Francisco de Morais Alves, também conhecido como Chico Alves ou Chico Viola (Rio de Janeiro, 19 de agosto de 1898 – Pindamonhangaba, 27 de setembro de 1952), foi um cantor e compositor brasileiro, considerado um dos maiores, mais populares e versáteis de sua área. A qualidade de seu trabalho lhe rendeu em 1933 a alcunha de "Rei da Voz", dada pelo radialista César Ladeira. Foi, ainda, peça decisiva para a construção de vários gêneros populares da música.
Alves era uma figura alta e magra; andava sempre elegante e bem penteado; muito sorridente e avesso às bebidas. Como seu ídolo Vicente Celestino, tinha uma voz de tenor mas, com o tempo, consolidou-se em barítono. De origem humilde, deixou uma vasta produção de mais de quinhentos discos; sua morte trágica causou imensa comoção no país, num sentimento que um de seus biógrafos, David Nasser (que também era amigo e compositor de algumas músicas por ele interpretadas), escreveu: "Tu, só tu, madeira fria, sentirás toda agonia do silêncio do cantor". A despeito disso, muitos no meio artístico o consideravam bruto, de poucos amigos e vários desafetos.
Foi dele a primeira gravação de disco elétrico feita no Brasil. Graças a ele compositores como Cartola, Heitor dos Prazeres ou Ismael Silva vieram a ser consagrados, o mesmo ocorrendo com várias canções que interpretou, como Ai! que saudade da Amélia, ou a primeira gravação do samba Aquarela do Brasil do parceiro Ary Barroso. Representava para o país, quando de sua morte, o que o cantor Maurice Chevalier era para a França: um "caso raro" — como então registrou o Jornal do Brasil.
Primeiros anos e início da carreira
Seu pai, José Alves, era um imigrante português que se radicara no centro do Rio, então a capital do país; ali, na rua do Acre, ele abriu um bar e foi nesta rua que nasceu o cantor, um dos cinco filhos que teve; e nesta rua ele passou sua infância. Seus irmãos eram Ângela, Lina, Carolina e José e a mãe, Isabel Morais Alves, era também imigrante lusa.
Da irmã mais velha Ângela ganhou seu primeiro instrumento, uma guitarra. Ainda menino a família se mudou para a rua Evaristo da Veiga e, face às dificuldades, ele trabalhou como engraxate e, aproveitando-se da proximidade com um batalhão da polícia, passou a acompanhar os ensaios de sua banda de música; chegou a fugir de casa para não ter que estudar para se tornar guarda-livros (contador) no Colégio da Ajuda onde seu pai tencionava matriculá-lo e, quando ficou maior, conseguiu o primeiro emprego (1916) na fábrica de chapéus Mangueira; depois de pouco tempo foi para a Júlio Lima. Sua irmã Lina, por sua vez, entrara para o meio artístico e viria a se tornar atriz como vedete no teatro de revista e depois nas radionovelas, adotando o nome de Nair Alves.
Em 1918 começou a cantar profissionalmente; o primeiro local onde se apresentou foi o Pavilhão do Méier onde foi contratado após um teste, feito pelo pai de Mário Lago, o maestro Antônio Lago. Dali cantou no Circo Spinelli e fez parte de uma companhia artística que logo se dissolveu, com a chegada na cidade da pandemia da gripe espanhola, que veio a matar seu irmão Juca (José) em 1918 e o pai no ano seguinte; no mesmo ano ele começou a trabalhar como chofer de táxi. Revela admiração pelo cantor Vicente Celestino que via em apresentações no Teatro São José, em cujo estilo se inspirou.
Com a morte do pai e do irmão, e o casamento das irmãs, morou sozinho com a mãe. Em 1919, o grupo voltou a se organizar em Niterói e Alves, mais uma vez, passou a integrar a companhia. Neste período conheceu o já famoso compositor Sinhô que então lhe apresentou ao filho de Chiquinha Gonzaga, que estava instalando uma fábrica de discos e, já em 1919, ele gravou pelo novo selo chamado Popular.
