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Fração do Exército Vermelho

Organização terrorista alemã

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Fração do Exército Vermelho (em alemão: Rote Armee Fraktion, pronunciado [ˌʁoː.tə aʁˈmeː fʁakˌt͡si̯oːn] () ou RAF, alemão: [ɛʁʔaːˈʔɛf] ()), também conhecida como Grupo Baader-Meinhof, (em alemão: Baader-Meinhof-Gruppe, Baader-Meinhof-Bande, alemão: [ˈbaːdɐ ˈmaɪ̯nˌhɔf ˈɡʁʊpə] ()) foi uma organização guerrilheira alemã de extrema-esquerda, fundada em 1970, na antiga Alemanha Ocidental, e dissolvida em 1998. Um dos mais proeminentes grupos extremistas da Europa pós-Segunda Guerra Mundial, seus integrantes se autodescreviam como um movimento de guerrilha urbana comunista e anti-imperialista, engajado numa luta armada contra o que definiam como um "Estado fascista".

A RAF foi formada no início dos anos 70 por Andreas Baader, Gudrun Ensslin, Ulrike Meinhof e Horst Mahler. Durante seus 28 anos de existência, nos quais contou com três gerações diferentes de integrantes, o popularmente assim chamado Grupo Baader-Meinhof foi responsável por inúmeras operações de guerrilha e atentados na Alemanha, especialmente os cometidos no segundo semestre de 1977, já por sua segunda geração de militantes, que levou a uma crise institucional no país conhecida como Outono Alemão. Durante três décadas de operações, o grupo foi responsabilizado por 34 mortes, incluindo alvos secundários como motoristas e guarda-costas, e centenas de ferimentos em civis e militares, nacionais e estrangeiros em território alemão, além de milhões de marcos em danos ao patrimônio público e privado.

A organização sempre referiu-se a si própria como Fração do Exército Vermelho. Os termos Grupo Baader-Meinhof ou Bando Baader-Meinhof, pelos quais ficaram popularmente conhecidos e temidos, vem da designação dada a eles pela mídia alemã, como maneira de evitar a legitimização do movimento como organização política verdadeira, tratando-os apenas como uma associação criminosa comum. Apesar de Ulrike Meinhof, uma de suas fundadoras, não ter tido verdadeiramente uma posição de liderança intelectual dentro da cúpula da organização, papel este exercido por Gudrum Ensslin, ela passou a ser designada como Baader-Meinhof após o resgate de Andreas Baader da prisão onde se encontrava, em maio de 1970, por um comando liderado por Meinhof, já uma nacionalmente conhecida jornalista, escritora, documentarista e militante radical de esquerda, que a partir dali entrou na clandestinidade e na luta armada. A organização teve três encarnações sucessivas, a primeira consistindo de Andreas Baader e seus associados, quase todos mortos ou presos já na segunda metade dos anos 70; a segunda, que operou a partir da prisão dos principais líderes e fundadores até o fim da década, formada por ex-integrantes de grupos de militância estudantil radical como o SPK (Sozialistisches Patientenkollektiv), nascido na Universidade de Heidelberg em 1970, que se juntaram aos remanescentes do grupo original; e a terceira geração, que operou nos anos 80 e 90.

Em 28 de abril de 1998, uma carta de oito páginas, datilografada em alemão, foi enviada à agência de notícias Reuters, assinada com o logotipo da RAF - com a metralhadora MP5 sobre a estrela vermelha - comunicando o fim das atividades do grupo, depois de 28 anos de existência como organização. Em 2008, dez anos após sua extinção, o filme alemão Der Baader Meinhof Komplex foi lançado mundialmente - e concorreu ao Oscar e ao Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira - pretendendo jogar luzes sobre o grupo e sua história para as gerações presentes e futuras.

As raízes da RAF podem ser encontradas no movimento estudantil alemão dos anos 1960. Nações industrializadas do fim da década experimentavam o aparecimento de movimentos culturais ortodoxos, produto do amadurecimento da geração dos baby boomers - as crianças nascidas depois do fim da II Guerra Mundial - da Guerra Fria e do fim do colonialismo. Novas subculturas como as comunas e assuntos como racismo, movimentos feministas e anti-imperialismo, estavam na linha de frente das preocupações das políticas de esquerda. Muitos jovens viviam alienados de suas famílias e descrentes das instituições do Estado.

