Georg Friedrich Händel ou Haendel (Halle an der Saale, 23 de fevereiro de 1685/ 5 de março de 1685 no calendário gregoriano — Londres, 14 de abril de 1759) foi um compositor alemão, naturalizado cidadão britânico em 1726.
Desde cedo mostrou notável talento musical, e a despeito da oposição de seu pai, que o queria um advogado, conseguiu receber um treinamento qualificado na arte da música. A primeira parte de sua carreira foi passada em Hamburgo, como violinista e maestro da orquestra da casa de ópera local. Depois dirigiu-se para a Itália, onde conheceu a fama pela primeira vez, estreando várias obras com grande sucesso e entrando em contato com músicos importantes. Em seguida foi indicado mestre de capela do Eleitor de Hanôver, mas pouco trabalhou para ele, e esteve na maior parte do tempo ausente, em Londres. Seu patrão mais tarde tornou-se rei da Grã-Bretanha como Jorge I, para quem continuou compondo. Fixou-se definitivamente em Londres, e ali desenvolveu a parte mais importante de sua carreira, como empresário operístico e autor de óperas, oratórios e música instrumental. Quando adquiriu a cidadania britânica adotou o nome George Frideric Handel.
Recebeu as bases de sua arte da escola barroca germânica, mas depois incorporou um amplo repertório de formas e estilos italianos, franceses e ingleses, construindo um estilo pessoal variado, original e cosmopolita. Tinha grande facilidade para compor, como prova sua vasta produção, que compreende mais de 600 obras, muitas delas de grandes proporções, entre elas dezenas de óperas e oratórios em vários movimentos. Suas grandes obras vocais foram especialmente apreciadas por sua riqueza melódica, sua penetração psicológica, sua impactante dramaticidade, e pela suntuosidade, originalidade e clareza de sua harmonia. Era um exímio contrapontista e polifonista nos moldes flexíveis da escola italiana, e introduziu novidades formais e estéticas na tradição idealista e cristalizada da ópera barroca e no seu gênero gêmeo do oratório, que prenunciam a reforma naturalista da ópera empreendida por Gluck. Suas cantatas e sua música instrumental também se caracterizam pelo experimentalismo, pela inventividade e liberdade formal.
Sua fama em vida foi enorme, tanto como compositor, considerado um douto e um gênio original, quanto como instrumentista, um dos principais virtuoses do teclado de sua geração e excepcional improvisador, e mais de uma vez foi chamado de "divino" ou de "novo Orfeu" pelos seus contemporâneos. Sua música exerceu um impacto inovador e transformador de primeiro plano na música vocal inglesa de sua época, tornando-o por algum tempo uma verdadeira celebridade, embora sua carreira tenha sido cheia de altos e baixos. Influenciou outros nomes europeus destacados como Gluck, Haydn e Beethoven, foi de especial importância para a formação da cultura musical britânica moderna, tornou-se conhecido em muitas partes do mundo, e desde a metade do século XX sua obra tem sido recuperada com crescente interesse. Hoje Händel é considerado um dos maiores mestres do barroco musical europeu.
Händel era filho de Georg Händel e sua segunda esposa, Dorothea Taust. Sua família era oriunda de Breslau, e entre seus ancestrais houve muitos ferreiros e funileiros. Seu avô Valentine Händel mudou-se para Halle e seus dois primeiros filhos seguiram a profissão familiar, mas o terceiro, o pai do músico, tornou-se barbeiro-cirurgião. O seu avô materno era pastor luterano, também uma tradição familiar. Händel teve seis meios-irmãos do primeiro casamento de seu pai, um irmão, que morreu logo após nascer, e duas irmãs. Quando Händel nasceu Halle era uma cidade provinciana, sem grande atividade cultural. Seu pai conseguira um bom emprego nas cortes do Duque de Weissenfels e do marquês de Brandemburgo, conquistara um ótimo nível de vida e comprara uma grande casa que hoje é o centro cultural e museu Casa de Händel, mas estava constantemente viajando entre ambas as cidades, e não parecia ver a arte com bons olhos. Considerando-a perda de tempo, planejou para seu filho uma carreira de advogado. Contudo, Händel desde cedo mostrou aptidão para a música, no que foi apoiado por sua mãe.
