Euryclides de Jesus Zerbini (Guaratinguetá, 10 de maio de 1912 – São Paulo, 23 de outubro de 1993) foi um médico cardiologista e cirurgião brasileiro.
Foi o quinto cirurgião do mundo e o primeiro da América Latina e do Brasil a realizar um transplante de coração.
Em 1985, Euryclides voltou a ser pioneiro, ao realizar o primeiro transplante de coração do Brasil em paciente com o mal de Chagas. Ao todo, em sua carreira, Euryclides Zerbini realizou mais de 40 mil cirurgias cardíacas, pessoalmente ou através de sua equipe. Zerbini foi o primeiro brasileiro a receber o Título de "Honored Guest of American Association of Thoracic Surgery (AATS).
Euryclides nasceu no interior de São Paulo, na cidade de Guaratinguetá, em 1912, em uma família de origem italiana. Nasceu prematuro, com apenas sete meses de gestação. Era o filho caçula entre os seis filhos do casal Eugênio e Ernestina Zerbini. O pai era um imigrante italiano nascido em Serravalle, na Emília-Romanha, enquanto sua mãe era filha de genoveses. Um de seus irmãos foi o general Euryale de Jesus Zerbini. Muito franzino em comparação com os irmãos, a mãe se concentrava em sua alimentação com maior zelo do que em relação aos outros irmãos.
Apaixonado pelas obras clássicas da literatura, Eugênio deu aos filhos nomes de personagens clássicos da cultura ocidental. Euryclides estudou até o primeiro ano do ensino médio em sua cidade natal e mudou-se para Campinas para terminar o então curso científico, no Colégio Diocesano Santa Maria.
Sem saber exatamente que curso seguir, foi seu pai quem sugeriu a medicina.
De Campinas, Euryclides mudou-se para a capital paulista, para morar na casa de sua irmã, Eunice, a fim de se preparar para o vestibular. Em 1930, Euryclides foi aprovado entre os dez primeiros entre as 50 vagas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Na época, a instituição já gozava de grande reputação em parte pelo financiamento da Fundação Rockefeller.
Ainda que a faculdade fosse gratuita, se manter estudando na cidade era caro. Assim, Euryclides começou a lecionar Química, Física e História Natural nos cursos pré-vestibular, ainda no primeiro ano de faculdade. Na época, o hospital-escola da faculdade de medicina era a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, onde Euryclides começou a trabalhar como interno na cirurgia, chefiada por João Alves Meira, Benedito Montenegro e Alípio Correia Neto. Ao assistir sua primeira cirurgia, ele passou mal e chegou a pensar em largar o curso.
Estava no segundo ano de curso quando explodiu a Revolução Constitucionalista de 1932. Uma mobilização interna de alunos e professores dentro da faculdade levou Euryclides a participar do movimento no Vale do Paraíba e os atendimentos que realizou no campo de batalha o fez pegar gosto pela medicina. Em 6 de dezembro de 1935, ele se formou em medicina, com especialidade em cirurgia geral e continuou trabalhando na Santa Casa. Com a saída do dr. Edmundo Etzel, Euryclides foi nomeado chefe de divisão de cirurgia, tornando-se primeiro assistente, posição inferior à de professor titular. Com apenas 29 anos, Euryclides se submeteu ao concurso de livre-docente.
Além do trabalho na Santa Casa, Euryclides passou a trabalhar também no Hospital São Luiz Gonzaga, no bairro do Jaçanã. Ainda que fosse cirurgião geral, ele passou a realizar cirurgias torácicas em pacientes com tuberculose. Cirurgias direto no coração não eram realizadas, devido aos riscos envolvidos. Porém, em fevereiro de 1942, um garoto de 7 anos, chamado Disnei Zanoline, estava brincando na oficina do pai e uma martelada arremessou uma lasca de ferro no seu peito. Ele deu entrada no Hospital São Luiz Gonzaga com um estilhaço metálico no precórdio e hemorragia interna.
