Frances Spence (nascida Frances Bilas; Filadélfia, 2 de março de 1922 – 18 de julho de 2012) foi uma pioneira da programação de computadores e uma das primeiras seis programadoras do ENIAC.
Frances Spence nasceu Frances V. Bilas em 2 de março de 1922, na cidade de Filadélfia, Pensilvânia, sendo a segunda de cinco irmãs. Seus pais trabalhavam no setor educacional e governamental; seu pai era engenheiro do sistema de escolas públicas da Filadélfia e sua mãe exercia a profissão de professora. Spence frequentou a South Philadelphia High School for Girls, formando-se em 1938.
Inicialmente, ingressou na Universidade Temple, mas logo transferiu-se para o Chestnut Hill College após conquistar uma bolsa de estudos. Lá, aprofundou-se nas ciências exatas, graduando-se em 1942 com um bacharelado em matemática e especialização em física. Durante seu tempo no Chestnut Hill College, ela conheceu Kathleen Antonelli (então Kathleen McNulty), que posteriormente também se tornaria uma das programadoras originais do ENIAC ao seu lado.
A Segunda Guerra Mundial e o Projeto ENIAC
Com o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, o Exército dos Estados Unidos enfrentava uma escassez crítica de matemáticos, que haviam sido recrutados para o combate no exterior. Para suprir essa demanda, o Exército iniciou o recrutamento de mulheres com formação em matemática para atuar como "computadores humanos" na Moore School of Electrical Engineering, associada à Universidade da Pensilvânia. O trabalho consistia em calcular complexas tabelas de trajetórias balísticas para armas de artilharia, exigindo o uso exaustivo de calculadoras mecânicas de mesa e do analisador diferencial da universidade.
Em 1945, Frances Spence e outras cinco mulheres — Betty Holberton, Jean Bartik, Kathleen Antonelli, Marlyn Meltzer e Ruth Teitelbaum — foram selecionadas para um projeto militar altamente confidencial: programar o ENIAC (Electronic Numerical Integrator and Computer), reconhecido como o primeiro computador digital eletrônico de propósito geral da história.
O Desafio Técnico da Programação
Naquela época, o conceito de "programação" não envolvia a escrita de códigos por meio de teclados ou linguagens de software modernas. A programação era uma tarefa de engenharia física. O ENIAC era um equipamento colossal de cerca de 30 toneladas, composto por aproximadamente 18.000 válvulas a vácuo, quilômetros de cabos e enormes painéis de comutação.
Como não existiam manuais de instruções, linguagens de programação (como C ou Python) ou sistemas operacionais, Frances e suas colegas precisaram estudar os complexos diagramas lógicos e os esquemas elétricos da máquina do zero para entender seu funcionamento. Para inserir um único programa de cálculo, elas roteavam fisicamente os cabos e ajustavam milhares de interruptores em uma sequência lógica precisa, permitindo que o ENIAC calculasse as equações diferenciais necessárias para as trajetórias balísticas em frações de segundo.
O Apagamento Histórico das Mulheres na Computação
Apesar de serem as mentes matemáticas responsáveis por fazer o hardware funcionar e executar os cálculos, o trabalho de Spence e das outras cinco programadoras não foi reconhecido pelo público, pela comunidade científica ou pela imprensa da época.
Quando o ENIAC foi revelado oficialmente ao mundo em 1946 com grande aclamação, as fotografias de divulgação frequentemente mostravam Frances e suas colegas operando os painéis da máquina. No entanto, elas não foram identificadas nos comunicados de imprensa e não foram sequer convidadas para o jantar oficial de celebração do projeto. Por várias décadas, historiadores e jornalistas presumiram erroneamente que as mulheres nas fotografias eram apenas "modelos" contratadas pelo Exército para posar ao lado do equipamento, invisibilizando completamente a contribuição técnica que tiveram na fundação do campo da engenharia de software.
Em 1947, logo após o término da guerra, Frances casou-se com Homer W. Spence, um engenheiro elétrico do Exército que havia sido designado para trabalhar no Aberdeen Proving Ground, instalação militar para onde o ENIAC foi posteriormente transferido. Após o casamento, ela continuou a atuar na equipe de computação por um breve período. No entanto, seguindo as fortes convenções sociais da década de 1950, Frances renunciou ao seu cargo para se dedicar à família e focar na criação de seus três filhos.
O papel pioneiro de Frances Spence e das demais programadoras do ENIAC permaneceu no ostracismo até meados da década de 1990, quando a pesquisadora e advogada Kathy Kleiman iniciou um vasto esforço de resgate histórico. Kleiman descobriu a verdadeira identidade das mulheres nas fotografias militares antigas e trabalhou para documentar suas biografias.
Em 1997, o reconhecimento formal finalmente se materializou. Frances Spence, junto com suas cinco colegas do projeto ENIAC, foi introduzida no prestigiado Women in Technology International (WITI) Hall of Fame. O trabalho de Spence ajudou a abrir as portas para o desenvolvimento da ciência da computação contemporânea, provando a capacidade analítica fundamental das mulheres nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). A trajetória esquecida desse grupo pioneiro foi posteriormente eternizada no documentário The Computers (2014), garantindo o devido registro de suas contribuições na historiografia da tecnologia mundial.
Janelle Brown: Women Proto-Programmers Get Their Just Reward, In: Wired, 5. August 1997 (englisch)
Jamie Gumbrecht: Rediscovering WWII's female 'computers', CNN, Februar 2011 (englisch)