Gamal Abdel Nasser (em árabe: جمال عبد الناصر; Alexandria, 15 de janeiro de 1918 – Cairo, 28 de setembro de 1970) foi um militar e político egípcio, presidente de seu país de 1954 até sua morte em 1970.
Depois de ter frequentado o ensino liceal entrou na Real Academia Militar, na qual se formou em 1938, onde terá reunido os membros do Movimento dos Oficiais Livres. A sua sociedade revolucionária planejava mudar o rumo dos acontecimentos. Para tal pretendia afastar o rei Faruque I, aproveitando o insucesso da campanha egípcia contra Israel em 1948, e conduzir a uma radical alteração das políticas governamentais. Em 1953, quando a monarquia foi abolida e implantada uma república, no ano seguinte ele se tornou presidente e os partidos foram banidos.
Notabilizou-se, ao lado de Jawaharlal Nehru e outros, como um dos líderes carismáticos do movimento terceiro-mundista, o que lhe rendeu grande fama em todos os países do dito "Terceiro Mundo". Nasser promoveu, durante seus quase vinte anos no poder, forte política nacionalista, fomentando o movimento pan-arabista, e acabou por levar o Egito a uma efêmera associação com a Síria (a República Árabe Unida). Um marco importante de sua liderança foi a nacionalização do Canal de Suez, que resultou na Guerra de Suez (1956), em função da resposta militar da França e do Reino Unido. As duas potências coloniais do século XIX, contudo, viriam a descobrir que o mundo do pós-Segunda Guerra Mundial já não mais lhes pertencia. Sem o apoio norte-americano ou soviético, os exércitos francês e britânico foram obrigados a retirar-se do Egito.
Sua maior derrota política e militar foi na guerra dos seis dias em 1967 onde perdeu boa parte do seu poderio militar (aeronáutico), atacado pelos israelenses, quando estava preparado para retomar as colinas de Golan na Síria, invadidas por Israel. Perdeu igualmente parte do Sinai também para Israel.
Gamal Abdel Nasser nasceu em 15 de janeiro de 1918 em Bakos, Alexandria, sendo o primeiro filho de Fahima e Abdel Nasser Hussein. O pai de Nasser era um funcionário dos correios nascido em Beni Mur, Alto Egito, e criado em Alexandria, e a família de sua mãe era de Mallawi, Minia. Seus pais casaram-se em 1917, e mais tarde tiveram mais dois meninos, Izz al-Arab e al-Leithi. Robert Stephens e Said Aburish, biógrafos de Nasser, escreveram que a família de Nasser acreditava firmemente na "noção árabe de glória", desde o nome dado ao irmão de Nasser, Izz al-Arab, cuja tradução é "Glória dos Árabes" — um raro nome no Egito.
A família de Nasser viajava frequentemente devido ao trabalho de seu pai. Em 1921, mudaram-se para Assiut e, em 1923, para Khatatba, onde o pai de Nasser dirigiu uma estação de correios. Nasser frequentou uma escola primária para os filhos de ferroviários até 1924, quando foi enviado para viver com seu tio paterno no Cairo, e estudar na escola primária Nahhasin.
Nasser trocou cartas com sua mãe e visitou-a nos feriados. Ele parou de receber mensagens no final de abril de 1926. Ao retornar para Khatatba, ficou sabendo que sua mãe havia morrido após dar à luz seu terceiro irmão, Shawki, e que sua família havia ocultado dele esta notícia. Nasser afirmou mais tarde que "perdê-la desta forma foi um choque tão profundo que o tempo não conseguiu remediar." Ele adorava sua mãe e o sofrimento por sua morte se aprofundou quando seu pai casou-se novamente antes do fim do ano.
Em 1928, Nasser foi a Alexandria para viver com seu avô materno e estudar na escola municipal elementar de Attarin. Ele saiu deste educandário em 1929, indo estudar em um internato privado de Heluã, e mais tarde voltou a Alexandria para ingressar na escola secundária Ras el-Tin e juntar-se ao seu pai, que trabalhava para o serviço postal da cidade. Foi em Alexandria que Nasser se envolveu no ativismo político. Depois de testemunhar confrontos entre manifestantes e policiais na Praça Manshia, juntou-se à manifestação sem estar consciente do seu propósito. O protesto, organizado pela ultranacionalista Partido do Jovem Egito, pediu o fim do colonialismo no país na sequência da anulação da constituição egípcia de 1923 pelo primeiro-ministro Ismail Sedky. Nasser foi preso e detido por uma noite até ser resgatado por seu pai.
