Frank Macfarlane Burnet OM, KBE (Traralgon, 3 de setembro de 1899 — Port Fairy, 31 de agosto de 1985), também conhecido como Macfarlane ou Mac Burnet, foi um médico virologista australiano, conhecido por suas contribuições no estudo da imunologia.
Burnet graduou-se em medicina na Universidade de Melbourne em 1924, e obteve o título de doutor em 1928 pela Universidade de Londres. Conduziu estudos pioneiros de investigação sobre bacteriófagos e vírus no Walter & Eliza Hall Institute, atuando como diretor do instituto de 1944 até 1965. Seu trabalho proporcionou importantes descobertas no campo da imunologia e virologia.
Em meados dos anos 1950 ele trabalhou extensivamente na área de imunologia, contribuindo para a criação da teoria da seleção clonal, que explica como linfócitos selecionam antígenos para destruição. Burnet e Peter Brian Medawar receberam em 1960 o Nobel de Fisiologia ou Medicina, demonstrando o mecanismo de tolerância imunológica adquirida. Este trabalho proporcionou bases experimentais sobre a indução da tolerância imunológica, levando ao desenvolvimento de novas terapias para o transplante de órgãos.
Burnet deixou o Walter e Eliza Hall Institute em 1965, continuando a trabalhar na Universidade de Melbourne até sua aposentadoria oficial em 1978. Durante sua vida profissional escreveu 31 livros e monografias, e mais de 500 artigos científicos. Desempenhou um papel ativo no desenvolvimento de políticas públicas para as ciências da saúde na Austrália e foi membro fundador e, mais tarde, presidente da Academia de Ciências da Austrália. Foi o cientista que mais recebeu condecorações e honrarias no país. Por suas contribuições à ciência australiana, ele foi premiado com o o título de Australiano do Ano em 1960, e em 1978 recebeu o título de Cavaleiro da Ordem da Austrália. Foi reconhecido internacionalmente por suas conquistas: além do Prêmio Nobel, recebeu o Prêmio Lasker, a Medalha Real da Royal Society e diversos outros títulos.
Burnet nasceu em Traralgon, Austrália; seu pai, Frank Burnet, um imigrante escocês, foi gerente do Colonial Bank. Ele foi o segundo de sete irmãos e era chamado, quando criança, de "Mac". Os Burnets mudaram-se para Terang, em 1909. Burnet interessou-se pela vida selvagem e passou a coletar besouros e a estudar biologia. Lendo artigos de uma enciclopédia, interessou-se sobre os trabalhos de Charles Darwin. Sempre estudou em escolas públicas, até receber uma bolsa integral de estudos no Geelong College, uma das mais conceituadas escolas privadas.
Em 1917 ingressou na Universidade de Melbourne para estudar medicina. Lá, aprofundou seus estudos sobre os trabalhos de Darwin, sendo influenciado por suas idéias de ciência e sociedade, e também pelos livros de H. G. Wells. Enquanto estava na universidade, ele tornou-se um agnóstico; era cético quanto à religião, considerando-a como "um esforço para acreditar que o que o senso comum diz não é a verdade." . O tempo de curso necessário para graduar-se em medicina havia sido reduzido, com o objetivo de treinar médicos mais rapidamente devido às doenças da I Guerra Mundial. Burnet graduou-se como Bacharel em Medicina e Bacharel em Cirurgia em 1922, e como um doutor em Medicina em 1924. Neste mesmo ano foi nomeado patologista residente no Hospital de Melbourne, cujos laboratórios eram parte do Walter e Eliza Hall Institute. Ele conduziu então uma pesquisa sobre a febre tifóide, publicando seus primeiros trabalhos científicos nesta época.
O diretor do instituto, Charles Kellaway, sugeriu que Burnet adquirisse experiência trabalhando em um laboratório na Inglaterra, antes que pudesse conduzir sua própria investigação de grupo na Austrália. Burnet deixou a Austrália e foi para a Inglaterra em 1925, servindo como cirurgião do navio durante toda a sua viagem. Na chegada, arrumou um emprego como assistente do curador do Lister Institute em Londres. Em 1926 foi premiado com o Beit Memorial Fellowship pelo Lister Institute e pode então iniciar uma pesquisa, em tempo integral, sobre bacteriófagos. Recebeu o título de PhD da Universidade de Londres em 1928 e foi convidado para escrever um capítulo para o Medical Research Council com o título System of Bacteriology (em português, Sistema de Bacteriologia). Enquanto em Londres, Burnet se envolveu com a colega australiana Edith Linda Druce. Casaram-se em 1928 e regressaram após para a Austrália. O casal teve um filho e duas filhas.