Ao ser consultado sobre o caso, Euryclides decidiu pela operação, bastante arriscada na época. A artéria coronária descendente anterior precisou de sutura e o pequeno paciente sobreviveu ao procedimento e até mesmo ao próprio cirurgião. A sutura com sucesso em um ferimento cardíaco no Brasil, o primeiro contato com a cirurgia cardíaca da parte de Euryclides, rendeu uma publicação no Journal of Thoracic Surgery, em 1943, intitulado: Coronary ligation in wounds of the heart: report of a case in which ligation of the anterior descending branch of the left coronary artery was followed by complete recovery.
Euryclides continuou trabalhando com cirurgia geral, porém estava com uma crescente insatisfação com relação às limitações da especialidade. Após uma conversa com Alípio Correia Neto, ele decidiu visitar os Estados Unidos, onde trabalhou com Evarts Ambrose Graham, pioneiro ao realizar a primeira pneumectomia do mundo para tratamento de câncer de pulmão, no Hospital Barnes, em St. Louis. Interessado no potencial da técnica, ele requisitou junto à União Cultural Brasil-Estados Unidos e ao Institute of International Education uma bolsa de estudos do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Em 17 de janeiro de 1944, ele conseguiu a bolsa e seis meses depois viajou novamente aos Estados Unidos para passar um ano.
Rodeado do que havia de melhor na época relacionado a técnicas cirúrgicas e tecnologias, Euryclides tinha muito trabalho à disposição, pois a maioria dos médicos tinha sido convocada para servir na Segunda Guerra Mundial. Seis meses depois intenso trabalho no Hospital Barnes, ele se transferiu para Boston, trabalhando no Hospital Geral de Massachusetts com o pioneiro cirurgião Oliver Cope, por mais seis meses. Entre julho e setembro de 1945, Euryclides visitou vários centros cirúrgicos pelos Estados Unidos.
Com o conhecimento adquirido pela escola norte-americana da cirurgia, que diferia da escola europeia, então a corrente seguida no Brasil, Euryclides retornou ao país e trouxe os fundamentos da cirurgia moderna e da cirurgia torácica. Realizou no país a segunda cirurgia de Blalock-Taussig (a primeira foi em Santos, por Domingos Pinto) no Hospital das Clínicas. A primeira ligadura de um ducto arterial, feita em um paciente de 18 anos, foi uma cirurgia realizada por Euryclides, bem como a primeira cirurgia para correção de uma coarctação da aorta no país.
No início da década de 1950, a cirurgia cardíaca começava a evoluir para as cavidades cardíacas e Euryclides iniciou os procedimentos no Brasil, hipotermia moderada, para tratar cardiopatias congênitas simples, como comunicações interatriais. Nas primeiras cirurgias para o tratamento da estenose mitral, participou o jovem estudante de medicina Adib Jatene, que substituiria o professor Euryclides Zerbini como professor titular da FMUSP, em 1983. Um terceiro cirurgião a participar dos estudos de estenose foi Domingo Marcolino Braile, que ao lado de Jatene, na oficina da faculdade, criou vários equipamentos médicos pioneiros.
Em 6 de maio de 1953, a primeira cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea foi realizada com sucesso, na Filadélfia. Com as bases estabelecidas no Brasil, Euryclides e sua esposa, a também médica Dirce Costa Zerbini, viajaram em 1957 para Minneapolis, cidade de referência em cirurgias cardíacas na época, para se familiarizarem com a circulação extracorpórea e as técnicas que envolviam as complexas operações intracardíacas.
Junto dos cirurgiões Delmont Bittencourt, Geraldo Verginelli, Adib Jatene, Edgard San Juan, Rubens Arruda, Dirce Costa Zerbini e Antonio Geraldo de Freitas Netto, na sala C do Hospital das Clínicas, Zerbini começou as cirurgias com circulação extracorpórea uma vez por semana. As cirurgias eram muito longas e nem sempre tinham bons resultados, em parte pela falta de equipamentos médicos. A maioria deles era importada e a manutenção era bastante difícil, dependendo de técnicos norte-americanos que deviam vir ao Brasil, o que aumentava a espera.
Assim, Euryclides decidiu criar no subsolo do Hospital das Clínicas, a Oficina do Coração-Pulmão Artificial, destinada à engenharia reversa para a construção e manutenção dos equipamentos para cirurgia cardíaca como materiais nacionais, a fim de baratear a produção, a manutenção e assim estender os serviços a mais pacientes.