Emil Mihai Cioran (Rășinari, 8 de abril de 1911 — Paris, 20 de junho de 1995) foi um escritor e filósofo romeno radicado na França.
Em 1949, ao publicar "Précis de decomposition", passa a assinar E.M. Cioran, influenciado por E.M. Forster — esse "M" não tem nenhuma relação com outros nomes do filósofo (como Michel, Mihai, etc.)
Um dos melhores conhecedores da obra de Cioran é o filósofo espanhol Fernando Savater, e um de seus mais importante livros adentrando no pensamento dele é Ensayo sobre Cioran, de 1974. Ambos eram próximos, e o livro termina numa entrevista com o filósofo romeno, mostrando um pouco de seu lado pessoal.
Cioran nasceu em 1911, em Rășinari, Condado de Sibiu na Transilvânia, parte do território austro-húngaro na época. Seu pai, Emilian Cioran, era um padre ortodoxo romeno, enquanto a mãe, Elvira Cioran (sobrenome materno: Comaniciu) era originária de Veneţia de Jos, um povoado da comuna de Părău, próximo a Făgăraş. O pai de Elvira, Gheorghe Comaniciu, era tabelião e ganhou o título de barão pelas autoridades imperiais. Assim, pode-se dizer que Emil Cioran, em virtude da linhagem materna pertencia a uma pequena família de nobres na Transilvânia.
Após estudar ciências humanas no colégio Gheorghe Lazăr em Sibiu, Cioran começou a estudar filosofia na Universidade de Bucareste, aos 17 anos. Ao ingressar na universidade, aproximou-se de Eugène Ionesco e Mircea Eliade; os três permaneceriam amigos por muitos anos. Fez amizade com os futuros filósofos romenos Constantin Noica e Petre Țuțea durante o período em que receberam ensinamentos de Tudor Vianu e de Nae Ionescu. Cioran, Eliade e Țuțea tornaram-se adeptos das ideias de seu mestre Nae Ionescu — ou seja, uma corrente denominada trăirismo.
Absorvendo influências germânicas, seus primeiros estudos centralizaram-se em Immanuel Kant, Arthur Schopenhauer, e principalmente Friedrich Nietzsche. Tornou-se um agnóstico, tomando por axioma "a inconveniência da existência". Durante seus estudos na Universidade, Cioran também foi influenciado pelas obras de Georg Simmel, Max Stirner, Ludwig Klages e Martin Heidegger, e também pelo filósofo russo Lev Shestov, que aliou a crença na arbitrariedade da vida à base de seu pensamento. Cioran graduou-se com uma tese sobre Henri Bergson; mais tarde, porém, renegaria Bergson, alegando que este não compreendera a tragédia da vida. Rejeitou também Heidegger dizendo "seu palavreado é mais original que o pensamento", em entrevista já idoso.
Algumas de suas ideias notáveis são o pessimismo (de Schopenhauer), ceticismo (de Montaigne), cinismo (de Diógenes), niilismo (de Nietzsche) e antinatalismo. Um jornal britânico o chamou de "o rei dos pessimistas", um francês de "arauto de miséria humana", e "o niilista que o século XX profetizou". Suicídio, morte, obsessão, vazio são temas recorrentes em sua obra, e se chamava aos dezenove anos de "especialista no problema da morte".
Em 1933, ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Berlim, onde teve contato com Nicolai Hartmann e Ludwig Klages. Em Berlim, interessa-se pelas ações do regime nazista, e colabora com uma coluna do Vremea abordando o assunto (aí Cioran confessa: "não há atualmente político que me desperte maior simpatia e admiração do que Hitler", e elogia a Noite das Facas Longas — "o que a humanidade teria a perder se a vida de alguns imbecis fosse suprimida?") e em carta endereçada a Petru Comarnescu descreve-se como um "hitlerista". Cioran tinha uma visão similar sobre fascismo italiano. Saudou as vitórias da Segunda Guerra Italo-Abissínia, ao afirmar que: "O fascismo é um choque, sem o qual a Itália é um compromisso comparado à Romênia de hoje".