Quando seu pai foi transferido para o Cairo em 1933, Nasser juntou-se a ele e frequentou a escola al-Nahda al-Masria. Ele assumiu a atuação em peças de teatro da escola por um breve período e escreveu artigos para o jornal da escola, incluindo uma peça sobre o filósofo francês Voltaire intitulada de "Voltaire, o Homem da Liberdade". Em 13 de novembro de 1935, Nasser liderou uma manifestação estudantil contra o governo britânico, protestando contra uma declaração feita quatro dias antes pelo ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Samuel Hoare, que rejeitava as perspectivas para a restauração da Constituição de 1923. Dois manifestantes foram mortos e Nasser foi levemente ferido na cabeça por um disparo de um policial. O incidente fez com que obtivesse sua primeira menção na imprensa: o jornal nacionalista Al Gihad relatou que Nasser liderou o protesto e foi um dos feridos. Em 12 de dezembro, o novo rei, Faruque, emitiu um decreto que restaurou a constituição.
O envolvimento de Nasser em atividades políticas aumentou ao longo de seus anos escolares, de tal modo que ele só esteve presente em 45 dias de aulas durante seu último ano de escola secundária. Por dois anos, ele foi um membro dedicado do Partido do Jovem Egito, trabalhando na confecção do seu jornal, mas deixou-o pela ineficácia das ações do partido. Apesar de ter o apoio quase unânime das forças políticas do Egito, Nasser se opôs fortemente ao Tratado anglo-egípcio de 1936 por estipular a presença contínua de bases militares britânicas no país. No entanto, a agitação política no Egito diminuiu significativamente e Nasser retomou seus estudos em al-Nahda, onde, mais tarde naquele ano, recebeu seu certificado de conclusão.
Aburish afirmou que Nasser não estava angustiado por suas frequentes deslocalizações, que ampliaram seus horizontes e mostraram-lhe divisões de classe da sociedade egípcia. Seu próprio status social estava bem abaixo da rica elite egípcia, e seu descontentamento com aqueles nascidos com riqueza e poder cresceu ao longo de sua vida. Nasser passou a maior parte do seu tempo livre lendo, particularmente em 1933, quando viveu perto da Biblioteca Nacional do Egito. Ele leu o Alcorão, os ditos de Maomé, as vidas de Sahaba (os companheiros de Maomé), e as biografias dos líderes nacionalistas Napoleão Bonaparte, Mustafa Kemal Atatürk, Otto von Bismarck, e Giuseppe Garibaldi, e a autobiografia de Winston Churchill.
Nasser foi muito influenciado pelo nacionalismo egípcio, defendido pelo político Mustafa Kamil, poeta Ahmed Shawqi, e seu instrutor anticolonialista na Academia Militar Real, Aziz al-Masri, a quem Nasser expressou sua gratidão em uma entrevista em 1961. Ele foi especialmente influenciado pelo romance do escritor egípcio Tawfiq al-Hakim, O Retorno do Espírito, em que al-Hakim escreveu que o povo egípcio só precisava de um "homem em quem todos os seus sentimentos e desejos serão representados e que será para eles um símbolo de seu objetivo". Nasser mais tarde creditou o romance como sua inspiração para iniciar a revolução de 1952.
Em 1937, Nasser candidatou-se à Academia Real Militar para o treinamento de oficiais do exército, mas seu registro policial por protestos contra o governo inicialmente bloqueou sua entrada. Decepcionado, matriculou-se na escola de direito da Universidade Rei Fuad (atual Universidade do Cairo), mas saiu depois de um semestre para se candidatar novamente à Academia Militar. De suas leituras, Nasser, que frequentemente falava sobre "dignidade, glória e liberdade" durante sua juventude, ficou encantado com as histórias de libertadores nacionais e conquistadores heroicos. Nesta mesma época, uma carreira militar tornou-se sua principal prioridade.
Convencido de que precisava de um wasta, ou um intermediário influente que promovesse sua candidatura em detrimento de outras, Nasser conseguiu um encontro com o Subsecretário de Guerra Ibrahim Khairy Pasha, a pessoa responsável pelo comitê de seleção da academia, e solicitou sua ajuda. Pasha concordou e patrocinou a segunda candidatura de Nasser, que foi aceita no final de 1937. Nasser focou em sua carreira militar a partir de então, e teve pouco contato com sua família. Na academia, conheceu Abdel Hakim Amer e Anwar Sadat, ambos os quais se tornaram assessores importantes durante sua presidência. Depois de se formar na academia em julho de 1938, foi comissionado como segundo-tenente na infantaria, e enviado para Mankabad. Foi ali que Nasser e seus camaradas mais próximos, incluindo Sadat e Amer, discutiram pela primeira vez a insatisfação deles com a corrupção generalizada no país e o desejo de derrubar a monarquia. Sadat escreveu mais tarde que por causa de sua "energia, pensamento lúcido e julgamento equilibrado", Nasser emergiu como o líder natural do grupo.