Quando Burnet retornou à Austrália, ele regressou ao Walter e Eliza Hall Institute, onde foi nomeado diretor adjunto. Sua primeira missão foi a de investigar o "Desastre Bundaberg", em que 12 crianças morreram depois de receber uma vacina para a difteria que estava contaminada. Ele identificou bactérias do tipo Staphylococcus aureus misturadas à vacina que tinha sido administrada às crianças, embora a causa das mortes tenha sido causada por uma toxina de outro tipo bacteriano; este trabalho sobre Staphylococcus aumentou o seu grau de interesse na área de imunologia. Durante este tempo, ele continuou a estudar os bacteriófagos, escrevendo 32 artigos entre 1924 e 1937. Em 1929, Burnet e sua assistente, Margot McKie escreveram um artigo sugerindo que bacteriófagos poderiam existir como uma forma estável, não-infecciosa, que se multiplicaria com bactérias hospedeiras. Sua inédita descrição da lisogenia não foi aceita até muito anos após, mas foi crucial para o trabalho de Max Delbrück, Alfred Hershey e Salvador Luria sobre o mecanismo de replicação e genética dos vírus (premiados com o Nobel de Medicina em 1969).
Entre 1932 e 1933, Burnet obteve uma licença para estudar no Instituto Nacional de Investigação Médica, em Londres. Significativos avanços na área de virologia foram obtidos enquanto ele estava lá, incluindo o isolamento e a primeira demonstração da transmissão dos vírus da gripe. Investigou também o vírus canarypox, utilizando o embrião de frangos como meio de estudo. Depois Burnet retornou à Austrália, continuando seu trabalho em virologia. Ele envolveu-se também em dois estudos não relacionados com vírus: a caracterização dos agentes causadores de psittacosis e da febre tipo Q. Trabalhando com o cientista australiano E. H. Derrick no estudo da febre, tornou-se a primeira pessoa a adquirir a doença em laboratório. Teve, em sua homenagem, seu nome dado ao microrganismo: Coxiella burnetii.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o foco do trabalho de Burnet mudou para o estudo do vírus influenza e da febre tifóide. Seu primeiro livro, Biological Aspects of Infectious Disease, foi publicado em 1940. Em 1942 ele foi feito membro da Royal Society, e em 1944 viajou para a Universidade de Harvard para dar aulas. Foi lhe oferecido o cargo de professor permanente, mas ele recusou o convite e retornou à Austrália.
Em 1944 foi nomeado diretor do instituto, ocupando a função de Kellaway, que fora nomeado diretor da Fundação Wellcome. Sob sua direção, os cientistas do instituto realizaram contribuições significativas na investigação de doenças infecciosas, período que ficou conhecido como a "idade dourada da virologia" . Pesquisadores como: Alick Isaacs, Ada Gordon, John Cairns, Stephen Fazekas de St. Groth, e Frank Fenner; realizaram grandes contribuições no estudo da encefalite de Murray Valley, mixomatose, poliomielite, herpes e gripe.
Burnet fez contribuições significativas sobre o estudo do vírus da gripe; ele desenvolveu técnicas para estudar o vírus, como os ensaios de hemo-aglutinação. Ele trabalhava em uma vacina com o vírus vivo da gripe, mas a vacina não foi bem-sucedida quando testada durante a II Guerra Mundial. Seu interesse pelos receptores do vírus influenza levou-o a descobrir a neuraminidase, uma enzima que é secretada pelo Vibrio cholerae (causador da cólera). Entre 1951 e 1956, Burnet trabalhou na genética do vírus da gripe. Analisou o controle genético de virulência, demonstrando que o vírus realizava recombinações de seu código genético com uma alta frequência; esta observação não foi totalmente apreciada pela comunidade científica, até que alguns anos mais tarde o genoma segmentado da gripe foi demonstrado.