Gabriela Mistral, pseudônimo escolhido de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga (Vicuña, 7 de abril de 1889 — Nova Iorque, 10 de janeiro de 1957), foi uma poetisa, educadora e diplomata chilena, agraciada com o Nobel de Literatura de 1945 "por sua poesia lírica, inspirada por fortes emoções, que fez de seu nome um símbolo das aspirações idealistas de todo o mundo latino-americano", sendo o primeiro ganhador do Nobel de Literatura da América Latina.
Os temas centrais de sua obra são: o amor entre pares, a maternidade, a terra, a morte, além de abordagens quanto à mestiçagem e a cultura indígena. Seus principais trabalhos são: "Desolación", 1922, 'Ternura", 1924, "Tala", 1938 e "Poema de Chile", 1967.
Filha de um poeta diletante, começou a escrever poesia como professora em sua pequena cidade. Mistral lecionou no ensino fundamental e médio por muitos anos, até sua poesia a tornar famosa. Ela desempenhou um papel importante nos sistemas educacionais do México e do Chile, atuou em comitês culturais da Liga das Nações e foi cônsul do Chile em Nápoles, Madrid e Lisboa, além de ensinar literatura espanhola nos Estados Unidos: na Universidade Columbia, no Middlebury College, no Vassar College e também na Universidade de Porto Rico.
Mistral também esteve envolvida em questões sociopolíticas e era uma conhecida redatora de artigos de opinião para os principais jornais de seu país natal, o Chile.
Nascida Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga, em Vicuña, no Valle del Elqui, era filha de Juan Jerónimo Godoy Villanueva, professor e poeta, natural de San Félix, e de Petronila Alcayaga Rojas, ambos de ascendência espanhola.
Lucila passou sua infância em diversas localidades do vale de Elqui, na atual Região de Coquimbo. Com dez dias de idade, seus pais a levaram de Vicuña para La Unión (atualmente conhecido como Pisco Elqui). Entre os três e os nove anos, viveu na pequena localidade de Montegrande, lugar o qual foi considerado pela poetisa como sendo sua cidade natal e ao qual se refere como o seu «amado povoado». Foi ali onde a poetisa quis ser sepultada.
Seu pai abandonou a família quando ela tinha apenas três anos de idade, porém, apesar do abandono, a jovem Lucila sempre nutriu grande carinho pela figura paterna. Segundo ela, foram as leituras de alguns poemas de autoria de seu pai que despertaram o seu amor pela poesia. A mãe de Lucila faleceu no ano de 1929, a quem lhe dedicou a primeira parte de seu livro Tala, que chamou de: Muerte de mi Madre.
Em 1907, Lucila conhece Romelio Ureta Carvajal, ferroviário que se torna, por pouco tempo, seu pretendente. Com o propósito de ganhar dinheiro nas minas, Ureta parte para o norte, prometendo a Lucila que se casariam quando ele voltasse. No seu regresso, ocorrido pouco depois, a relação entre os dois rompe-se e o rapaz inicia um nova relacionamento com uma outra mulher. Em 1909, após ser acusado de roubar dinheiro da ferrovia onde era funcionário, Romelio Ureta suicida-se. Em seu colete havia um cartão e uma foto da escritora, o que a faz ser considerada, inicialmente, a causa dessa morte, o que Lucila sempre negará, alegando que já não mantinham nenhum contato. Entretanto, a tragédia marcaria e influenciaria boa parte de sua obra literária na década seguinte.
Educada em sua cidade natal, em especial pela irmã mais velha, Emelina, começou a trabalhar como professora primária em 1903. Sendo autodidata, fez a prova nacional para professores na Escola Normal Nº1 de meninas de Santiago, obtendo o título de "Mestra". Trabalhou como professora em diversas escolas, como em La Serena, Barrancas, Traiguen, Antofagasta, Los Andes, Punta Arenas, Temuco e Santiago. Sua carreira como funcionária escolar durou cerca de vinte anos.
Em 1918 assume como diretora do "Liceo de niñas de Punta Arenas". E em 1921, é vez de dirigir a "Escola Secundária de Santiago", que era a escola secundária para meninas mais prestigiada do Chile.