Inicialmente centrados na crítica à instituição universitária, os estudantes alemães da época viraram suas atenções para eventos internacionais, como a Guerra do Vietnã, a pobreza no Terceiro Mundo e a questão da energia nuclear. Eles criticavam igualmente aquilo que lhes parecia ser a relutância da sociedade alemã em confrontar-se com seu passado nazista. Para alguns, o Estado que vigorava na República Federal da Alemanha era uma continuação do antigo Reich. O legado histórico do nazismo havia criado uma fenda entre as gerações e aumentado a suspeita de estruturas autoritárias na sociedade. Na juventude esquerdista alemã, havia raiva com as falhas no processo de desnazificação da Alemanha no pós-guerra, visto como ineficiente. O Partido Comunista alemão havia sido posto fora da lei desde 1956. Cargos eletivos e não-eletivos da administração pública, dos mais altos a nível nacional até pequenos cargos municipais, eram frequentemente ocupados por ex-nazistas. Até o primeiro chanceler da então Alemanha Ocidental, Konrad Adenauer, tinha um antigo nazista em seu gabinete. A mídia conservadora era vista por eles como tendenciosa, controlada por empresários como Axel Springer - dono do tablóide sensacionalista Bild-Zeitung e do jornal Die Welt, entre os de maior circulação na Europa - um implacável oponente do radicalismo estudantil.

Alguns dos homens e mulheres que viriam a fundar e exercer funções importantes na RAF já tinham envolvimentos esquerdistas anteriores: a jornalista Ulrike Meinhof possuía uma antiga relação com o Partido Comunista; Holger Meins estudava cinema e era um veterano das revoltas em Berlim, seu curta-metragem Como Produzir um Coquetel Molotov tinha sido visto por grandes platéias; Jan-Carl Raspe vivia em comunas há longo tempo; Horst Mahler, já um advogado estabelecido, era um dos líderes dos protestos e marchas contra os jornais de Springer desde o começo e defendia causas pró-direitos humanos. Por suas próprias experiências socioeconômicas na vida alemã, eles logo seriam profundamente influenciados pelo Leninismo e o Maoismo, depois definindo-se com um grupo marxista-leninista. Uma crítica contemporânea da visão que o Baader-Meinhof tinha do Estado, publicada numa edição pirata do jornal francês Le Monde diplomatique lhes atribuía um 'fetichismo do Estado' - uma leitura obsessiva e ideologicamente errada da dinâmica da burguesia e da natureza e do papel do Estado nas sociedades ocidentais pós-guerra, incluída a Alemanha Ocidental.

Muitos dos pensadores radicais da época sentiam que os legisladores alemães continuavam a criar leis autoritárias e que a aparente aquiescência da sociedade a isso, era uma continuidade da doutrinação que os nazistas haviam feito sobre a população trinta anos atrás. A Alemanha Ocidental, então já uma das economias mais ricas da Europa, estava exportando armas para ditadores africanos e reestruturando seu próprio rearmamento com uma ferrenha posição pró-Estados Unidos contra o Pacto de Varsóvia.

Fatos subsequentes catalisariam a situação que causou a formação da RAF. Em 2 de junho de 1967 o Xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi, realizou uma visita oficial à cidade de Berlim. O movimento estudantil aproveitou a ocasião para efetuar uma manifestação de protesto contra as violações de direitos humanos que aconteciam no Irã, denunciando o descaso que o Xá e a sua esposa, a imperatriz Farah Diba, demonstravam perante as classes mais desfavorecidas de seu país. Nesta mesma noite, após um dia inteiro de manifestações de exilados iranianos na Alemanha, apoiados pelos estudantes, centenas de manifestantes concentraram-se junto à Ópera de Berlim, onde o casal real deveria comparecer a um espectáculo. A manifestação, a princípio pacífica, desembocou em violência entre estudantes, seguranças do Xá e a polícia, ao fim da qual um estudante, Benno Ohnesorg, casado e com a esposa grávida, foi morto a tiros por um policial, Karl-Heinz Kurras, mais tarde inocentado de todas as acusações e em 2009 exposto como antigo agente duplo da Stasi, o serviço secreto da Alemanha Oriental. Sua morte, ao lado das manifestações contra a Guerra do Vietnã e a percepção de que o país se tornava um estado policial, galvanizou a juventude esquerdista alemã. Entre os líderes dos manifestantes naquele dia, encontrava-se Gudrun Ensslin, uma estudante de literatura alemã e inglesa na Universidade Livre de Berlim que, indignada com a morte de Ohnesorg, discursou aos estudantes dizendo que 'a única forma de responder à violência seria com violência'. Até então, o monopólio da violência estatal nunca havia sido posto em questão por oposicionistas alemães desde 1945.

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