As enchentes e deslizamentos na Zona da Mata Mineira foram causados por eventos de precipitação extrema ocorridos na Zona da Mata do estado de Minas Gerais, Brasil, em fevereiro de 2026. Os municípios de Juiz de Fora e Ubá foram os mais afetados pelo desastre natural, com um saldo de 73 mortes confirmadas, após fortes tempestades atingirem a região entre o fim da tarde do dia 23 e a madrugada de 24 de fevereiro. Foram 65 vítimas fatais em Juiz de Fora e oito em Ubá. O último corpo que estava desaparecido foi encontrado em Ubá em 17 de março.
Além das perdas humanas, os deslizamentos de terra e enchentes atípicos causados pelas chuvas deixaram bairros ilhados, mais de 5 500 pessoas desalojadas e centenas de desabrigados (até 2 de março). A região já registrava chuva acima da média nas semanas anteriores, e nos dias seguintes novos episódios de precipitações extremas foram observados. Inclusive, fevereiro de 2026 foi o mês mais chuvoso já registrado em Juiz de Fora, tendo se encerrado com um volume de chuva mais de quatro vezes acima da média mensal de acordo com o INMET.
Esse foi o maior desastre natural causado por chuvas no Brasil desde as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 e o quarto maior do país em dez anos. Além disso, o período chuvoso 2025–2026 foi o que registrou a maior quantidade de mortes em Minas Gerais desde 2006, somando 90 vítimas fatais, número que foi puxado pelo desastre na Zona da Mata. Em contraste, segundo dados do Portal da Transparência de Minas Gerais, os investimentos do governo estadual na infraestrutura de combate aos impactos das chuvas decaíram de cerca de 135 milhões de reais para 6 milhões entre os anos de 2023 e 2025.
Nos dias anteriores, alertas foram emitidos por institutos de meteorologia para o risco de chuva excessiva na região para o período dos eventos mortais. De acordo com a MetSul Meteorologia, as precipitações extremas foram resultado da convecção de uma massa de ar quente e úmido, que atuava sobre a Zona da Mata Mineira, e o ar frio vindo de oeste. Esse encontro produziu instabilidades com chuva forte que foram reforçadas pela presença de uma área de baixa pressão sobre o leste de Minas, que contribuiu com a canalização de mais umidade para o sudeste mineiro. Cabe ressaltar que as regiões afetadas possuem um relevo predominantemente acidentado, sendo considerável a ocupação de morros e encostas, assim como de margens de mananciais, o que torna a população vulnerável aos impactos de chuvas intensas. As mudanças climáticas, por sua vez, favorecem condições de eventos extremos.
O desastre aconteceu no auge do período chuvoso, que tem um pico de intensidade de dezembro a fevereiro. No entanto, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), fevereiro de 2026 se encerrou com um acumulado de chuva de 763,6 mm na estação meteorológica automática de Juiz de Fora, que foi o maior volume registrado em um único mês pelo instituto na cidade, superando os 715 mm de janeiro de 1985. É uma quantidade mais de quatro vezes acima da média de fevereiro, que é de 170 mm.
Entre 9 horas da manhã de 22 de fevereiro e 9 horas do dia 23, foi registrado um volume de 89 mm. Já na leitura diária das 9 horas do dia 24 foram observados mais 138,6 mm, totalizando 227,6 mm em 48 horas no município. Ao meio-dia do dia 24, pluviômetros do Cemaden aferiam acumulados de 221,72 mm no bairro Cidade Universitária, 216,19 mm no Nossa Senhora de Lourdes e 215,43 mm no Centro nas últimas 48 horas. Contudo, a maior parte dessas chuvas foi concentrada em um período de seis horas entre a noite e madrugada anteriores.
Nos dias seguintes a baixa pressão atmosférica manteve as condições para temporais na região e, com isso, foram observados novos eventos de precipitação extrema. Na noite de 25 de fevereiro, por exemplo, a estação automática do INMET de Juiz de Fora registrou um acumulado de pouco mais de 100 mm em duas horas. Das 9 horas da manhã do dia 25 às 9 horas do dia 26 o volume de chuva no mesmo ponto de medição do INMET foi de 137,4 mm. No mesmo período o Cemaden observou volumes de 132,71 mm no bairro Cidade Universitária e 130,06 mm no Graminha, com a maior parte disso sendo registrada durante a noite e começo da madrugada. No fim da tarde e noite de 26 de fevereiro, o município de Cataguases também foi atingido por uma precipitação atípica, com acumulado de 104 mm em apenas uma hora, segundo a prefeitura.
