Enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 referem-se às inundações que ocorreram no estado brasileiro do Rio Grande do Sul entre o final de abril e início de maio de 2024. O governo gaúcho classificou a situação como "a maior catástrofe climática" da história do estado.
Em várias cidades, no período entre 27 de abril e 2 de maio, chegou a chover de 500 a 700 mm, correspondendo a um terço da média histórica de precipitação para todo um ano, e em muitas outras a precipitação ficou entre 300 e 400 mm entre 3 e 5 de maio. Dados do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mostram que as chuvas de maio levaram mais de 14 trilhões de litros de água para o lago Guaíba, volume que equivale a quase metade do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu. A precipitação excessiva afetou mais de 60% do território estadual.
Na tarde do dia 5 de maio, a inundação do Guaíba, lago que cerca a capital Porto Alegre, atingiu a marca de 5,37 metros, superando as históricas enchentes de 1941 e 2023. No mesmo dia, o Governo Federal decretou estado de calamidade pública. O volume de chuva no mês de maio bateu todos os recordes históricos de Porto Alegre e Caxias do Sul. Na capital, a estação meterológica convencional de referência climatológica da cidade, localizada no bairro Jardim Botânico, acumulou 540 mm, superando a marca de 447 mm em setembro de 2023. Em Caxias do Sul, a estação meteorológica oficial do INMET no Aeroporto Regional Hugo Cantergiani registrou um volume ainda maior, alcançando 845 mm.
No dia 20 de agosto, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul (RS) reportou 183 mortes. Ao todo, 478 municípios gaúchos foram atingidos por inundações, quedas de barreiras e deslizamentos de terra. Cerca de 2,4 milhões de pessoas foram afetadas pelos efeitos das chuvas nas regiões Central, dos Vales, Serra e Metropolitana de Porto Alegre, sendo que mais de 442 mil moradores tiveram que deixar suas residências (cerca de 18 mil em abrigos e 423 mil desalojados). Mais de 640 mil residências tiveram o abastecimento de água cortado e mais de 440 mil clientes ficaram sem energia elétrica. Ocorreram bloqueios em dezenas de pontos nas estradas estaduais por deslizamentos de terra, inundações, destruição da pista ou rompimento de barragens e queda de árvores. A Confederação Nacional de Municípios (CNM) estimou que as enchentes causaram prejuízos de 4,6 bilhões de reais, principalmente no setor habitacional, enquanto a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) classificou a catástrofe como o maior sinistro do setor de seguros provocado por um único evento na história do Brasil, com mais de 1,6 bilhão de reais em pedidos feitos por segurados até 27 de maio.
Em 24 de abril de 2025, quase um ano após o desastre, a Defesa Civil do RS emitiu um boletim especial, reportando 184 mortes confirmadas, enquanto 25 pessoas ainda continuavam desaparecidas.
Um bloqueio atmosférico causado por um sistema de alta pressão atmosférica no Centro-Sul do Brasil impediu o deslocamento de sistemas meteorológicos típicos (ciclone extratropical, frente fria, cavado) que causam precipitações. As temperaturas onde o anticiclone atuou ficaram de cinco a dez graus Celsius acima do que é registrado historicamente pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Por conta disso, as áreas de instabilidade ficaram confinadas no estado gaúcho, caracterizando uma frente estacionária.
O mau tempo começou no norte do estado, no dia 27, com chuva forte. No dia 28 de abril a Defesa Civil do Rio Grande do Sul emitiu o Aviso Meteorológico 254, depois atualizado, alertando para o "risco para transtornos por conta dos temporais isolados e chuvas pontualmente intensas, ocasionando rápidas elevações dos níveis com extravasamento da calha em arroios, córregos, pequenos riachos e regiões ribeirinhas, assim como lenta elevação dos rios principais podendo atingir cota de inundação, além de alagamentos pontuais nos perímetros urbanos". Nos dias que se seguiram, na rede social X, os avisos se sucederam, sempre com previsões para tempo adverso.
