Erasmo Esteves OMC (Rio de Janeiro, 5 de junho de 1941 – Rio de Janeiro, 22 de novembro de 2022), conhecido artisticamente como Erasmo Carlos, foi um cantor, compositor, ator, músico, multi-instrumentista e escritor brasileiro. Um dos pioneiros do rock no Brasil, nos anos 60 fez parceria com o cantor e compositor Roberto Carlos, compondo várias músicas juntos, que gravavam em seus discos em carreira solo.
Infância e primeiros trabalhos
Filho de baianos, Erasmo nasceu no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Sua mãe era mãe solteira, e seu pai desconhecido, ele só veio a conhecer seu pai aos 23 anos de idade.
Seus primeiros trabalhos foram aos 10 anos, vendendo revistas usadas numa quitanda e rãs para botequins da vizinhança. Também vendia rolinhas ao primo Raul, para quem também trabalhou colando cartazes quando ele atuou como cabo eleitoral para um candidato a deputado.
Em 1957, para ajudar a mãe, que havia se separado do padrasto de Erasmo e trabalhava muito para pagar as contas, arranjou alguns empregos nos quais pouco durava, incluindo mostrador de imóveis (do qual foi demitido após o chefe descobrir que ele promovia festas nos imóveis cujas chaves possuía), auxiliar de almoxarifado numa loja DeMillus (no qual só compareceu no primeiro dia por não suportar o cansaço), office boy na Cerâmica São Caetano (de onde saiu após flagrar uma secretária e um diretor tendo um caso) e na ACESITA (de onde saiu após o flagrarem cochilando em serviço) e secretário num escritório de advocacia, de onde saiu após começar a desempenhar suas tarefas sem a dedicação do início.
Primeiros trabalhos: anos 1950-60
Erasmo conhecia Sebastião Rodrigues Maia – que mais tarde ficaria conhecido como Tim Maia – desde a infância. Entretanto, a amizade só viria na adolescência, por meio do gosto de ambos pelo rock and roll.
Em 1957, Tim Maia montou a banda The Sputniks, junto com Erasmo, Arlênio Lívio, Wellington Oliveira e Roberto Carlos. Após uma briga entre Tim e Roberto, o grupo foi desfeito. Wellington desistiu da carreira musical e o único remanescente era Arlênio, que, no ano seguinte, resolveu propor a Erasmo e a outros amigos da Tijuca – Edson Trindade (que tocou violão no grupo Tijucanos do Ritmo, em que Tim Maia tocava bateria) e José Roberto, conhecido como "China" – formarem o grupo vocal "The Boys of Rock".
Por sugestão de Carlos Imperial, o grupo passou a se chamar The Snakes e acompanhava tanto Roberto quanto Tim Maia em seus respectivos shows. Roberto precisava de uma letra para a canção "Hound Dog", sucesso na voz de Elvis Presley; Arlênio Lívio apresentou Erasmo a Roberto, afirmando que ele teria a letra, pois era um grande fã de Elvis. Roberto descobriu outras afinidades com Erasmo. Além de Elvis, ambos gostavam de Bob Nelson, James Dean, Marlon Brando, Marilyn Monroe e torciam para o Vasco da Gama.
Quando fazia parte do The Snakes, Tim Maia ensinou Erasmo a tocar três acordes básicos no violão: ré, lá e mi.. O The Snakes chegou a acompanhar o cantor Cauby Peixoto em sua inusitada passagem pelo rock, na gravação de "Rock and Roll em Copacabana", de 1957, e no filme "Minha Sogra é da Polícia" (1958), em que o cantor interpreta a canção "That's Rock" composta por Imperial. Nos tempos da juventude, também conheceu Jorge Ben Jor, na época conhecido como "Babulina", e Wilson Simonal, que também foi agenciado por Carlos Imperial.
