Filipe I de Hesse (13 de novembro de 1504 - 31 de março de 1567), que recebeu o cognome de "o magnânimo", foi um defensor líder da Reforma Protestante e um dos mais importantes líderes dos primeiros tempos do protestantismo na Alemanha.
Primeiros anos e conversão ao protestantismo
Filipe era filho do landegrave Guilherme II de Hesse e da sua segunda esposa, a duquesa Ana de Mecklemburgo-Schwerin. O seu pai morreu quando Filipe tinha cinco anos de idade e a sua mãe, depois de uma série de lutas com os proprietários de Hesse, conseguiu tornar-se regente em seu nome. Contudo, a luta pela autoridade continuou. Para colocar um ponto final nesta situação, Filipe foi declarado maior de idade em 1518, assumindo o poder no ano seguinte. O poder das propriedades tinha sido quebrado pela sua mãe, mas, além disso, Filipe devia-lhe pouca coisa. A sua educação tinha sido imperfeita e o seu treino moral e religioso tinha sido descuidado. Apesar de tudo, o conde tornou-se um estadista de sucesso rapidamente e não demorou a tomar medidas para aumentar a sua autoridade pessoal como governante.
O primeiro encontro de Filipe de Hesse com Martinho Lutero aconteceu em 1521 na Dieta de Worms, durante o qual a personalidade de Lutero atraiu o conde, apesar de, anteriormente, este ter mostrado pouco interesse nos aspectos religiosos da reunião. Filipe converteu-se ao protestantismo em 1524 depois de se encontrar pessoalmente com o teólogo Philipp Melanchthon. Pouco depois ajudou a terminar a Guerra dos Camponeses ao derrotar Thomas Müntzer na Batalha de Frankenhausen.
Filipe recusou juntar-se à liga antiluterana do duque Jorge da Saxônia em 1525. Pela sua aliança com o príncipe-eleitor João da Saxónia, concluída em Gota a 27 de fevereiro de 1526, mostrou que já estava a tomar medidas para organizar uma aliança protectora com todos os príncipes e poderes protestantes. Ao mesmo tempo, uniu as suas políticas ao seu sentimento religioso. Logo na primavera de 1526, tentou impedir a eleição do arquiduque Fernando, um católico, para sacro-imperador. Na Dieta de Speyer, que se realizou no mesmo ano, Filipe defendeu abertamente a causa protestante, fazendo com que fosse impossível para os pregadores protestantes promover as suas opiniões enquanto a dieta esteve em sessão e, tal como os seus seguidores, dispensou publicamente as práticas eclesiásticas da igreja católica.
Apesar de não existir um grande movimento público a favor do protestantismo em Hesse, Filipe estava determinado em criar uma igreja que seguisse os princípios protestantes no seu território. Este desejo foi apoiado não só pelo seu chanceler, o humanista Johann Feige, e pelo seu capelão, Adam Krafft, mas também por François Lamberto de Avinhão, um antigo franciscano e inimigo seguro da fé que tinha abandonado. Enquanto a política radical de Lamberto, que se tinha configurado na ordem eclesiástica de Homberga, foi abandonada, pelo menos um parte dela, os mosteiros e fundações religiosas foram dissolvidas e as suas propriedades foram usadas para fins de caridade e educativos. A Universidade de Marburgo foi criada no verão de 1527 para se tornar, como a Universidade de Wittenberg, uma escola para teólogos protestantes.
O sogro de Filipe, o duque Jorge da Saxónia, o bispo de Würzburg, Conrado II de Thungen e o arcebispo de Mogúncia, Alberto III de Brandemburgo, esforçavam-se por criar agitação contra o crescimento da reforma. As suas actividades, assim como outras circunstâncias, incluindo rumores sobre uma guerra, convenceram Filipe da existência de uma liga secreta entre os príncipes católicos. As suas suspeitas foram confirmadas, para sua satisfação, por uma falsificação que lhe foi entregue por um aventureiro chamado Otto von Pack que tinha sido empregue em missões importantes organizadas pelo duque Jorge da Saxónia. Depois de se encontrar com o príncipe-eleitor João em Weimar a 9 de março de 1528, ficou concordado que os príncipes protestantes deviam ficar na ofensiva para proteger os seus territórios da invasão e captura.