A tempestade que começou no fim da tarde de 23 de fevereiro e se estendeu até a madrugada do dia seguinte provocou enchentes e deslizamentos de terra atípicos em diferentes regiões de Juiz de Fora, onde o rio Paraibuna transbordou, assim como diversos cursos d'água menores no interior da cidade. Alguns bairros ficaram ilhados por causa da invasão da água. A situação se agravou nos dias seguintes, com o registro de novos temporais extremos.
Na noite de 25 de fevereiro, foram observadas novas enchentes de mananciais e enxurradas em Juiz de Fora, alagando ruas e avenidas, com força suficiente para arrastar veículos e pessoas. Devido a esse temporal, mais casas desabaram e ocorreram novos deslizamentos. Em 2 de março, segundo o governo de Minas Gerais, mais de 3 500 pessoas estavam desalojadas e 700 desabrigadas no município. Em 28 de fevereiro foi encontrada a última pessoa desaparecida em Juiz de Fora, que contabilizou 65 mortes em função do desastre.
Em Ubá a cheia do rio Ubá também provocou uma enchente de proporção incomum na cidade, apontada pela mídia como histórica. Além disso, foram observados deslizamentos de terra e enxurradas. Casas desabaram e veículos foram arrastados pela força das águas que avançaram por ruas e avenidas. As enchentes atingiram o campus da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) da cidade e destruíram livros, mobiliário e equipamentos de laboratórios e da biblioteca. Em 2 de março, 396 pessoas estavam desalojadas e 25 desabrigadas no município. Em 17 de março, o último corpo desaparecido, de um homem arrastado pela enchente, foi encontrado em Ubá, que contabilizou oito mortes em função do desastre.
Ao meio-dia de 24 de fevereiro, 22 mortes haviam sido confirmadas, sendo 16 em Juiz de Fora e seis em Ubá. Além disso, 45 pessoas estavam desaparecidas, todas em Juiz de Fora. Com o encontro do último corpo, as duas cidades somaram 73 mortes. Ambas decretaram estado de calamidade pública. Outros municípios afetados por enchentes e/ou deslizamentos de terra na Zona da Mata Mineira foram Matias Barbosa, onde o centro da cidade foi fortemente atingido, Senador Firmino e Leopoldina. Em 2 de março, 810 pessoas estavam desalojadas e 39 desabrigadas em Matias Barbosa. Em Cataguases, a tempestade do fim da tarde e noite de 26 de fevereiro elevou o nível do rio Pomba, que invadiu ruas e avenidas da área central. A chuva extrema em um curto período de tempo também causou enxurradas e arrastamento de veículos, enquanto moradores de áreas de risco tiveram que deixar suas casas devido à possibilidade de deslizamentos em zonas habitadas.
Em 24 de fevereiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse em suas redes sociais que forças de segurança estavam sendo mobilizadas em missões de resgate para prestar assistência imediata. No mesmo dia, o governo federal anunciou um auxílio financeiro à população e aos municípios atingidos e o envio da Força Nacional do SUS às áreas afetadas. Ainda no dia 24, estiveram na região, dentre outras autoridades, o secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, Wolnei Wolff Barreiros; o ministro da Saúde em exercício, Adriano Massuda; e o ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, que reconheceu o estado de calamidade em Juiz de Fora e Ubá.
Posteriormente, o presidente Lula também visitou ambas as cidades, acompanhado do ministro das Cidades Jader Barbalho Filho; ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania Macaé Evaristo; ministro de Minas e Energia Alexandre Silveira; e ministro da Saúde Alexandre Padilha. O governador de Minas Gerais Romeu Zema também esteve na região e decretou luto oficial de três dias em referência às vítimas fatais. Aulas foram suspensas nas escolas e a oferta de transporte público teve que ser reduzida, devido às vias obstruídas. Em 26 de fevereiro, 15 escolas estavam sendo utilizadas como abrigo aos desabrigados e desalojados em Juiz de Fora.