Erasmo inicialmente se apresentava somente com seu primeiro nome, mas o via como pobre artisticamente. Tentou então adicionar o sobrenome Esteves, mas achou a combinação pior ainda, vendo-a como "espanholada" e lembrando de quando colegas de escola faziam trocadilhos do tipo "Erasmo esteve aqui". A convivência com Roberto Carlos e Carlos Imperial o fez se interessar por "Carlos", e a decisão foi tomada após ele ler num almanaque que tal nome era considerado especial pelos ocultistas, por suas letras remeterem a lideranças poderosas (C de Cristo, rei dos judeus; A de águia, rainha das aves; R de rosa, rainha das flores; L de leão, rei dos animais; O de ouro, rei dos metais; e S de Sol, rei dos astros).
Uma das primeiras tentativas de alcançar o sucesso foi com Roberto. Após ouvir o calipso "Marina", do cantor ítalo-belga Rocco Granata, Erasmo sugeriu criar uma versão em português com Roberto, uma vez que a canção era sucesso em todos os países onde era lançada. A ideia era apresentá-la ao diretor artístico da RCA Victor. Ao chegarem lá, descobriram que Cauby Peixoto havia tido a mesma ideia e desistiram. Roberto chegou a deixar um disco que havia lançado pela Polydor para apreciação, mas nenhum contrato foi feito e "Marina", com efeito, estourou na voz de Cauby.
Já como Erasmo Carlos, lançou um compacto que seria de grande sucesso, "O Terror dos Namorados", com a novidade do Órgão Hammond de Lafayette, que era seu amigo e da Turma do Bar Divino, na Tijuca. Com a chegada da bossa nova, Erasmo também se deixou influenciar pelo gênero. Roberto chegou a se tornar crooner cantando bossa nova, influenciado por João Gilberto. Nesse período, Erasmo compôs "Maria e o Samba", cantado por Roberto. Antes de seguir carreira solo, Erasmo fez parte da banda Renato e Seus Blue Caps. Participou, junto com Roberto Carlos e Wanderléa, do programa Jovem Guarda, onde tinha o apelido de "Tremendão". Tentava se diferenciar de Elvis embora este fosse seu ídolo. Seus maiores sucessos como cantor nessa fase foram "Gatinha Manhosa" e "Festa de Arromba".
Em 1966, Erasmo compõe com Roberto o sambalanço "Toque o Balanço", gravado por Elza Soares.
Também em 1966, Erasmo, Eduardo Araújo e Carlos Imperial foram acusados de corrupção de menores, sendo, contudo, inocentados. Com o término do programa, entrou em crise, mas conseguiu se recuperar com a ajuda de seu parceiro Roberto Carlos e de sua esposa, Narinha. Nessa fase de transição fez sucesso cantando "Sentado à Beira do Caminho" e "Coqueiro Verde", primeiro samba-rock gravado por Erasmo. Roberto e Erasmo eram criticados por cantar e compor rock e de serem americanizados. Erasmo chegou a dividir um apartamento no bairro do Brooklin em São Paulo com Jorge Ben Jor, apontado como um dos criadores do estilo.
O disco Erasmo Carlos e os Tremendões já é um trabalho transitório na carreira do artista. O LP, de 1969, traz interpretações muito peculiares de canções de compositores da MPB, como "Saudosismo", de Caetano Veloso e "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, lançada no filme Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-rosa, em que Erasmo atua com Roberto e Wanderléa) e "Teletema" (canção originalmente interpretada por Regininha, sucesso por ter sido tema da novela Véu de Noiva, da Rede Globo), de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, além da primeira gravação de "Sentado à Beira do Caminho".
Na década de 1970, Erasmo assina com a Polydor. A primeira metade da década mostra o Tremendão num estilo bem diferente da Jovem Guarda. Influenciado pela cultura hippie e pelo soul, lança Carlos, Erasmo em 1971. O disco, que abre com "De Noite na Cama", escrita por Caetano Veloso especialmente para ele, traz um polêmica ode à maconha.
O existencialismo prossegue em seus outros LPs dos anos 70: Sonhos e Memórias, Projeto Salva Terra e Banda dos Contentes. "Sou uma Criança, Não Entendo Nada", "Cachaça Mecânica" e "Filho Único" são algumas canções de destaque no período. Pelas Esquinas de Ipanema, seu LP de 1978 inclui uma impactante canção que denuncia o descaso do homem com a ecologia: "Panorama Ecológico".