Não se sabe ao certo como iniciou seu aprendizado. A tradição a seu respeito diz que ele praticava escondido de seu pai em uma espineta estragada que havia em sua casa, que não emitia som, mas pode ter aprendido algo de sua mãe, que como filha de um pastor devia ter alguma educação musical, ou na escola pode ter recebido alguns rudimentos na arte. De qualquer forma com sete anos ele já possuía um domínio considerável do teclado. Nesta altura, acompanhando seu pai em uma de suas visitas a Weissenfels, conseguiu ter acesso ao órgão da capela do duque, e para a surpresa de todos deu provas de sua habilidade. Então o duque insistiu que o menino recebesse uma educação musical regular. Consentindo, o pai colocou-o sob a orientação de Friedrich Wilhelm Zachow, organista da Igreja de Nossa Senhora, em Halle, aprendendo teoria e composição, órgão, violino, cravo e oboé, além de estudar a obra de compositores célebres para adquirir um senso de estilo. Nos três anos em que estudou com Zachow copiou grande quantidade de música de outros mestres, compôs um moteto por semana e ocasionalmente substituía o professor ao órgão da igreja. Ao fim deste período o seu mestre disse que já não tinha nada mais para lhe ensinar. Seu primeiro biógrafo, John Mainwaring, disse que ele então foi mandado para Berlim, onde teria conhecido músicos distinguidos e ganhado a admiração de todos por suas capacidades de improvisação no órgão e no cravo, mas pesquisas posteriores deram o relato como muito improvável. É possível que tenha assistido óperas em alemão em Weissenfels, onde o Duque havia aberto um teatro.
Seu progresso foi interrompido em 1697 quando seu pai morreu, deixando a família em precária condição financeira, e Händel teve de arranjar trabalho para sustentá-los. A viagem a Berlim que Mainwaring citou como sendo em 1696 aconteceu provavelmente em 1698, e de acordo com Lang ela exerceu um impacto decisivo sobre sua futura carreira, embora não se tenha manifestado de imediato. A cidade era uma metrópole musical graças ao interesse da Eleitora Sofia Carlota, mais tarde Rainha da Prússia, que reuniu em sua corte um grupo de notáveis compositores, em visita ou residentes, como Agostino Steffani, Attilio Ariosti, Giovanni Bononcini, Arcangelo Corelli e outros. Händel entrou em contato com eles e admirou sua música. Tocando na corte, causou forte impressão na Eleitora, e segundo relatos foi-lhe oferecida uma bolsa de estudos na Itália, que teria sido recusada pela sua família. Em 1701 Telemann visitou Halle e procurou conhecer o jovem músico de quem tinha ouvido boas referências, dando início a uma amizade que perdurou ao longo de toda a vida. Em 1702 conseguiu o posto de organista na catedral calvinista de Halle, na condição de candidato probacionário e, tentando honrar a memória e o desejo de seu falecido pai, começou a estudar Direito, mas abandonou as aulas. Em 1703, quando estava a ponto de ser confirmado no posto de organista, renunciou e foi para Hamburgo, que nessa época era um dos maiores centros operísticos da Alemanha.
Segundo o testemunho de Johann Mattheson, a quem encontrou em Hamburgo, Händel em sua chegada à nova cidade já era capaz de escrever longas cantatas, mal estruturadas quanto à forma e num estilo antiquado, mas em tudo corretas no que diz respeito à harmonia; quanto à fuga e ao contraponto, disse que ele sabia mais do que Johann Kuhnau, um mestre celebrado da geração anterior. Mattheson era quatro anos mais velho que Händel, imediatamente ficaram amigos e Mattheson, considerando-o uma espécie de protegido, o introduziu na fervilhante vida musical de Hamburgo. Em agosto desse ano ambos viajaram a Lübeck para tentar o posto de organista da igreja, sucedendo a Dietrich Buxtehude, mas entre os requisitos para o cargo estava o de casar com a filha de Buxtehude. Ela era muito mais velha que eles e ambos desistiram. Voltando para Hamburgo, possivelmente por intervenção de Mattheson, Händel ingressou na orquestra da ópera local, assumindo o posto de violinista. E logo seu talento se fez notar. Certa ocasião, na ausência do maestro, ocupou seu lugar, e foi tão bem-sucedido que foi-lhe dado o cargo. Permaneceu como líder da orquestra por três anos, e em 1705 compôs sua primeira ópera, Almira, com a ajuda de Mattheson. A ópera foi estreada com Mattheson cantando a parte de Antônio, e como este músico tinha uma inclinação ao exibicionismo, assim que seu personagem morria, ele assumia a regência, deslocando Händel. Numa das récitas Händel se recusou a entregar o posto, sobreveio uma discussão e ambos acabaram duelando. Por fortuna a espada de Mattheson quebrou ao atingir um botão de metal na roupa de Händel, e o duelo terminou. Depois se reconciliaram, e Mattheson cantou o papel principal de outra ópera de Händel, escrita às pressas para a mesma temporada, Nero, que se revelou um fracasso de público. Pouco depois, por causa incerta, Händel foi demitido. Talvez o fracasso de Nero tenha concorrido para isso, mas o teatro estava em difícil situação econômica e administrativa, e provavelmente a demissão ocorreu sem causa específica, num contexto de contenção geral de despesas.