Frida Boccara, OAL, de seu nome completo Danielle Frida Hélène Boccara (Casablanca, Marrocos, 29 de outubro de 1940 - Paris, França, 1 de agosto de 1996), foi uma cantora, produtora musical e ativista humanitária francesa, nascida no então Protetorado Francês de Marrocos.
Passado algum tempo após a independência de Marrocos, Frida Boccara concluiu os seus estudos no Liceu de Casablanca e transferiu-se em agosto de 1958, aos 17 anos de idade, para Paris, na França, onde iniciou sua carreira artística. Ela tornou-se uma cantora reconhecida internacionalmente, tendo como algumas de suas mais célebres canções Un jour, un enfant, de 1969 (que além de lhe ter valido o primeiro lugar no Festival Eurovisão da Canção rendeu-lhe um disco de platina), Cent mille chansons, de 1968, e Pour vivre ensamble, de 1971 (que foram ambas discos de ouro).
Culta, de espírito cosmopolita e com uma admirável aptidão para as línguas (além do francês e do árabe marroquino, ela era fluente em espanhol, português, inglês, russo e hebraico), Frida era descrita como sendo muito respeitosa com as diferentes opiniões de cada indivíduo, além de estar sempre preocupada com questões humanitárias. Ela filiou-se com o Fundo das Nações Unidas para a Infância, apresentando-se assiduamente em eventos promovidos pela UNICEF para a defesa dos direitos das crianças ao redor do mundo. A cantora esteve em cerca de 85 países, e, para além da Europa, conheceu uma forte apreciação de público e crítica na Austrália, na América do Norte (em especial na província francófona do Québec, no Canadá) e na América do Sul (onde esteve também no Brasil - uma de suas gravações, L'enfant aux cymbales, é dedicada à cidade do Rio de Janeiro).
O escritor francês Louis Nucéra afirmava que "a voz sensual, quente e exclusiva de Frida Boccara é qual um violino nas mãos de um músico", comparando também a intensidade vocal da cantora com as profundezas de um rio. Já o compositor Eddy Marnay, que a considerava "a voz mais bela do mundo" e durante muitos anos fora parceiro musical de Frida - além de amigo pessoal da cantora -, escreveu: "A voz de Frida despertou em nós o que havia de mais nobre e mais sagrado. Essa mulher, que não chegou a viver a sua velhice, foi uma das criaturas mais vivas que já conheci". Boccara faleceu aos 55 anos, vitimada por uma pneumonia.
Contexto familiar e juventude em Marrocos
Danielle Frida Hélène Boccara nasceu no dia 29 de outubro de 1940, na cidade de Casablanca, do então Marrocos Francês (oficialmente Protetorado Francês de Marrocos). O nome Frida, que do germânico significa "A Pacífica", fora uma ideia de sua avó (que já batizara uma filha com este nome), uma judia natural de Livorno (cidade da região da Toscana, na Itália), onde parte de seus antepassados viviam antes de se estabelecerem na Tunísia Francesa e depois em Marrocos. A família Boccara era de religião judaica, mas era marcada pelo multi-etnicismo, possuindo ascendência afegã, italiana, francesa, marroquina e argelina; no entanto, é possível que o sobrenome Boccara tenha sua origem no Uzbequistão, mais precisamente numa cidade uzbeque de nome Bucara. Frida costumava afirmar que, embora se sentisse bastante francesa, era "marroquina por tradição e judia por religião".
Seus pais eram Elie e Georgette (nascida Hagège) Boccara, ambos nascidos na Tunísia, mas residentes em Casablanca, onde constituíram sua família. O idioma materno de Frida era o francês, apesar de ter aprendido o árabe marroquino crescendo em Casablanca. Na época, tanto o francês quanto o árabe eram reconhecidos como idiomas oficiais do protetorado, e hoje, embora permaneçam muito falados pela população de Marrocos, apenas o árabe e o berbere possuem o estatuto de línguas oficiais do país.
A música sempre ocupou um lugar importante na vida de Frida, pois a família Boccara amava a arte e em seu lar reinava uma atmosfera criativa; a avó e a mãe de Frida foram as maiores responsáveis por transmitir às crianças esse fascínio pelo mundo artístico. Uma tia sua - a que também se chamava Frida - era igualmente uma amante das artes, e ganhara um prêmio de pintura. Toda a família tinha o costume de cantar. Dois dos irmãos de Frida também seguiriam carreira artística quando adultos: Roger Boccara, seu irmão mais velho - que mais tarde seria profissionalmente conhecido como Jean-Michel Braque -, tornaria-se cantor e compositor, também chegando a gravar discos ao longo de sua carreira; já Lina Boccara, sua irmã mais nova, além de compositora, tornaria-se uma apreciada pianista e autora de um método didático para lições de piano para crianças («Maman Apprends Moi Les Notes», 1994). Além de Lina, Frida também tinha uma outra irmã mais nova.