Na segunda-feira, dia 29, a situação se espalhou por quase todo o estado. No dia 30, por volta das 14 horas, o Aviso Meteorológico 254 foi atualizado, trazendo o alerta para "risco alto para transtornos por conta das tempestades isoladas, e chuvas intensas e persistentes, ocasionando rápidas elevações dos níveis com extravasamento da calha em arroios, córregos, pequenos riachos e regiões ribeirinhas, assim como elevação dos rios principais atingindo cota de inundação, além de alagamentos nos perímetros urbanos e deslizamentos".
O mau tempo dos dias 27 de abril a 2 de maio foi provocado por uma frente fria associada a uma área de baixa pressão sobre o mar. Junto a este sistema, houve a atuação de um fluxo de umidade vindo do norte do país. Uma outra frente começou a ingressar no estado no dia 2 de maio, enquanto a umidade do fluxo se mantinha. Esta frente estava associada a uma área de baixa pressão sobre o Paraguai que depois se deslocou perpendicularmente sobre o Rio Grande até desembocar no leste do estado no Oceano Atlântico. Durante este período, várias cidades receberam de 500 a 700 mm de chuva, equivalendo a um terço da média histórica de precipitação para todo um ano, e em muitas outras a precipitação ficou entre 300 e 400 mm.
Depois de alguns dias sem chuva, o avanço de uma frente quente de altitude sobre o ar mais frio que atuava no estado, que tornou-se semiestacionária, acompanhada de uma corrente de jato em baixos níveis e um centro de baixa pressão, provocou a formação de uma linha de instabilidade, e a partir do dia 10 de maio iniciou um novo período de precipitações intensas, concentradas na metade Norte, afetando regiões onde ficam as cabeceiras de vários rios que haviam transbordado mas se encontravam em processo de baixa, como o Jacuí, Taquari, Antas, Caí, Sinos, Paranhana e Gravataí. Até o dia 12 haviam caído quase 300 mm de chuva nos Campos de Cima da Serra e de 100 a 200 mm em muitos outros locais, sendo previsto um importante repique nas enchentes. Segundo a Defesa Civil, no dia 12 quase todos os grandes rios do estado voltaram a mostrar elevação em suas cotas.
A nova onda de instabilidade também provocou a formação de dois tornados, ambos no dia 11, um no município de Gentil, com intensidade estimada entre F0 e F1 na Escala Fujita, que incidiu na zona rural e não causou estragos ou vítimas, e outro na zona urbana do município de Cambará do Sul, no bairro de Vila Santana, com ventos estimados de 140 km/h, danificando 57 casas, uma escola e um posto de saúde. Cerca de 300 pessoas foram afetadas, mas não houve feridos ou mortos.
Um terceiro período de chuvas entre os dias 23 e 24 de maio foi produzido pela formação de uma área de baixa pressão a Leste do Rio Grande do Sul, acompanhada pela chegada de uma forte massa de ar frio de origem polar e ventos do quadrante Sul com força de tempestade, estimados em 70 a 90 km/h. Choveu quase 200 milímetros no Vale do Rio Pardo, de 80 a 130 milímetros no norte do estado e quase 150 milímetros na região de Porto Alegre. Embora vários rios do interior tenham voltado a subir, este episódio afetou com mais intensidade a região de Porto Alegre, onde as águas já haviam baixado significativamente, mas as chuvas e o represamento da vazão do Guaíba causado pelo vento provocaram um novo repique nas cheias.
Relação com as mudanças climáticas
Um relatório científico publicado pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas em 2013 já apresentava a tendência de aumento significativo das chuvas no Sul do Brasil por conta das mudanças climáticas, mas, devido à existência de variáveis difíceis de quantificar com precisão, havia incerteza a respeito do nível de aumento, podendo oscilar de 25 a 30%. Outras projeções que já haviam sido feitas, citadas pelo climatologista Carlos Nobre, participante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), variavam de 10% a 20% de aumento.
Além de Nobre, outros especialistas como Paulo Artaxo, também membro do IPCC, e Marcio Astrini, secretário-executivo de Observatório do Clima, correlacionaram as frequentes enchentes no Sul do Brasil aos impactos do aquecimento global no Brasil, o que também foi destacado na cobertura da imprensa internacional, além de apontarem o despreparo governamental, refletido em políticas públicas inconsistentes de prevenção de desastres e programas insuficientes de mitigação e adaptação ao aquecimento global, o que é agravado pelos danos ao meio ambiente e pela fragilização da legislação ambiental.