Este trabalho trazia Sinhô como ritmista e levava algumas de suas sobrinhas para o coro; as duas composições do disco eram de autoria dele: a marchinha "O Pé de Anjo" e o samba "Fala, Meu Louro"; gravou, também de Sinhô o samba "Alivia Esses Olhos", em seguida. Sinhô, que fora responsável pelo lançamento de muitos artistas, foi quem ensinou a Alves as técnicas vocais.
Tornou-se um frequentador das zonas boêmias cariocas da Lapa e de Vila Isabel, onde conhece muitos artistas, dentre os quais Pixinguinha; foi na Lapa que em 1920 ele conheceu, num cabaré, Perpétua Guerra Tutoia, com quem tem um breve casamento, a contragosto da família. A união com a garota que tinha o apelido de Ceci aconteceu, segundo ele, num momento de loucura, e durou cerca de uma semana.
Chico conhecera Ceci — pseudônimo adotado na vida de meretrício — num prostíbulo de baixa categoria da rua Joaquim Silva e viu-se prontamente apaixonado pela mulher que ele mesmo descreveu como sendo "bonita, atraente, a boca muito pintada, os olhos maliciosos e o vestido colado ao corpo" que "davam-lhe a indescritível cor local."
Imediatamente quis tirar a moça daquela vida e ambiente "de pecado"; para tanto pediu-lhe em casamento e esta aceitou; mas nem seus amigos — que encheram-lhe de advertências — nem a família concordaram com tal união: da mãe Isabel ouviu que este lhe seria "o maior desgosto" de sua vida; a irmã Ângela lembrou-lhe do pai, que jamais aprovaria aquele ato; nada demoveu Alves da decisão e, no dia 24 de maio de 1920, em celebração apenas civil, casou-se com a prostituta sem a presença nem de amigos nem de familiares. Foram testemunhas desconhecidos que, ao acaso, estavam por perto; a festa se restringiu a pão com manteiga — ou "média" como era chamado.
Após alguns dias a esposa, contudo, lhe confessou que não abandonara a profissão, que continuava a se prostituir pois o fazia não pelo dinheiro apenas, mas porque gostava da vida alegre e agitada dos bordéis; ante o choque da revelação — ele mais tarde diria ao amigo David Nasser não entender como alguém gostasse daquela vida — o relacionamento terminou menos de um mês após ter começado.
Chico nunca entrou com um desquite; segundo disse a Nasser, isto se deu por ignorância e, em suas palavras: "A Perpétua havia me processado duas vezes, injuriando-me em juízo. O juiz me deu ganho de causa e desde então ficamos juridicamente separados de corpo. Ora, como eu não tinha dinheiro e só tinha mesmo o corpo e a roupa do corpo, acreditei que era tudo".
O fracasso no relacionamento não foi o mesmo na carreira: ingressou na companhia de Batista de Oliveira, em Niterói, e conheceu um novo amor. Perpétua (ou Ceci) desapareceu de sua vida por trinta anos — quando retornou de forma surpreendente.
Anos 1920 — cantor, ainda taxista, começo do sucesso
Em 1921, o empresário José Segreto convidou-o para interpretar no Teatro São José, nas peças de teatro de revista de sua produção, nada menos que os sucessos de seu ídolo Vicente Celestino. No Teatro São José fez parte da companhia de revistas do ator Alfredo Silva, onde ficou pouco tempo como corista, sendo promovido a ator secundário e, logo, protagonista da peça cômica que popularizou a canção homônima "A Malandrinha". No mesmo ano conheceu e se casou com a atriz Célia Zenatti, com quem viveria por vinte e oito anos. Apesar de já atuar profissionalmente como artista, não abandonou a atividade de taxista.
Mudando de gravadora lançou em 1924, pela Odeon, gravações de samba e marchas, mas não alcançou bom resultado, como o samba Miúdo, de Sebastião Santos Neves e marchas carnavalescas como Não me passo prá você e Mademoiselle cinema, de Freire Júnior.