O primeiro livro de Cioran, Sur les cimes du désespoir (No Auge do Desespero, traduzido mais precisamente como: "Nos Cumes do Desespero") foi publicado na Romênia em 1934 e condecorado com o Commission’s Prize e com o Young Writers Prize como sendo um dos melhores livros escritos por autor jovem inédito. Sucederam-se: O Livro das Desilusões (1935), A Transfiguração da Romênia (1936) e Lágrimas e Santos (1937), também publicados na Romênia. Embora não tenha sido membro efetivo, na Romênia, Cioran começou a se interessar pelas ideias propagadas pela Guarda de Ferro — uma organização ultradireitista, cuja ideologia nacionalista ele apoiou até os início da Segunda Guerra Mundial, apesar de supostamente desaprovar seus métodos violentos. Mais tarde renega esse movimento do qual aproximou-se na juventude, criticando os movimentos de direita e fascistas como sendo paixões e doenças da juventude.
Cioran foi crítico de si mesmo nesse aspecto na segunda edição de A Transfiguração da Romênia, publicada nos anos 1990, eliminando do texto várias passagens que ele considerou extremistas ou "pretensiosas e estúpidas". A obra expressava simpatia pelo totalitarismo, tema também presente em vários artigos publicados por Cioran nessa época, e que visava estabelecer a "urbanização e a industrialização" como "duas obsessões de um povo emergente". Marta Petreu, em seu livro An Infamous Paste: E.M. Cioran and the Rise of Fascism in Romania, publicado em inglês no ano de 2005, faz uma profunda análise da obra de Cioran. Cioran faz também uma crítica fortíssima a si mesmo a aos movimentos fascistas - com os quais se relacionou quando jovem - no texto autobiográfico "Meu País", onde condena-se por "morrer de paixão por seu país".
No entanto, foi difícil conciliar suas primeiras necessidades de modernização com o tradicionalismo militar. Em 1934, Cioran escreveu: "Acho que o nacionalismo fértil, criativo e vigoroso da Romênia só pode ser um tipo de nacionalismo que não só descarte a tradição, como também renegue-a e derrote-a". A desaprovação do que ele via como características essencialmente romenas estavam presentes em suas obras ("Em todas as máximas, todos os provérbios, todas as reflexões, nosso povo expressa a mesma timidez diante da vida, a mesma hesitação, a mesma resignação… […] Os truísmos do cotidiano romeno são alienantes."), que foram criticadas pela revista ultradireitista Gândirea (seu editor, Nichifor Crainic, referia-se à "A Transfiguração da Romênia" como sendo um "sangrento e impiedoso massacre da atual Romênia, sem [poupá-la] sequer do matricídio e do sacrilégio"), e também por vários artigos da Guarda de Ferro.
Após voltar de Berlim (1936), Cioran lecionou Filosofia no colégio "Andrei Şaguna", em Braşov, por um ano. Em 1937, foi morar em Paris , após conseguir uma bolsa de estudo no Institut Français de Bucarest, a qual seria prolongada até 1944. Após passar um curto período em sua terra natal (de novembro 1940 a fevereiro 1941), Cioran não mais retornou; nesta sua última estada na Romênia, ele deu sinais de ter estreitas relações com a Guarda de Ferro (Garda de Fier), força dominante na época (veja o artigo sobre o Estado Nacional Legionário) — em 28 de novembro, ele fez um discurso na Rádio Romena, controlada pelo estado, baseado no retrato de Corneliu Zelea Codreanu, o principal líder deste movimento, que morrera dois anos antes (louvando-o por ter ele e a Guarda de Ferro, entre outros, "dado aos romenos um objetivo").
Começou a escrever seu último livro em romeno, "Îndreptar pătimaş" (Breviário Passional), em 1940. Essa obra só foi concluída em 1945.
Mais tarde Cioran renunciaria não só ao seu amor platônico pela Guarda de Ferro, como também às suas ideias nacionalistas, passando a expressar frequentemente seu arrependimento por seu envolvimento emocional nessas causas. Por exemplo, em uma entrevista, dada em 1972, ele condenou tais ideias, referindo-se a elas como "um complexo de movimentos; mais do que isto, uma corrente e uma seita doentias", e admitiu: "Eu descobri então […] o que significa ser levado por uma corrente sem o menor traço de convicção. […]. Hoje estou imune a esse tipo de coisa." as well as from various Iron Guard papers.
O ano de 1937 registra a partida de Cioran para a França, tendo conseguido uma bolsa escolar no Institut Français de Bucarest. Desde o momento de sua partida, Cioran publicou apenas livros em francês (que foram muito apreciados, não só por seu conteúdo, como também por seu estilo repleto de lirismo e pela sofisticação da linguagem). De fato, ele se recusava a escrever em romeno, acentuando a tal ponto o desligamento de seu país, que até as cartas enviadas aos familiares eram escritas em francês.