Suas primeiras lições musicais se deram através de um professor italiano chamado Nino Vernuccio - um aluno do famoso pianista, professor e compositor franco-alemão Walter Wilhelm Gieseking. A família Boccara frequentemente se reunia durante as noites, onde as crianças com prazer tocavam e cantavam com seus jovens amigos. Ao recordar durante uma entrevista os anos de sua juventude, Frida afirmou que desde sempre gostou de cantar, e que quando o fazia durante o dia costumava fechar todas as portas e janelas de sua casa para que os vizinhos não fossem incomodados.
Em meados da década de 1950, e paralelamente a seus estudos no Liceu de Casablanca, ela tomou a decisão de dedicar-se ao aprendizado da arte vocal, tendo aulas de canto clássico com uma mezzo-soprano russa, passando a apreciar um repertório bem diversificado, que ia de árias de ópera a canções pop. Charles Aznavour era um de seus músicos favoritos.
Chegada a Paris, formação musical e início da carreira
Durante uma turnê do grupo The Platters em Casablanca, a jovem Frida Boccara foi apresentada ao compositor e produtor do grupo, Buck Ram, autor da famosa canção Only You (And You Alone). Fascinado pela voz de Frida, ele a pediu uma fita com os testes de canto dela, para que pudesse levar consigo em sua viagem a Paris, na França. Sonhando com a carreira de cantora, Frida não pensou duas vezes quando Buck Ram a escreveu de Paris pedindo para que ela fosse ao seu encontro. Marrocos já não era mais um protetorado da França, tendo conquistado a sua independência poucos anos antes, mais precisamente em 1956; Frida apenas aguardou a conclusão de seus estudos no Liceu de Casablanca, e, em agosto de 1958, contando com 17 anos de idade, partiu junto a seus irmãos a bordo do transatlântico Koutoubia rumo à cidade de Marselha, de onde seguiriam para a Cidade Luz. Ao se estabelecerem em Paris, eles chegaram a atuar como um trio musical: Roger (já se apresentando como Jean-Michel Braque) e Frida faziam os vocais, enquanto Lina os acompanhava ao piano.
Em Paris, Boccara cursou Letras Clássicas na Sorbonne, com ênfase no estudo da língua e da literatura francesa, do grego clássico e do latim. Ela também integrou o Petit Conservatoire de la chanson de Mireille, criado em 1955 a conselho do ator e cineasta Sacha Guitry pela cantora, compositora e atriz Mireille Hartuch, com o objetivo de transmitir a novos talentos o conhecimento, a habilidade e a experiência fundamentais a um artista da música. Pelo mesmo Petit Conservatoire passariam outros nomes populares da música francesa, como Alice Dona, Serge Lama, Yves Duteil, Françoise Hardy e Pascal Sevran.
Foi através de Mireille que Boccara começou a realizar suas primeiras apresentações musicais na França e a gravar seus primeiros discos. Após assinar um contrato com a gravadora Festival Records, grava em 1961 Cherbourg avait raison (música de Guy Magenta e letra de Eddy Marnay e Jacques Larue), que torna-se um grande sucesso na França, contribuindo para que o nome da cantora ganhe notoriedade em todo o país. Com o passar do tempo, ela se apresenta frequentemente em concertos, festivais e programas de rádio e de TV, além de gravar cada vez mais discos.
O ano de 1964 é marcado pela sua vitória na primeira edição do Festival de la Canción de Mallorca, na cidade de Palma de Maiorca, Espanha, onde interpretou a canção Quand Palma Chantait, de Jean Claudric e Pierre Cour. Em 1964 também se deu a sua primeira tentativa de representar a França no Eurovision Song Contest (Festival Eurovisão da Canção), interpretando Autrefois, de Jean-Pierre Calvet (música) e Eddy Marnay (letra). Tal representação terminaria por ficar a cargo da cantora francesa Rachel, que defendeu o país no Festival com Le chant de Mallory, de André Popp e Pierre Cour. No entanto, mesmo não sendo classificada para o Eurovision, Autrefois não passou despercebida diante do grande público: tendo se tornado uma das canções mais apreciadas naquele momento, este autêntico exemplar do jazz francês permanece ainda hoje como uma pérola existente em toda a discografia de Frida Boccara.