Tanto Lutero como o chanceler do príncipe-eleitor, Gregor Brück, apesar de estarem convencidos da existência da conspiração, estavam contra uma ofensiva. As autoridades imperiais em Speyer proibiram qualquer ameaça à paz e, após longas negociações, Filipe conseguiu financiamento para armamento das dioceses de Würzburg, Bamberg, e Mogúncia. Este último bispado também se sentia tentado a reconhecer a validade da jurisdição nos territórios de Hesse e da Saxónia até o Sacro-Império ou um conselho cristão decidirem contrário.
Apesar de tudo, as condições políticas eram muito favoráveis para Filipe que poderia facilmente ter sido acusado de perturbar a paz do império e, na Segunda Dieta de Speyer, realizado na primavera de 1529, foi publicamente ignorado pelo imperador Carlos V. Ainda assim, Filipe teve um papel importante na união dos representantes protestantes, bem como na preparação do protesto em Speyer. Antes de deixar a cidade, conseguiu um acordo secreto entre a Saxónia, Hesse, Nuremberga, Estrasburgo e Ulm, a 22 de Abril de 1529.
Filipe estava particularmente preocupado em prevenir discórdia no assunto da Eucaristia. Foi através dele que Ulrico Zuínglio foi convidado a visitar a Alemanha e Filipe preparou assim o caminho para o célebre Colóquio de Marburgo. Apesar de a atitude dos teólogos de Wittenberg terem frustrado as suas tentativas de criar uma relação harmoniosa e, apesar de a situação ficar ainda mais complicada devido à posição do marquês Jorge de Brandemburgo-Ansbach, que exigiu uma confissão e uma ordem eclesiástica uniformes, Filipe defendeu que as diferenças entre os seguidores de Martin Bucer e os de Lutero em teorias sacramentais podiam discordar de forma honesta e que as Sagradas Escrituras não as poderiam resolver completamente.
Por causa destas declarações, Filipe passou a ser suspeito de ter uma tendência para o zwinglianismo. O apoio que demonstrava para com os reformadores associados a Zwingli na Suíça e a Brucer em Estrasburgo foi intensificado pela fúria do imperador quando recebeu de Filipe uma declaração de arrendatários protestantes escrita pelo antigo franciscano Lamberto, e pelo fracasso do conde em assegurar uma posição comum entre todas as potências protestantes no que dizia respeito à guerra contra a Turquia.
Filipe adoptou com entusiasmo o plano de Zwingli para criar uma grande aliança protestante que se estendesse desde o Adriático até à Dinamarca para impedir o imperador de invadir a Alemanha. Esta associação causou alguma frieza entre ele e os seguidores de Lutero na Dieta de Augsburg em 1530, principalmente quando Filipe propôs a sua política pacifica a Melanchthon e pediu que todos os protestantes se unissem para criar um conselho geral que tivesse o poder de decidir questões de diferenças religiosas. Esta atitude pareceu ter origens no Zwinglianismo e Filipe teve de explicar a sua posição exacta na questão da Eucaristia pouco depois, declarando que concordava completamente com os luteranos, mas discordava quanto à perseguição do suíço.
A chegada do imperador pôs um ponto final nestas disputas, pelo menos durante algum tempo. Mas quando Carlos V exigiu que os representantes protestantes participassem na procissão Corpus Christi e que todos os sermões protestantes deviam terminar na cidade, Filipe recusou-se abertamente a obedecer. Agora tentava em vão mudar o décimo artigo da Confissão de Augsburgo, mas quando a posição dos alemães do norte foi oficialmente rejeitada, Filipe deixou o Diet, dando instruções aos seus representantes para defender impetuosamente a posição dos protestantes e manter os seus interesses gerais, e não os particulares. Neste altura, ofereceu refúgio a Martinho Lutero nas suas terras e começou a criar uma relação próxima com Martin Brucer, cuja compreensão de questões políticas criou um forte laço de amizade entre os dois. Além do mais, Bucer concordava plenamente com o marquês na questão da importância de criar medidas concretas para lidar com a controvérsia da Eucaristia.