem de votos. Causou estranhamento, portanto, o fato de as apurações terem sido concluídas em poucas horas, quando na eleição anterior foram necessários vários dias até que o vencedor fosse conhecido.
Ali Akbar Mohtashami-Pur, antigo ministro do interior do Irã, que participou do comitê de Mousavi no monitoramento da eleição, disse que o número de votos contados em 70 municipalidades era maior que o número de eleitores informado pelo censo oficial. Em todas essas cidades, Ahmadinejad teve entre 80% a 90% dos votos.
O candidato conservador independente, Mohsen Rezaei, afirmou ter evidências de que pelo menos 900 000 iranianos - com base nas carteiras de identidade - teriam votado nele. Oficialmente ele obteve apenas 681 851 votos.
Em 16 de junho, o Conselho de Guardiães informou que, em atendimento ao pedido do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, faria a recontagem dos votos das urnas em que os candidatos derrotados suspeitam ter havido fraude.
Segundo relato publicado pelo jornal francês Libération, na tarde do escrutínio, por volta das 17 horas, os milicianos Basij tomaram o controle dos terminais de totalização do Ministério do Interior, expulsando os funcionários que ali trabalhavam. Um funcionário do ministério avisou os reformistas e informou os resultados da eleição, que teriam sido favoráveis a Moussavi, com pouco mais de 19 milhões de votos (de um total de 42 milhões). O segundo colocado teria sido o clérigo reformista Mehdi Karroubi, com mais de 13 millhões. Ahmadinejad teria ficado na terceira posição, com pouco menos de 6 milhões de votos, e o quarto candidato, Mohsen Rezaï, em último lugar, com pouco menos de 4 milhões de votos. Avisado de que teria vencido a eleição, Moussavi imediatamente se proclamou vitorioso, sendo rapidamente desmentido por Ahmadinejad e pelo Líder Supremo, Ali Khamenei. Segundo o mesmo relato, o funcionário do ministério teria sido preso no dia seguinte. Os bassij também teriam feito desaparecer uma parte das urnas, o que explica por que os resultados por cidade e por região não foram divulgados. A agência oficial IRNA teria substituído os resultados faltantes por números "tirados da cartola", chegando a afirmar que Moussavi, Karoubi e Rezai tinham sido derrotados em suas próprias cidades.
Em 22 de junho (hora local), o Conselho de Guardiães admitiu que nas eleições do dia 12 de junho foram cometidas irregularidades nas votações, segundo informação do site do canal estatal de televisão "Press TV". O Conselho reconheceu que, em 50 cidades, o número de votos foi maior que o número de eleitores inscritos, o que significa mais de 3 milhões de votos. Segundo o Conselho, as irregularidades foram encontradas entre as 170 cidades indicadas pelo candidato Mohsen Rezai como problemáticas.