Enquanto trabalhava em Temuco, onde foi nomeada diretora do Liceo de Niñas (escola para meninas patrocinada pelo Estado), já sob o pseudónimo de Gabriela Mistral conheceu o futuro Nobel de Literatura de 1971 e conterrâneo, Pablo Neruda (1904-1973), à época com dezesseis anos, apresentando-o à obra de poetas europeus e escritores russos. Neruda confessou-se tímido demais para mostrar-lhe suas obras e, anos mais tarde, dedicou-lhe algumas palavras calorosas em seu livro de memórias Confesso que vivi: "Naquela época chegou a Temuco uma senhora alta, com vestidos muito longos e sapatos de salto baixo. Ela era a nova diretora da escola secundária feminina. [...] O nome dela era Gabriela Mistral […]. Eu a vi muito poucas vezes. O suficiente para que toda vez saísse com alguns livros com os quais me presenteava. Eram sempre romances russos, consciderados por ela como os mais extraordinários da literatura mundial. Posso dizer que Gabriela me embarcou naquela visão séria e terrível dos romancistas russos e que Tolstoi, Dostoiévski, Tchekhov... entraram na minha predileção mais profunda".
Em 1922 é convidada pelo Ministério da Educação do México a trabalhar nos planos de reforma educacional daquele país, a cargo do filósofo e ministro de educação, José Vasconcelos. Mistral fez parte de uma equipe que, ao mesmo tempo que se esforçava para criar um sistema de ensino público, reformou escolas e bibliotecas e investiu na alfabetização, principalmente, da parte mais carente da população. Ela é creditada por ajudar a desenvolver modelos de escolas públicas no Chile e no México. Permaneceu no México por dois anos e após a sua saída, as autoridades educativas ergueram vários monumentos em reconhecimento ao seu trabalho à educação do país.
Aos treze anos, em 1903, Lucila começou a escrever seus primeiros versos. No ano seguinte, surge no jornal El Coquimbo sua primeira publicação, o conto “A Morte do Poeta” , que assina com seu nome verdadeiro. E já no ano seguinte passa a colaborar no jornal La Voz de Elqui publicando artigos sob o nome de Lucila e utilizando pseudônimos como: Soledad, Alguém, Alma, Alejandra Fussler, e aquele que mais tarde a acompanharia para sempre, Gabriela Mistral.
A partir de 1912, começa ter vários poemas seus publicados em revistas prestigiadas como a Sucesos, a Revista de Educación Nacionale, Norte y Sur e a revista Elegancias, dirigida por Rubén Darío.
De Lucila a Gabriela e os "Sonetos da Morte"
Em 1914, envia um conjunto de poemas para os Jogos Florais de Santiago, concurso organizado pela Sociedade de Artistas e Escritores do Chile, intitulados como Sonetos de La muerte [Sonetos da Morte], três elegias nos quais ela demonstra seu amor por Romélio e reivindica o direito de possuí-lo depois da morte. A partir deste concurso adotou definitivamente o pseudônimo Gabriela Mistral, advindo de sua admiração pelos escritores Gabriele D'Annunzio e Frédéric Mistral.
"Desolação" e obras posteriores
Por iniciativa do crítico espanhol Federico de Onís, seu primeiro livro de poesias, "Desolación" [Desolação], foi publicado em 1922 nos Estados Unidos pela editora do Instituto de las Españas de Nova York. A obra é dedicada a Pedro Aguirre Cerda, figura essencial na carreira do poeta, e a Juana de Aguirre. A estrutura da coletânea de poemas – que se divide nas seções “Vida”, “Escola”, “Crianças”, “Dor” e “Natureza” – permite observar que muitos dos temas mistralianos já aparecem delineados neste primeiro livro. "Desolación" solidificou sua reputação literária. Os “Sonetos de la muerta” são apresentados nele e muitos dos poemas foram escritos uma década antes da publicação da obra. Infundida com notas de um lamento amargo, a poesia reflete a tristeza e o desespero de Mistral ante a vida e à morte.